18/05/2024 - Edição 540

Mundo

Depois de Gaza, o massacre dos palestinos se transfere para Rafah

Brasil critica Israel e EUA e defende reconhecimento da Palestina na ONU

Publicado em 13/05/2024 11:33 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Jeremy Scahill (The Intercept_Brasil), Agência Brasil, Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Foto: Doaa Albaz/Anadolu via Getty Images

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Vai saber o que de fato acontece em detalhes e em toda sua extensão na Faixa de Gaza, uma vez que Israel proíbe o acesso de jornalistas ao enclave onde quase 35 mil pessoas foram mortas desde o início da guerra em 7 de outubro passado, a maioria mulheres e crianças, e não se envergonha de matar jornalistas palestinos e seus parentes.

Mas há ocasiões em que o governo de extrema-direita de Israel antecipa publicamente o que fará. O que a princípio parecia apenas uma travessia de Rafah, cidade do Sul, em direção a Gaza, cidade totalmente destruída na primeira fase da guerra, revela-se agora a tão temida invasão de Rafah, que hoje abriga os que fugiram de Gaza.

Fugiram, não. Deslocaram-se para Rafah a conselho de Israel no início da guerra. Israel queria trânsito livre em Gaza para atacar o grupo Hamas que ali mantinha a maioria dos seus combatentes, e destruir seu sistema de túneis que atravessa a cidade de uma ponta à outra. Mais de um milhão de palestinos foram então para Rafah.

Um número incerto de combatentes do Hamas foi morto em Gaza, bem como milhares de civis que ali insistiram em permanecer. Parte incerta do sistema de túneis também foi destruída. Agora, Israel está pronto para invadir por terra Rafah, onde diz que se esconde combatentes do Hamas que fugiram de Gaza.

Naturalmente, sobrará mais uma vez para os palestinos. Na madrugada deste domingo, o jornal israelense Haaretz estampava a manchete: “Israel lança bombardeio pesado no norte de Gaza”, enquanto o The Guardian, o mais importante jornal inglês, preferia destacar: Famílias fogem em pânico de Rafah enquanto Israel inicia um ataque total”.

Chamou a atenção do jornal inglês os folhetos lançados por Israel sobre Rafah e seus comunicados postados nas redes sociais. Só no final deles, Israel advertiu os palestinos para o caráter iminente de suas ações em Gaza por meio de bombardeios, e em Rafah por meio de uma ofensiva terrestre. É mais um massacre que se anuncia.

Os que queiram tentar escapar dele não têm muito para onde correr. Um ataque simultâneo a Gaza e Rafah não deixa espaço seguro para ninguém em fuga. Era o que mais temia o governo do presidente americano Joe Biden, que bancou e ainda banca as ações de Israel em Gaza, mas que se opõem à invasão de Rafah.

Mais de cem mil palestinos fugiram de Rafah no sábado. As estradas que saem da cidade estavam repletas de longas colunas de jovens e velhos, doentes e saudáveis, viajando em picapes sobrecarregadas, carros danificados e carroças puxadas à mão. Muitos caminhavam, carregando seus pertences sob um sol escaldante de verão.

“Estamos agora num estado de extrema tensão e ansiedade”, afirma Dina Zayed, 54 anos, que está em Rafah há seis meses desde que fugiu do norte de Gaza. “Não sabemos o que vai acontecer conosco. Estamos indo em direção ao desconhecido. Todo mundo sente o mesmo. Nossos próximos dias serão muito difíceis.”

Ao dirigir-se à imprensa no sábado à noite, em Tel Aviv, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel, o general Daniel Hagari, disse que as operações em Rafah serão “limitadas e táticas”, e que o exército está evitando operar em áreas densamente povoadas. Enfatizou que Israel luta contra o Hamas, não contra os palestinos. Pois sim…

Os EUA ofereceram informações a Israel, incluindo sobre a localização dos líderes do Hamas e túneis escondidos em Gaza, em troca de evitar uma grande invasão terrestre a Rafah, segundo o jornal Washington Post. Não adiantou. Organizações internacionais de ajuda humanitária não têm mais condições de atuar no enclave.

O chanceler alemão, Olaf Scholz, disse que um ataque terrestre a Rafah seria irresponsável e levaria a uma perda massiva de vidas civis: “Não acredito que exista qualquer abordagem que não conduza a uma incrível perda de vidas humanas de civis inocentes”. Ele repete o que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está cansado de ouvir em vão.

Israel quer expulsar 600 mil crianças palestinas de Rafah

Ao entrar com seus tanques essa semana em Rafah, na Faixa de Gaza, os militares israelenses agiram rapidamente para tomar o controle do lado palestino da passagem de fronteira com o Egito. A tomada interrompeu o único corredor que ligava os palestinos em Gaza a terras não controladas por Israel. Em um ato simbólico injustificado, um tanque israelense demoliu o monumento “Eu amo Gaza” que recebia os visitantes ao atravessarem do Egito.

O ataque, e a iminente invasão em grande escala de Rafah, que vem sendo anunciada por Israel a despeito das objeções cheias de ressalvas da Casa Branca, coloca sobre os civis palestinos o peso da incessante ofensiva. Israel logo fechou a passagem de fronteira em Rafah. O fechamento praticamente bloqueia a pouca ajuda que ainda chegava a Gaza.

Os moradores de Gaza estão sendo empurrados mais uma vez para o jogo distópico de tentar compreender os mapas criados pelos israelenses, que marcam para qual área delimitada eles precisam se locomover para evitarem a morte certa. Imagens transmitidas nas redes sociais pelo porta-voz em língua árabe das forças armadas israelenses instruíram os civis em Rafah a se locomoverem de volta na direção do centro de Gaza até Khan Younis, um território que os contínuos ataques aéreos e terrestres de Israel deixaram em ruínas.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, está implorando ao governo israelense e seus apoiadores por um cessar-fogo e uma mudança de curso nos planos de fazer uma invasão em grande escala em Rafah.

“Há 600 mil crianças buscando abrigo em Rafah, e muitas delas já foram deslocadas várias vezes”, disse Tess Ingram, do Unicef, que voltou recentemente de Gaza, em entrevista ao Intercept dos EUA. “Elas estão exaustas, traumatizadas, doentes, famintas, e sua capacidade de se retirar com segurança é limitada.”

“A área para onde a evacuação está sendo direcionada não é segura. Não é segura porque lá não há serviços para atender suas necessidades básicas: água, banheiros, abrigo”, explica ela. “Mas também não é seguro porque sabemos que aquela área já sofreu ataques embora seja chamada de zona segura. Por isso estamos realmente preocupados com o impacto de uma ofensiva terrestre em uma das regiões mais densamente povoadas do mundo.”

Antes que Israel iniciasse a estratégia de terra arrasada na sua guerra em Gaza, Rafah era uma cidade de aproximadamente 250 mil habitantes. Com a chegada dos palestinos fugindo dos ataques israelenses, a população é atualmente estimada em 1,4 milhão de pessoas.

“A realidade das crianças que vivem lá é assustadora, honestamente. As pessoas estão vivendo em condições realmente precárias”, diz Ingram. “É um espaço inacreditavelmente lotado. Em todos os lugares por onde você anda, fica quase ombro a ombro com outras pessoas. Abrigos improvisados se espalham para fora dos edifícios, passando pelas calçadas e chegando às ruas. As pessoas estão vivendo em qualquer lugar onde encontrem espaço, sob pedaços de lona ou cobertores. E isso se estende até onde é possível ver.”

Ingram diz que o Unicef não está conseguindo entrar em Gaza com suprimentos ou combustível desde domingo.

“Estamos realmente raspando o fundo do barril agora com o combustível que ainda temos em Gaza. Não conseguimos entrar com mais”, conta. “E esse combustível é a força vital das operações de ajuda humanitária em Gaza. Sem ele, sistemas importantes como usinas [de dessalinização], hospitais, entrega de alimentos, e caminhões, todos deixarão de existir.”

Matt Miller, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, confirmou as alegações de Ingram, e disse em uma coletiva de imprensa na tarde de quarta-feira que nenhum combustível havia entrado pela passagem de Rafah ou por Karem Shalom, apesar da insistência dos EUA. Ele acrescentou que os EUA disseram a Israel que, ao assumir o controle da passagem, eles agora têm a responsabilidade de abri-la rapidamente. Mesmo que os caminhões de ajuda comecem a entrar em Gaza novamente, diz, a ajuda não pode ser distribuída sem combustível.

Israel não vai recuar

As terríveis condições começaram à medida que as forças israelenses continuaram a bombardear Rafah e mobilizar forças para os arredores, ao mesmo tempo estrategicamente tomando território, como a passagem de fronteira, e reunindo tropas em preparação para a invasão total.

Ao longo dos últimos sete meses de ataques incessantes contra a população civil de Gaza, durante os quais mais de 35 mil palestinos foram mortos, autoridades e porta-vozes israelenses vêm dizendo ao mundo que Israel não tem intenção de ocupar a Faixa de Gaza. A tomada de Rafah é um lembrete importante de que isso era uma mentira, e continua sendo.

Mesmo sem posicionar seus tanques na passagem, Israel exerce a autoridade suprema sobre o que entra no território sitiado; Israel já realizava inspeções de segurança no lado egípcio, que vinham atrasando a chegada de ajuda humanitária desde o ano passado. A presença de tanques no lado de Gaza serve apenas para militarizar publicamente a realidade.

O governo Biden passou semanas defendendo na imprensa uma narrativa de que Rafah representa um limite intransponível para o governo. No entanto, o presidente americano conversou com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, antes da operação, e um alto oficial israelense relatou que “Biden não puxou o freio de mão em relação à captura da passagem de Rafah”.

A Casa Branca manifestou leves receios sobre a tomada da fronteira uma vez que os tanques chegassem, mas o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Almirante John Kirby, defendeu a medida israelense, dizendo que o governo teria recebido dos israelenses a garantia de que não seria “uma grande operação terrestre”.

Embora os EUA tenham simbolicamente retido um carregamento de armas, autoridades americanas deixaram claro que pretendem continuar a armar Israel. Israel minimizou a importância do atraso das armas e diz que os aliados de longa data estão resolvendo as questões a portas fechadas.

Algumas das tensões de bastidores vieram a público esta semana, quando Tali Gottlieb, autoridade do Likud e integrante do Knesset, fez ataques verbais aos EUA, ameaçando aumentar os crimes de guerra em resposta à retenção das armas. “Os EUA estão ameaçando não nos dar mísseis de precisão. É mesmo?”, disse ela. “Bem, tenho notícias para os EUA. Temos mísseis sem precisão. Vou usá-los. Vou apenas destruir dez edifícios. Dez edifícios. É o que vou fazer.”

Diante da pergunta do Intercept sobre a ameaça de Gottlieb, o porta-voz do Departamento de Estado respondeu com uma crítica. “Esses comentários são absolutamente deploráveis, e integrantes de alto escalão do governo israelense não deveriam fazê-los”, diz Miller.

Biden foi mais longe na quarta-feira, e disse a Erin Burnett, da emissora CNN, que se Israel invadir Rafah, os EUA interromperão o fornecimento de projéteis de artilharia, bombas, e outras armas ofensivas.

O governo de Israel ofereceu uma série de justificativas para a incursão em Rafah: derrotar quatro batalhões do Hamas, fechar as rotas de contrabando, pressionar o Hamas a assinar um acordo para libertar os reféns israelenses. As famílias dos reféns israelenses, por sua vez, vêm realizando grandes manifestações exigindo que Netanyahu assine imediatamente um acordo para libertar os prisioneiros.

Havia um acordo desse tipo na mesa quando Israel tomou a passagem de fronteira, mas as autoridades israelenses reiteraram sua disposição em conquistar Rafah com ou sem acordo.

O Unicef estima que as pessoas em Rafah tenham acesso a aproximadamente três litros de água potável por dia, que precisam usar para beber, cozinhar, limpar e tomar banho. A agência diz que o recomendado para populações em situação de emergência é um mínimo de 15 litros por pessoa, por dia. Há atualmente um banheiro para cada 850 pessoas. A diarreia está disseminada, meninas e mulheres não têm acesso consistente a produtos sanitários, e as fraldas para bebês são escassas.

“As pessoas não podem esperar horas para usar um banheiro ou não se sentem seguras em fazer isso. Por isso, as pessoas precisam recorrer a outros métodos, como defecar a céu aberto”, diz Ingram, do Unicef. “Quando você caminha por Rafah, frequentemente vê, cheira e precisa contornar vazamentos de esgoto, porque os sistemas de saneamento não estão funcionando adequadamente, e as pessoas não têm outras opções.”

Se Israel ampliar suas operações em Rafah, causando um êxodo em massa de pessoas, as áreas para onde estão sendo direcionadas a fugir não têm sequer essa infraestrutura frágil e inadequada.

“É difícil dimensionar que uma situação tão ruim ainda possa piorar, mas pode ser pior para essas pessoas se elas forem obrigadas a evacuar para uma área que não é segura, que não tem os serviços básicos de que elas precisam para sobreviver. E em Rafah essas coisas já estavam em falta”, diz Ingram.

“Quando estamos falando sobre crianças vulneráveis, que sobreviveram a sete meses de guerra e carregam as cicatrizes dessa guerra, física ou psicologicamente, sua capacidade de se locomover para esse tipo de área e sobreviver lá fica impactada, porque estão exaustas e traumatizadas, e precisam de mais apoio, não de menos.”

Tanques israelenses avançam no campo de refugiados de Jabaliya

Os tanques israelenses avançaram, nesta segunda-feira (13), no campo de refugiados de Jabaliya, no Norte da Faixa de Gaza. Em Rafah, ao Sul do enclave, perto da fronteira com o Egito, as forças israelitas intensificaram os bombardeamentos aéreos e terrestres nas zonas orientais da cidade.

Segundo a Reuters, os tanques tentavam avançar em direção ao centro do campo. As tropas israelenses teriam forçado centenas de palestinos alojados em abrigos a abandonar o local.

Segundo a Al Jazeera, as forças israelenses estão disparando contra ambulâncias que tentam chegar aos feridos, enquanto os ataques aéreos israelenses atingem áreas residenciais apinhadas, no interior do campo de refugiados. Há o registro de vários mortos e feridos. Jabaliya é o maior dos oito campos de refugiados da Faixa de Gaza – que datam da guerra de 1948, quando Israel foi fundado.

No sábado (11), o exército israelense emitiu ordens de evacuação para os residentes de Jabaliya, pedindo que abandonassem o local “imediatamente”, uma vez que as suas forças tentavam eliminar militantes do Hamas.

“Estavam bombardeando por todo lado, incluindo perto de escolas que acolhiam pessoas que perderam as suas casas”, afirmou no domingo (12) à Reuters um residente em Jabaliya. “A guerra está recomeçando, é assim que parece em Jabaliya”.

O braço armado do Hamas afirmou que os seus combatentes estavam envolvidos em tiroteios com as forças israelitas em Rafah e em Jabaliya.

Em Rafah, perto da fronteira com o Egito, Israel intensificou os bombardeios aéreos e terrestres no leste da cidade, matando pessoas em um ataque aéreo a uma residência.

Os moradores afirmaram que os tanques israelenses estão agora estacionados a leste da estrada de Salahuddin, que corta a parte oriental da cidade, com a rodovia cortada por intensos combates. Os residentes acrescentaram que a parte oriental de Rafah continua a ser uma “cidade fantasma”.

Em Israel, as Forças de Defesa fizeram soar as sirenes várias vezes em áreas próximas de Gaza, alertando para potenciais lançamentos transfronteiriços de foguetes e morteiros do Hamas.

O exército enviou tanques de volta a Zeitoun, bem como a Al-Sabra, onde os moradores também relataram ataques que destruíram várias habitações.

Na cidade de Rafah, no Sul do país, vivem 1,4 milhão de palestinos, a maioria dos quais deslocados devido aos bombardeios e aos combates.

A operação militar de Israel em Gaza já matou pelo menos 35 mil palestinos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Os bombardeios devastaram o enclave e provocaram uma profunda crise humanitária.

Brasil critica Israel e EUA e defende reconhecimento da Palestina na ONU

Num discurso que teceu críticas contra Israel e EUA, o governo brasileiro deu seu pleno apoio ao reconhecimento da Palestina como estado soberano e afirmou que o “dia da adesão” dos palestinos às Nações Unidas “está chegando”.

A declaração ocorreu na Assembleia Geral da ONU, nesta sexta-feira, depois do voto que chancelou o pedido para que o estado palestino seja reconhecido. A reunião foi marcado por um gesto do embaixador de Israel que triturou a Carta das Nações Unidas diante dos demais governos e causou indignação por parte dos governos de todo o mundo.

Os palestinos receberam 143 votos de apoio à sua adesão e apenas nove governos foram contra, entre eles EUA, Israel e a Argentina de Javier Milei. Mas, para isso ocorra, o Conselho de Segurança precisa aprovar a iniciativa. Em abril, o governo dos EUA já vetou qualquer gesto neste sentido e, nesta sexta-feira, o embaixador americano Roberto Wood afirmou que voltará a vetar o reconhecimento internacional dos palestinos.

A postura foi contestada pelo Brasil. “O dia da admissão da Palestina nas Nações Unidas como igual entre nós está finalmente chegando. A resolução adotada hoje é uma conquista significativa para a adesão plena do Estado da Palestina à ONU”, disse o embaixador brasileiro Sergio Danese.

“A determinação de hoje, por uma grande maioria dos membros, de que a Palestina atende aos critérios estabelecidos no Artigo 4 da Carta e está pronta para se tornar membro, não deixa dúvidas de que o processo de admissão da Palestina não deve se arrastar indefinidamente no Conselho de Segurança”, disse.

Para ele, a Assembleia Geral, principal órgão da ONU com autoridade para tomar a decisão final sobre essas questões, deve poder exercer seus poderes de acordo com a Carta.

“Uma maioria de mais de dois terços dos votos permitiu a determinação de hoje. Essa é a mesma maioria qualificada que se manifestará, quando chegar a hora, para admitir a Palestina como membro da ONU. Estamos confiantes de que isso ocorrerá imediatamente após o Conselho de Segurança, como esperamos, aceitar a recomendação emitida por esta Assembleia hoje”, disse.

Segundo ele, recomendação para que o Conselho reconsidere o pedido da Palestina tem mais do que apenas “autoridade moral e legitimidade política”, citando o apoio legal à iniciativa. “Um veto com motivação política que contradiga a determinação da Assembleia seria injustificável”, disse.

Danese afirmou que “chegou a hora de cumprir a promessa das Nações Unidas de um Estado palestino”.

Críticas contra Israel

O discurso não poupou alertas contra a ação de Israel. “Não podemos mais abandonar os palestinos a um destino que está sendo imposto unilateralmente pela força por aqueles que negam aos palestinos seu direito à autodeterminação”, disse, numa referência indireta aos israelenses.

“O que estamos testemunhando em Gaza, agora especificamente em Rafah, é um lembrete chocante dessa realidade inegável”, disse.

Segundo ele, a resolução de hoje “abrirá o caminho para um futuro com um Estado da Palestina viável vivendo lado a lado com Israel, em paz e segurança, dentro de fronteiras reconhecidas internacionalmente, de acordo com as resoluções relevantes das Nações Unidas”.

“Tão importante quanto isso é o fato de que a admissão da Palestina como Estado Membro, a ser efetivada em breve, tenho certeza, ajudará a restaurar a plena confiança nas Nações Unidas e no multilateralismo”, disse.

“Já não tivemos o suficiente? Os palestinos já não sofreram o suficiente?”, questionou.

O Itamaraty ainda criticou os assentamentos israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, alertando que eles seriam “claramente ilegais”.

“Eles alteram a composição demográfica e o status do território palestino e ameaçam a perspectiva de um acordo de paz abrangente no Oriente Médio”, disse Danese. Ele, porém, alerta que esses assentamentos “continuam inabaláveis”.

“E isso só tem sido enfrentado com a inação do Conselho, além de uma resolução de 2016 que lembra o que já sabemos: os assentamentos violam o direito internacional”, afirmou.

Seu questionamento ao governo de Israel foi explícito.

“Palavras legais sem ação incentivaram ainda mais o desprezo pela lei. A ocupação continua indefinidamente, cristalizando um sistema discriminatório contra os palestinos e a anexação do território palestino”, disse. “A ilegalidade das ações contra os palestinos tornou-se uma realidade generalizada no Território Palestino Ocupado”, lamentou.

Questionamento ao posicionamento dos EUA

Parte dos ataques brasileiro foi direcionado contra o veto americano no Conselho da ONU. “A catástrofe em Gaza, cujo último capítulo está se desenrolando em Rafah neste momento, não pode ser dissociada de nossa incapacidade de pôr fim a essa ocupação prolongada”, disse.

“Não pode ser dissociada da nossa repetida incapacidade de pôr fim às violações do direito internacional e garantir a indenização das vítimas na Palestina. Não pode ser dissociado do fracasso das Nações Unidas em cumprir o direito do povo palestino à autodeterminação, à mesma autodeterminação, à condição de Estado e de membro da ONU que os israelenses têm desfrutado desde 1948”, afirmou.

Para ele, a resolução adotada hoje “não deve se somar à pilha de documentos que apontam para uma solução, mas pouco fazem para chegar lá”.

Danese ainda concluiu lembrando que o Brasil reconhece desde 2010 o Estado da Palestina dentro das fronteiras de 1967, que inclui a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, com Jerusalém Oriental como sua capital.

“O Brasil tem esperança de que, como resultado da resolução de hoje, que outros órgãos das Nações Unidas não devem ignorar, a admissão da Palestina como membro pleno dessa organização, vinculada e protegida pela Carta da ONU, seja alcançada em breve”, disse. “Esse será um passo importante, com outros passos que devem ser seguidos com seriedade, no caminho para a realização da solução de dois Estados”, completou.


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