29/05/2024 - Edição 540

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Putin mobiliza reservistas e faz ameaça nuclear

"O mundo está em perigo e paralisado", diz chefe da ONU

Publicado em 21/09/2022 8:58 - DW

Divulgação

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O presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou nesta quarta-feira (21) um esforço de guerra que ele chamou de “mobilização parcial” das Forças Armadas de seu país.

Em um discurso televisionado, Putin disse que a convocação de até 300 mil reservistas tem o objetivo de defender a Rússia e seus territórios durante a guerra na Ucrânia.

A decisão ocorre em meio a preocupações de Moscou em relação ao conflito, após uma bem-sucedida contraofensiva ucraniana ter reconquistado parte do território ocupado. Analistas afirmam que um dos motivos para o êxito do contra-ataque de Kiev foi a escassez de soldados russos.

Em sua fala nesta quarta-feira, Putin alegou ainda que o Ocidente deseja apenas destruir a Rússia, e não a paz na Ucrânia, e fez um alerta contra qualquer ataque ao território russo.

“Se a integridade territorial do nosso país estiver ameaçada, nós vamos usar absolutamente todos os meios disponíveis para proteger a Rússia e nosso povo. Isso não é um blefe”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Putin advertiu contra o que ele chama de “chantagem nuclear” de outros países contra a Rússia. “Aqueles que tentam nos chantagear com armas nucleares deveriam saber que a agulha da bússola pode virar em sua direção”, frisou.

As armas nucleares da Rússia foram colocadas em prontidão após o início da guerra na Ucrânia, e Putin já repreendeu países da Otan por fornecerem armamentos para ajudar Kiev.

Até 300 mil reservistas russos

Após o anúncio de Putin, autoridades da Rússia afirmaram que o número total de reservistas convocados pode chegar a 300 mil. De acordo com o ministro da Defesa, Serguei Shoigu, somente aqueles com experiência relevante em combate e serviço serão mobilizados.

Ele acrescentou que há cerca de 25 milhões de russos que se encaixam nesse critério, mas apenas 1% deles será convocado.

Outra cláusula do decreto assinado por Putin impede a maioria dos soldados profissionais de rescindir seus contratos e deixar o serviço enquanto a mobilização parcial estiver em vigor.

“Referendo” em regiões ocupadas

Em discurso, Putin ainda reafirmou que seu objetivo é “libertar” Donbass, no leste ucraniano, e que a maioria dos moradores da região não quer retornar ao que ele chamou de “jugo” da Ucrânia.

A Rússia classifica Lugansk e Donetsk – que juntas compõem a região de Donbass, que Moscou ocupou parcialmente em 2014 – como Estados independentes. Já a Ucrânia e o Ocidente consideram todas as partes da Ucrânia mantidas pelas forças russas como ilegalmente ocupadas.

A Rússia agora detém cerca de 60% de Donetsk e conquistou quase toda a região de Lugansk em julho, após avanços lentos durante meses de intensos combates.

Esses ganhos estão agora ameaçados depois que as forças russas foram expulsas da província vizinha de Kharkiv neste mês, perdendo o controle de suas principais linhas de abastecimento para grande parte de Donetsk e para o front em Lugansk.

O anúncio de Putin ocorre um dia depois de separatistas russos anunciarem a realização de “referendos” entre 23 e 27 de setembro para as províncias de Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporíjia, que representam cerca de 15% do território ucraniano – ou uma área do tamanho da Hungria.

“Não podemos e simplesmente não temos o direito moral de deixar que pessoas próximas de nós sejam destruídas por carniceiros. Não podemos deixar sem resposta o desejo sincero de definirem o seu destino”, afirmou Putin.

O líder russo frisou que a Rússia fará de tudo para garantir uma organização segura desses “referendos” para que “as pessoas exprimam a sua vontade”, e apoiará a decisão tomada pela população dessas regiões.

Anúncio de Putin pode ser “tiro no pé”

Para especialistas, o anúncio de Putin tem grandes riscos e pode tornar a guerra na Ucrânia impopular na Rússia, além de expor as deficiências militares do país.

É improvável que a mobilização traga quaisquer consequências sobre o campo de batalha durante meses, devido à falta de instalações para treinamento e equipamentos.

A embaixadora dos Estados Unidos na Ucrânia, Bridget Brink, escreveu no Twitter que a mobilização é um sinal “de fraqueza e do fracasso russo”. O ministro da Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, fez a mesma avaliação ao descrever o movimento de Putin como “uma admissão de que sua invasão está falhando”.

“Ele e seu ministro da Defesa enviaram dezenas de milhares de seus próprios cidadãos mal equipados e mal conduzidos para a morte”, afirmou Wallace. “Ameaças e propaganda não podem esconder o fato de que a Ucrânia está vencendo a guerra, que a comunidade internacional está unida e que a Rússia está se tornando um pária global”, frisou.

Pouco depois do discurso de Putin, a mídia russa noticiou o aumento da demanda por passagens de avião para o exterior, embora os bilhetes atualmente sejam mais escassos e caros do que antes do início da guerra.

O anúncio do líder russo ocorre durante a realização da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde a Rússia tem sido alvo de amplas críticas internacionais que colocam intensa pressão diplomática sobre Moscou.

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, deverá se dirigir aos presentes na reunião nesta quarta-feira com um anúncio pré-gravado. Já Putin não viajou para Nova York para participar da Assembleia.

“O mundo está em perigo e paralisado”, diz chefe da ONU

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, abriu a Assembleia Geral da ONU na terça-feira (20) com um alerta severo sobre um planeta cada vez mais dividido. Segundo ele, a humanidade está ameaçada por uma série de perigos, e as potências mundiais parecem relutantes ou incapazes de combatê-los.

“O mundo está em perigo e paralisado”, declarou o português aos chefes de Estado e de governo reunidos em Nova York, nos Estados Unidos, pedindo mais cooperação e ações urgentes para enfrentar as crises que afetam a todos.

Os problemas aos quais ele se refere – que vão desde a guerra na Ucrânia, a escassez de alimentos, o aumento dos custos de vida até as mudanças climáticas – ameaçam deixar o mundo num impasse, colocando-o numa “disfunção global colossal”, afirmou Guterres.

“Temos um inverno de descontentamento global no horizonte. Há uma intensa crise de custo de vida. A confiança está desmoronando. Desigualdades estão explodindo. Nosso planeta está queimando. O povo está sofrendo, e os mais vulneráveis são os que mais sofrem”, advertiu. “Essas crises ameaçam o próprio futuro da humanidade e o destino do nosso planeta.”

Segundo o chefe da ONU, a situação global é agravada porque muitos países estão optando simplesmente por não se envolver, e “o progresso em todas essas questões e outras está sendo refém de tensões geopolíticas”.

“A comunidade internacional não está pronta ou disposta a enfrentar os grandes desafios dramáticos da nossa era”, disse, insistindo que “nenhum grande desafio global pode ser resolvido por uma coalizão dos que têm vontade”. “Precisamos de uma coalizão do mundo”, concluiu.

Lista de crises

Em seu longo discurso, o chefe das Nações Unidas abordou todas as principais questões da agenda internacional, começando com uma crise alimentar reforçada pela guerra na Ucrânia que ameaça agravar a fome em vários países.

Sobre o tema, ele enfatizou a necessidade de resolver os problemas de fornecimento de fertilizantes, para os quais a ONU está tentando facilitar as exportações da Rússia. Tais exportações não estão sujeitas às sanções internacionais, mas foram esgotadas desde o início do conflito.

“Neste ano o mundo tem comida suficiente, o problema é a distribuição. Mas se o mercado de fertilizantes não estiver estabilizado, no próximo ano o problema pode ser o próprio fornecimento de alimentos”, declarou.

Sobre a guerra na Ucrânia, Guterres disse que a invasão russa desencadeou “destruição generalizada, com violações maciças dos direitos humanos e do direito humanitário internacional”, tirou milhares de vidas, deslocou milhões de pessoas e está afetando bilhões em todo o mundo.

Além disso, ele ressaltou que o conflito está agravando a divisão internacional e que existem “imensos perigos para a paz e a segurança global”. Guterres mencionou ainda um “barulho de sabres nucleares” que só agrava a instabilidade.

“Não há cooperação. Não há diálogo. Não há solução coletiva de problemas”, lamentou, além de pedir a criação de novos mecanismos para resolver essa divisão.

Ele também abordou a crise econômica e os efeitos da inflação desenfreada, especialmente nos países mais vulneráveis. “Cerca de 94 países – lar de 1,6 bilhão de pessoas, a maioria na África – estão enfrentando uma tempestade perfeita: as consequências econômicas e sociais da pandemia, o aumento dos preços dos alimentos e da energia, um peso da dívida esmagador, o aumento da inflação e a falta de acesso ao financiamento.”

Em resposta, Guterres pediu ao G20 – grupo das 20 maiores economias mundiais – um importante pacote de estímulo para aliviar essa crise.

A assembleia

O discurso do secretário-geral deu início à Assembleia Geral da ONU na terça-feira, que volta ao formato presencial num momento em que o mundo está dividido por múltiplas crises.

Após dois anos de restrições devido à pandemia e discursos em vídeo, os organizadores voltaram a pedir que os líderes participem pessoalmente se quiserem discursar – com uma única exceção feita para o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski.

A assembleia das Nações Unidas contará com pronunciamentos de cerca de 150 chefes de Estado e de governo ao longo desta semana. O presidente Jair Bolsonaro discursou nesta terça.


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