18/05/2024 - Edição 540

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Com 120 mil mortos, feridos e desaparecidos em Gaza, Israel ameaça com massacre em Rafah: “desumano”, diz ONU

Gaza retrocede 20 anos e precisará de US$ 40 bilhões para reconstrução

Publicado em 07/05/2024 10:17 - Jamil Chade (UOL), DW, Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Hatem Khaled - Reuters

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A iminente ofensiva de Israel sobre Rafah é chamada pela ONU de desumana. A entidade chega a falar em crimes de guerra e cobra que responsáveis sejam levados à Justiça.

O alerta é feito no dia em que o governo de Israel ordenou a retirada forçada de 100 mil palestinos de uma das regiões de Rafah, cidade ao sul da Faixa de Gaza e que abriga 1,4 milhão de pessoas fugidas da guerra.

Na segunda-feira (6), o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, alertou que “as mortes, o sofrimento e a destruição de civis devem aumentar além dos níveis já insuportáveis após as ordens de Israel para que os palestinos evacuem partes de Rafah antes de uma nova ofensiva prevista”.

“Os habitantes de Gaza continuam sendo atingidos por bombas, doenças e até mesmo pela fome. E hoje, eles foram informados de que devem se mudar mais uma vez, à medida que as operações militares israelenses em Rafah aumentam”, disse.

“Isso é desumano. É contrário aos princípios básicos das leis internacionais humanitárias e de direitos humanos, que têm a proteção efetiva de civis como sua principal preocupação”, afirmou.

Segundo ele, realocar à força centenas de milhares de pessoas de Rafah para áreas que já foram destruídas e onde há pouco abrigo e praticamente nenhum acesso à assistência humanitária necessária para sua sobrevivência “é inconcebível”. “Isso só os exporá a mais perigo e miséria”, alertou.

Durante a noite, pelo menos 26 palestinos em Rafah foram mortos, a maioria crianças e mulheres. Nesta segunda-feira, duas passagens para Rafah foram fechadas, interrompendo completamente o fluxo de ajuda humanitária.

Para ele, uma nova ofensiva não é a solução. “As lições dos últimos sete meses de conflito em Gaza são claras – com mulheres e crianças representando mais de 70% dos mais de 120 mil mortos, feridos e desaparecidos. Chega de mortes”, disse.

O chefe de Direitos Humanos da ONU insiste sobre a necessidade de um cessar-fogo. “A ajuda humanitária deve poder fluir livremente e em escala. E os reféns e as pessoas detidas arbitrariamente devem ser libertados imediatamente.”

Segundo ele, “não há nenhum local fora de Rafah com a infraestrutura e os recursos necessários para abrigar o deslocamento em massa de mais de um milhão de pessoas”.

Turk alertou ainda que o direito humanitário internacional proíbe ordenar o deslocamento de civis por motivos relacionados ao conflito, a menos que a segurança dos civis envolvidos ou motivos militares imperativos assim o exijam, e mesmo assim, sujeito a requisitos legais rigorosos.

“O não cumprimento dessas obrigações pode resultar em deslocamento forçado, que é um crime de guerra”, disse.

“No entanto, a experiência dos últimos sete meses mostra que os palestinos que permanecerem em Rafah continuarão correndo risco de morte e ferimentos, seja por bombardeios indiscriminados, assassinatos ilegais ou perda de acesso a alimentos, água e assistência médica”, disse Türk. “Não se pode permitir que isso aconteça”, disse.

“Aqueles que optam por desrespeitar a lei humanitária internacional e a lei internacional de direitos humanos devem ser responsabilizados”, completou.

O sangue está nas mãos de Netanyahu, primeiro-ministro de Israel

Em boa parte do país, milhares de israelenses foram às ruas na noite de ontem (6) para pedir ao governo de Benjamin Netanyahu que concorde com os termos de um acordo de cessar-fogo que o grupo Hamas, horas antes, anunciou que aceitava.

Pouco mais de mil manifestantes reuniram-se perto do quartel-general da Defesa, em Tel Aviv, enquanto em Jerusalém pelo menos uma centena marchou em direção à casa da família de Netanyahu, com uma faixa que dizia: “O sangue está nas suas mãos”.

Duas vezes, a polícia foi acionada para dispersar um grande protesto na rodovia Ayalon, em Tel Aviv, bloqueada por famílias de cativos em poder do Hamas; tocavam tambores, brandiam cartazes e gritavam a palavra de ordem: “Bibi está abandonando os reféns!”

O acordo de cessar-fogo foi proposto pelo Egito e o Catar, com o apoio velado dos Estados Unidos. A resposta de Israel foi o aumento de ataques à cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza, para onde, no início da guerra e por ordem de Israel, deslocaram-se cerca de 1 milhão de palestinos.

Órgãos internacionais alertaram para as graves consequências humanitárias e os cortes drásticos no fornecimento de ajuda, caso prossiga a ofensiva de Israel em Rafah. Nas últimas 48 horas, Israel orientou dezenas de milhares de pessoas a abandonarem a parte oriental da cidade.

“Uma incursão militar em Rafah poderia levar a um banho de sangue, devido ao quão densamente povoada Rafah se tornou”, disse Tamara Alrifai, diretora de relações externas da agência da ONU para refugiados palestinos, Unrwa.

As passagens de Rafah e Kerem Shalom – as únicas rotas de ajuda para a Faixa de Gaza – foram fechadas na segunda-feira, sem sinal claro de quando poderão reabrir. Dados da ONU mostram que nenhum caminhão de ajuda humanitária passou por Rafah no domingo.

Segundo o Wall Street Journal, os Estados Unidos atrasaram a venda de milhares de armas de precisão a Israel. A venda atrasada foi de cerca de 6,5 mil kits de Munições Conjuntas de Ataque Direto (JDAM), que permitem direcionar bombas não guiadas para um alvo.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, deve apresentar um relatório ao Congresso até amanhã sobre o aceite às garantias de que Israel está respeitando o direito internacional ao utilizar armamento americano.

Se a conclusão do relatório for de que Israel não respeita, isso aumentará, de um lado, os apelos pela suspensão da ajuda militar americana e, do outro, irritará os conservadores que defendem Israel, bem como os doadores de dinheiro para a campanha de Biden.

O presidente americano tenta se equilibrar numa corda bamba. Cobra o fim da guerra ao mesmo tempo em que renova seu apoio incondicional ao governo de Israel, qualquer que seja ele. Disso se aproveita o governo de extrema direita de Netanyahu.

Na véspera do Dia em Memória do Holocausto, na semana passada, Netanyahu foi taxativo: “Se não nos protegermos, ninguém o fará. Não podemos confiar nas promessas dos gentios”.

Está nos dicionários: na tradução cristã da Bíblia, a palavra gentio designa um não hebreu. Os hebreus estabeleciam uma divisão entre o povo, que definiam como eleito por Deus, e os gentios, posteriormente denominados pagãos. Israel é um Estado religioso que se diz democrata.

Gaza retrocede 20 anos e precisará de US$ 40 bilhões para reconstrução

A reconstrução da Faixa de Gaza custará até US$ 40 bilhões e a região já retrocedeu em 20 anos em termos econômicos e sociais. A constatação é do Escritório Regional para os Estados Árabes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (cuja sigla é Pnud), que avalia que apenas a fase inicial de recuperação deve durar de três a cinco anos e custará cerca de US$ 2 bilhões.

A Faixa de Gaza vem sendo bombardeada por Israel desde o início de outubro. Grandes áreas do enclave foram reduzidas a escombros e mais de 34.500 pessoas foram mortas.

A ONU acredita que vai precisar arrecadar dinheiro com doadores internacionais para um fundo que pode ser criado para administrar a eventual reconstrução. Os recursos serão usados principalmente para remover detritos, garantir que os serviços básicos estejam funcionando e iniciar a reforma de algumas casas.

A limpeza e a reconstrução das áreas destruídas serão lentas e perigosas devido às ameaças de minas e mísseis enterrados sob os prédios desmoronados ou danificados. A ONU estima que apenas essa limpeza de bombas não detonadas leve 14 anos para ser realizada.

Outra constatação é que 26 dos 30 municípios de Gaza deixaram de funcionar. Os serviços civis e as comunidades não têm mais nenhum tipo de maquinário, não podem gerenciar resíduos sólidos e não podem fornecer nenhum serviço municipal.

Até o momento, o Pnud calculou que mais de 70% das casas em Gaza foram destruídas, mas o número pode chegar a 80% ou 90% à medida que a guerra continua. A guerra ainda criou 37 milhões de toneladas de detritos.

Estima-se que a economia palestina tenha perdido 8,7% de seu PIB (Produto Interno Bruto) real em 2023 e 25,8% em 2024 — o equivalente a US$ 6,9 bilhões nos primeiros seis meses da guerra.

Situação humanitária já era crítica

Sob o bloqueio de Israel há 16 anos, Gaza já vivia uma situação humanitária considerada crítica e a pobreza e a fome dominavam seus 2 milhões de habitantes antes da atual guerra. Neste período, quatro conflitos atingiram a região. De um lado, grupos palestinos acusavam Israel de transformar Gaza em uma prisão a céu aberto. De outro, israelenses acusavam o Hamas de usar o sofrimento dos civis para justificar seus objetivos políticos.

Segundo a ONU, as taxas de pobreza na comunidade de refugiados palestinos, que constituem a maioria da população de Gaza, estão em torno de 81,5%.

O PIB per capita de Gaza — de cerca de US$ 1.000 por ano — era antes da guerra quatro vezes menor do que o dos países vizinhos ou mesmo o da Cisjordânia.

Antes mesmo dos ataques, a ONU alertava que Gaza estava em “suporte de vida”, com 80% da população dependente de assistência humanitária.

Três em cada quatro habitantes de Gaza dependiam de assistência alimentar emergencial e, apesar desse apoio, a taxa de insegurança alimentar grave aumentava. A taxa de desemprego em 2021 foi de 47%, sendo que a taxa geral de desemprego entre os jovens foi de 64%.

1,1 milhão de refugiados palestinos recebiam assistência alimentar da UNRWA — a agência da ONU para os refugiados palestinos —, em comparação com apenas 80.000 em 2000. Isso representa um aumento de 1.324%.

Entre 2007 e 2022, 292 dos poços de água em Gaza, usados para consumo doméstico e para plantações, foram danificados ou destruídos pelas forças de segurança israelenses. Oitenta e um por cento da água extraída dos aquíferos de Gaza não atende ao nível qualidade da água estabelecido pela OMS.

Plano prevê trocar 1 militar israelense por 50 palestinos e fim de guerra

A proposta que está sendo negociada entre Hamas e Israel prevê fases para a implementação de um acordo que poderia encerrar a guerra que já fez mais de 34 mil mortos. Cada uma das etapas seria de 42 dias e prevê, ao final, o fim do bloqueio sobre Gaza.

De acordo com os pacote entregue para as lideranças do Hamas e Israel e que está sendo mediado pelo Egito, Catar e EUA, o processo de paz ocorreria a partir de etapas. O Hamas sinalizou que estava disposto a aderir ao pacto, enquanto Israel alertou que a proposta ainda estava “distante” do que Tel Aviv gostaria de ver. Mas, ainda assim, as conversas foram mantidas.

A partir desta terça-feira (7), os negociadores voltam a se reunir no Cairo, na esperança de que um entendimento possa ser costurado.

Numa primeira etapa, o plano prevê:

– Cessar-fogo temporario

– Retirada das forças israelenses para o leste, longe das áreas mais densamente povoadas de Gaza.

– Os aviões e drones israelenses também parariam de sobrevoar Gaza por 10 horas por dia

– Hamas libertaria gradualmente 33 prisioneiros. Prioridade será dada para pessoas com mais de 50 anos, doentes ou crianças e adolescentes.

– Para cada civil israelense libertado vivo, Israel libertaria 30 crianças e mulheres palestinas detidas.

– Para cada mulher do exército de Israel libertada pelo Hamas, Tel Aviv libertaria 50 palestinos. 30 deles estariam cumprindo pena perpétua.

A ideia é de que, neste período de 42 dias, os palestinos poderiam voltar para suas casas, enquanto a reconstrução de Gaza poderia começar a ser implementado.

Segunda fase

– Fim permanente das operações militares e uma retirada israelense total de Gaza.

– Troca de prisioneiros, dessa vez envolvendo todos os homens israelenses restantes, incluindo soldados mantidos em cativeiro em Gaza. Os israelenses seriam libertados em troca de um número ainda não especificado de prisioneiros palestinos.

Terceira fase

– Troca dos restos mortais dos reféns e prisioneiros mantidos por ambos os lados.

– Plano de reconstrução de três a cinco anos para Gaza

– Fim do bloqueio israelense ao enclave.

Israel fecha emissora de TV árabe Al Jazeera

O gabinete de governo do premiê Benjamin Netanyahu anunciou no domingo (5) a suspensão das operações em solo israelense da emissora árabe de TV Al Jazeera, controlada pela monarquia do Catar.

A decisão vem após lei aprovada em abril pelo Knesset, o Parlamento de Israel, que autoriza o fechamento de emissoras estrangeiras que ameacem a segurança nacional diante da guerra que o país trava contra o Hamas na Faixa de Gaza. E, segundo o Ministério das Comunicações, terá efeito imediato.

Pouco depois do anúncio, a agência de notícias Reuters informou que policiais israelenses invadiram um hotel em Jerusalém oriental que era usado como escritório pelo canal.

De acordo com a imprensa israelense, a decisão do governo pode suspender a transmissão da emissora por 45 dias, prazo passível de prorrogação.

A medida inclui o fechamento dos escritórios da empresa em Israel, o confisco de equipamentos de transmissão, o corte do sinal de cabo e satélite e o bloqueio de sites. Não está claro, porém, se as atividades da emissora na Cisjordânia ocupada também foram afetadas.

No X (antigo Twitter), Netanyahu afirmou que a decisão foi “unânime”. O canal é acusado pelo governo israelense de promover “agitação” e fazer uma cobertura enviesada.

Relação já tensa piorou com a guerra em Gaza

Israel tem uma relação tensa com a organização de mídia catari, cuja cobertura da guerra em Gaza tem focado especialmente no lado dos palestinos. Israel acusa o canal de atuar em parceria com o Hamas e fazer propaganda do grupo radical islâmico que controla a Faixa de Gaza.

Um dos poucos veículos de imprensa que seguiu funcionando em Gaza após o início do conflito, em 7 de outubro, a Al Jazeera transmitiu imagens e vídeos de bombardeios aéreos mortais e hospitais lotados sob fogo israelense. Também exibiu com frequência imagens de combatentes do Hamas e de ataques a soldados israelenses.

A emissora catari foi fundada em 1996 e se destacou internacionalmente pela sua cobertura também crítica do mundo árabe.

O governo do Catar tem mediado negociações por um cessar-fogo entre Israel e Hamas. Antes da guerra eclodir, o país era um dos mais importantes apoiadores financeiros do grupo, que é considerado uma organização terrorista por diversos países do Ocidente. Há líderes do Hamas vivendo na capital do reino árabe, em Doha.

Al Jazeera fala em “ato criminoso”

Correspondente sênior da Al Jazeera em Israel, Imran Khan afirmou que o bloqueio atingiu não só a emissora, mas também o site. Segundo o jornalista, aparelhos usados no trabalho da empresa também foram afetados pela decisão, o que significa que seu telefone também poderia ser confiscado pelas autoridades.

“É uma proibição ampla e não sabemos por quanto tempo irá vigorar”, declarou Khan em pronunciamento publicado no site da Al Jazeera.

Chefe do escritório regional da emissora, Waleed Omari, disse que a empresa irá recorrer legalmente da decisão que “não é profissional, nem jornalística”, mas sim “política”.

“A rede de mídia Al Jazeera condena firmemente e denuncia este ato criminoso que viola direitos humanos e o direito básico de acesso a informação”, afirmou o canal em comunicado. “A Al Jazeera afirma seu direito de continuar a fornecer notícias e informação a suas audiências globais.”

Outras reações

O bloqueio também não tem o apoio de Estados Unidos e Alemanha, os aliados mais próximos de Israel, e foi criticada ainda pelo Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas.

“Uma mídia livre e independente é essencial para garantir a transparência e a responsabilização. Agora, mais ainda diante das duras restrições à cobertura em Gaza. A liberdade de expressão é um direito humano essencial”, afirmou o órgão da ONU via redes sociais.

A medida também foi criticada pelo Hamas, que falou em “violação flagrante da liberdade de imprensa” e esforço para esconder a “verdade” da guerra de Gaza.

O grupo, que comandou o ataque sem precedentes a Israel em 7 de outubro que desencadeou o atual conflito, disse em um comunicado que a decisão de fechar o canal de notícias foi “uma medida repressiva e retaliatória contra o papel profissional da Al Jazeera em expor os crimes e as violações” em Gaza, e “representa o ponto culminante da guerra declarada contra os jornalistas (…) com o objetivo de ocultar a verdade”.

O Comitê Internacional para Proteção de Jornalistas contabiliza até o início de maio 97 profissionais de imprensa mortos desde o iní,cio da guerra, sendo 92 deles palestinos. Vários deles eram funcionários da Al Jazeera.

Antes disso, em maio de 2022, a morte da repórter palestino-americana Shireen Abu Akleh durante a cobertura da emissora de uma operação israelense no campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia ocupada, escandalizou a opinião pública ao redor do globo. A Al Jazeera culpou militares israelenses pela morte e levou o caso ao Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia. Israel nega a acusação.


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