25/05/2024 - Edição 540

Poder

Eis o que faltou responder: Por que Cid tentou melar a delação?

Depoimento do ex-faz-tudo de Bolsonaro foi corroborado por provas documentais e testemunhais

Publicado em 06/05/2024 9:56 - Josias de Souza - UOL

Divulgação Alan Santos/PR/Divulgação

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Por ordem de Alexandre de Moraes, Mauro Cid foi posto novamente em liberdade vigiada na última sexta-feira. Estava preso desde 22 de março. Na véspera, dia em que Bolsonaro fizera aniversário de 69 anos, a voz do delator havia soado em áudios vadios que colocavam em xeque sua própria delação.

No seu despacho, Moraes anotou que “foram reafirmadas” em novos depoimentos de Cid “a regularidade, legalidade, adequação dos benefícios pactuados e dos resultados da colaboração à exigência legal e a voluntariedade da manifestação de vontade”. Bom, muito bom, ótimo. Mas ficou boiando no ar uma interrogação.

Por que diabos o ex-ajudante de ordens do capitão tentou desqualificar a própria colaboração antes do recebimento do pretendido prêmio judicial?, eis o que faltou responder. Os comentários tóxicos de Cid foram extraídos de suposto diálogo com um amigo. As frases ultrapassaram as fronteiras do paroxismo.

Cid detonou a Polícia Federal, insinuando que seus inquisidores o forçaram a delatar inverdades: “Você pode falar o que quiser. Eles não aceitavam e discutiam. E discutiam que a minha versão não era a verdadeira, que não podia ter sido assim, que eu estava mentindo”.

O delator tratou a toga do relator do Supremo Tribunal Federal como um manto de suspeição: “O Alexandre de Moraes é a lei. Ele prende, ele solta, quando ele quiser, como ele quiser. Com Ministério Público, sem Ministério Público, com acusação, sem acusação”.

Referiu-se ao inquérito sobre a tentativa de golpe como um jogo de cartas marcadas, pois Moraes “já tem a sentença pronta. Só tá esperando passar um tempo. O momento que ele achar conveniente, denuncia todo mundo, o PGR acata, aceita e ele prende todo mundo.”

Sugeriu que a Polícia Federal foi seletiva ao colher seus depoimentos. Os investigadores teriam desdenhado, por exemplo, da revelação de um suposto encontro entre Bolsonaro e seu algoz: “Eu falei daquele encontro do Alexandre de Moraes com o presidente, eles ficaram desconcertados, desconcertados. Eu falei: ‘Quer que eu fale?’.”

O poeta português Fernando Pessoa ensinou que “o único sentido oculto das coisas é que elas não têm nenhum sentido oculto.” Gravações assim, tão comprometedoras, não chegam ao noticiário por acaso. O propósito do vazamento é claro como água de bica. Encurralado, Bolsonaro sonha com um tumulto nos inquéritos.

A delação de Cid foi corroborada por provas documentais e testemunhais. No inquérito mais cabeludo, sobre a tentativa de golpe, afora os dados recolhidos pela PF no celular e no computador de Cid, o enredo foi confirmado em depoimentos do general Freire Gomes e do brigadeiro Baptista Júnior, ex-chefes do Exército e da Aeronáutica.

Sem uma defesa que fique em pé, o capitão anseia por conturbações que lhe permitam reduzir todos os seus crimes a um debate sobre tecnicalidades processuais. Revelado pela revista Veja, o áudio de Cid encaixava-se como luva às necessidades de Bolsonaro e do alto-comando do golpe.

Reinquirido, Mauro Cid confirmou a autenticidade das gravações venenosas. Atribuiu o destampatório a “um desabafo”. Disse, entretanto, que não se recordava do nome do amigo que o levou a soltar a língua.

O advovado do delator, Cezar Bitencourt, afirmou que Mauro Cid “nem sabe com quem ele falou.” Heimmm?!?!? “O Cid tem três ou quatro amigos mais próximos, da carreira dele. Ele desabafou, chorou, e alguém deles ligou para outros amigos”.

Na decisão em que mandou soltar Mauro Cid, Moraes avalizou parecer da Procuradoria-Geral da República. Anotou que o delator compareceu à PF “por mais de uma vez, onde assinou novos termos de declaração e prestou informações complementares sobre os áudios divulgados.”

Citando manifestação da Procuradoria, Moraes sustentou que “os elementos trazidos aos autos indicam que o investigado segue contribuindo com as investigações e que permanecem hígidos os requisitos legais do acordo”.

Acrescentou que “não se verifica a existência de qualquer óbice à manutenção do acordo de colaboração”. Sustentou que, “apesar da gravidade das condutas, nesse exato momento, não estão mais presentes os requisitos ensejadores da manutenção da prisão.”

Pode-se fazer muita coisa por Mauro Cid, exceto papel de bobo. A meia-volta do ex-faz tudo de Bolsonaro é compreensível. Antes ser um oportunista e boiar, à espera de uma premiação da Justiça, do que afundar junto com o ex-chefe, com sua lealdade em volta do pescoço.

A essa altura, porém, o esclarecimento pleno do vazamento dos áudios providenciais é essencial para adicionar ao rol de complicações criminais de Bolsonaro a fabricação de uma desordem processual. A higienização do episódio não muda as sentenças condenatórias que estão no forno. Mas serve como agravante dos crimes imputados ao capitão.


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