25/05/2024 - Edição 540

Mundo

Fecha-se o cerco a Israel que segue a massacrar palestinos inocentes

Ativismo contra a guerra em Gaza chega ao mundo corporativo

Publicado em 16/05/2024 11:28 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Arthur Sullivan (DW) – Edição Semana On

Divulgação Foto: Cristina Matuozzi/Sipa/picture-alliance

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Se tais iniciativas são apenas para dar uma satisfação ao distinto público, saberemos em breve. Se forem para valer, significa que Israel, além de isolado, está numa encruzilhada: ou suspende a guerra contra o Hamas ou sofrerá retaliações dos seus mais fiéis aliados. A ver.

“A União Europeia apela a Israel para que termine de modo imediato a sua operação em Rafah [Sul da Faixa de Gaza]”, disse o representante para a Política Externa e de Segurança da União Europeia, Josep Borrell. Que ameaçou:

“Se Israel continuar a sua operação, deixará em grande tensão as relações entre Israel e a União Europeia. Esta operação está a causar ainda mais obstáculos à distribuição de ajuda humanitária, e a aumentar o risco das pessoas à fome e ao sofrimento”.

A UNRWA, a organização da ONU que apoia refugiados palestinos, diz que o Norte de Gaza sentiu-se aliviado com as entregas de ajuda, mas que a situação no Sul “reverteu” desde que Israel assumiu em Rafah o controle do posto fronteiriço com o Egito.

O Egito foi o primeiro país do Oriente Médio a assinar a paz com Israel, mas agora, no Tribunal Internacional de Justiça, juntou-se à África do Sul para pedir medidas provisórias contra o modo como Israel age. Não ficou apenas nisso, porém.

O Egito também trabalhou deliberadamente para obstruir as operações israelenses e para tentar forçar o fim da guerra. Isto é algo que nunca aconteceu, nem mesmo durante as anteriores operações de Israel no Norte da Faixa de Gaza.

Os Estados Unidos têm pressionado Israel para deter sua incursão terrestre em Rafah sem um plano credível para retirar a população civil, o que, segundo Washington, levaria vários meses. Estima-se que estejam na cidade cerca de 1,4 milhões de palestinianos.

O Reino Unido protestou contra “um ataque inaceitável” de colonos israelenses a caminhões de ajuda destinados à cidade de Gaza.

Ativismo contra a guerra em Gaza chega ao mundo corporativo

Protestos pró-palestinos e as reações das forças de segurança têm abalado universidades americanas nas últimas semanas. Cenas semelhantes têm se repetido também na Europa.

Os protestos contra a conduta de Israel em sua guerra contra o Hamas desde os ataques terroristas de 7 de outubro também começaram a levantar questões no setor corporativo. O caso mais notável até agora é o do Google, que em abril demitiu 50 funcionários por participarem de protestos em dois de seus escritórios nos Estados Unidos.

“Somos um local de trabalho e nossas políticas e expectativas são claras: este é um negócio, e não um lugar para agir de forma que perturbe os colegas ou os faça sentir-se inseguros”, escreveu o CEO da gigante do setor de tecnologia, Sundar Pichai, em um e-mail aos funcionários.

Os protestos foram organizados pelo No Tech for Apartheid (“sem tecnologia para o apartheid”, em tradução livre). O grupo é formado principalmente por trabalhadores do Google e da Amazon contrários ao fornecimento, por parte das empresas, de serviços de web e tecnologia de nuvem ao governo e ao Exército israelenses. Esses serviços são prestados como parte de uma operação de computação em uma nuvem israelense conhecida como Projeto Nimbus.

Os trabalhadores demitidos entraram com uma queixa no Conselho Nacional de Relações de Trabalho dos EUA. A DW procurou o Google para comentar esse assunto, mas não obteve resposta até a publicação deste artigo.   .

Na avaliação de Sam Schwartz-Fenwick, advogado trabalhista no escritório Seyfarth Shaw em Chicago, dado que o protesto ocorreu na forma de uma ocupação que possivelmente perturbou outros funcionários, o Google provavelmente sairia vitorioso em uma disputa jurídica.

“Se você desafia uma decisão comercial de seu empregador que não afeta os termos e condições de seu emprego, isso não é algo protegido por lei”, disse Schwartz-Fenwick à DW.

Força de trabalho americana está cada vez mais politizada

Nos últimos anos, as empresas têm se deparado com uma força de trabalho cada vez mais ativista em questões políticas, sociais e culturais diversas.

“Isso está se tornando parte do cotidiano. Os empregadores têm que lidar constantemente com essas questões”, afirma Schwartz-Fenwick.

Co-autor do recém-lançado Speak Out, Listen Up (“Fale, escute”, em tradução livre), livro que aborda o ativismo político de trabalhadores, John Higgins diz que o assunto está se tornando uma característica definidora do local de trabalho e é algo ao qual as empresas muitas vezes não sabem como reagir.

Higgins explica que nos anos 1980 e 1990 predominava no mundo empresarial a noção de que os negócios eram alheios às questões globais. “Mas o que estamos vivendo agora é o desafio a essa noção. É dizer que as empresas não podem simplesmente se preservar por conta própria.”

Segundo Steve Rochlin, CEO da empresa de consultoria estratégica Impact ROI, essa onda de pronunciamentos oficiais das empresas e “tomadas de posição” atingiram seu pico nos Estados Unidos após o assassinato de George Floyd em 2020 e a proibição do aborto pela Suprema Corte em 2022.

Posicionamento defensivo e cauteloso sobre o conflito israelo-palestino

Para Higgins, a guerra Israel-Hamas e questões mais amplas em torno do conflito Israel-Palestina são especialmente desafiadoras para o mundo corporativo. Declarações públicas a respeito são, em suas palavras, “incrivelmente cautelosas”.

“A maioria das respostas deles tem sido defensiva. Muitas empresas globais estão bastante acostumadas com isso porque, se você faz negócios em Israel e no Oriente Médio, sempre teve que andar na corda bamba”, diz Higgins.

“Muitas empresas entendem que não podem ficar em silêncio sobre o conflito Israel-Hamas”, afirma Rochlin. “Mas não querem correr o risco de ofender ou alienar qualquer um dos lados. Muitas estão focando em apoiar seus funcionários. Eles decidiram que a melhor maneira de discutir o problema é lembrar os funcionários das políticas corporativas de não discriminação e não violência, e lembrá-los sobre programas de assistência aos funcionários para aqueles que estão achando difícil processar o conflito.”

Dado que as empresas têm clientes e funcionários com perspectivas e lealdades tanto israelenses quanto palestinas, muitas têm sido cuidadosas para não serem vistas escolhendo um lado.

“Em muitos casos, eles precisam ser capazes de explicar a linha que estão seguindo, dizer: ‘Estamos cientes de que temos funcionários palestinos e judeus, e sabemos que há uma tensão entre eles. É nossa responsabilidade manter os dois grupos seguros'”, diz Higgins.

Ativismo dos funcionários veio para ficar

Até agora, protestos de trabalhadores contra as ações de Israel em Gaza – onde, segundo o Ministério da Saúde controlado pelo Hamas, mais de 35 mil pessoas foram mortas em mais de sete meses de conflito – têm sido relativamente raros.

Mas os protestos no Google mostram que esse tipo de ativismo está se tornando cada vez mais possível.

Em 8 de maio, mais de 100 funcionários da União Europeia se reuniram do lado de fora da sede da Comissão Europeia em Bruxelas para protestar pelo mesmo motivo.

Higgins diz que a forma como as empresas lidam com o conflito acabou chamando atenção para como elas reagem ao aumento dos níveis de ativismo dos funcionários como um todo.

Segundo ele, quando muitas companhias, nos últimos anos, passaram a incentivar os trabalhadores a “trazerem todo o seu eu para o trabalho”, elas não estavam necessariamente preparadas para as opiniões políticas potencialmente divisivas. “Há um pouco de: ‘Bem, se você vai me permitir trazer todo o meu eu, então também vou trazer minhas questões políticas'”, explica Higgins.

Para o advogado Schwartz-Fenwick, as empresas enfatizam hoje junto aos trabalhadores que valorizam suas identidades completas no trabalho, mas chefes precisam entender que isso vai englobar também questões políticas e sociais. “Coisas que as pessoas antes talvez não compartilhassem no trabalho, elas se sentem mais confortáveis em fazer isso agora.”

Tanto Higgins quanto Schwartz-Fenwick apontam que uma grande parte do desafio para as empresas é que muitos trabalhadores se tornaram cada vez mais intolerantes em relação a outras perspectivas – um fenômeno, segundo Schwarz-Fenwick, acentuado pela pandemia, já que muitas pessoas teriam vivido esse período em “bolhas”.

Ambientalismo deve ser o próximo front

Higgins diz esperar que o ambientalismo seja um grande impulsionador do ativismo de trabalhadores nos próximos anos. “Estamos apenas no começo”, afirma. “A taxa de engajamento sério com o meio ambiente ainda é lenta dentro do setor corporativo. E a geração mais jovem está realmente revoltada com isso”.

Segundo ele, as empresas terão que se preparar para enfrentar acusações de “greenwashing”, além de aprenderem se e quando responder a questões políticas, ambientais e sociais levantadas pelos trabalhadores.

“A questão é: como escolhemos sobre quais questões vamos ter uma opinião, e quais não? Porque você não precisa ter uma opinião sobre tudo.”

Rochlin ressalta que as empresas estão constantemente sendo julgadas por seu impacto nas pessoas e no mundo em geral. “Toda empresa deve entender que haverá uma variedade de questões sobre as quais elas não podem se dar ao luxo de ficar caladas”, diz.


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