23/04/2024 - Edição 540

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Política externa do Governo vive momento decisivo

Lula tem uma saída para o imbróglio em que se meteu: mudar de assunto

Publicado em 18/04/2023 3:45 - Jamil Chade (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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A diplomacia do novo governo brasileiro vive seu momento decisivo. Ao apostar na manutenção do diálogo com todos os lados envolvidos na guerra da Ucrânia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva agora caminha por um percurso dos mais arriscados. Se a independência de sua política externa é o centro de sua estratégia de inserção internacional, as declarações apontando o dedo aos ocidentais abrem um momento desafiador.

Americanos e europeus já deixaram claro que não apreciaram a postura de Lula nos últimos dias. Esperavam do brasileiro um certo grau de gratidão pelos apoios que deram à democracia brasileira. Em diplomacia, não existem amigos e nem ideologia. Apenas interesses.

Qual era o interesse deles? Trazer o Brasil para o bloco ocidental.

Dentro do Itamaraty, porém, a percepção é de que não houve sinalização da parte dos americanos e europeus de uma relação equilibrada. Bruxelas continuam a dificultar acordo comercial com o Mercosul, enquanto Joe Biden continua distante.

Num esforço de criar um espaço próprio na geopolítica internacional, o novo governo deu sinalizações a ambos os campos.

Lula agradou o Ocidente quando:

Votou ao lado de americanos numa resolução na ONU condenando a agressão dos russos contra a Ucrânia.

Assinou uma declaração com Biden na qual condenava a agressão russa.

Assinou declaração conjunta com o alemão Olaf Scholz apoiando a perspectiva da Europa na guerra.

Disse que a Rússia fez erro histórico ao invadir a Ucrânia.

Aceitou dialogar com Zelensky

Mas Lula deu sinalizações aos russos quando:

Votou ao lado de Moscou numa resolução no Conselho de Segurança pedindo uma investigação sobre a explosão do gasoduto no Mar do Norte.

Recebeu o chanceler Serguei Lavrov e não rebateu a declaração do russo de que os dois países têm a mesma perspectiva sobre a guerra.

Sinalizou apoio ao plano de paz chinês

Equiparou Ucrânia e Rússia na responsabilidade pela continuação do conflito

Disse que europeus e americanos prolongam a guerra.

Sugeriu que a retomada da Crimeia fosse abandonada pelos ucranianos.

Criticou as sanções impostas contra Moscou.

Quais são os riscos:

Para diplomatas, a realidade é que a ideia de paz como um acerto negociado com o Kremlin não atende aos objetivos de americanos e europeus de enfraquecer Putin. Na Casa Branca, o objetivo é de que o presidente russo saia debilitado do conflito. E não consolidado.

Portanto, Lula corre o risco de ser um obstáculo a esse objetivo.

Mas, para esses observadores, se simplesmente assumir o posicionamento da Rússia ou da China no conflito, o Brasil corre o risco de perder o status que ainda luta para ter de interlocutor privilegiado entre os dois campos. E, acima de tudo, de abrir uma porta perigosa de legitimação de violações.

Se o argumento da paz for apenas um instrumento para acelerar um maior equilíbrio entre o novo bloco emergente e as potências Ocidentais, a estratégia não será vista como neutralidade.

Como explicar isso às famílias de Bucha? Ou aos milhões de refugiados?

Para diplomatas estrangeiros, o governo Lula tem de dizer com insistência onde está na questão da agressão de uma potência estrangeira contra um país independente. E se fosse no Brasil?

O governo insiste que já demonstrou que apoia o direito internacional e que apenas luta para garantir um caminho do diálogo. Segundo o Itamaraty, o governo deu essa mensagem clara aos russos.

Mas se quiser ainda buscar esse posto de facilitador, Lula terá de dar demonstrações dessa posição nas próximas semanas. Primeiro, durante a viagem de Lula para a Europa, nesta sexta-feira. Depois, em maio, na cúpula do G7, bloco coeso e que vai pressionar por uma declaração de condenação contra Moscou.

Experientes negociadores lembram que essa não é a primeira vez que Lula e as potências ocidentais se chocam.

Em 2003, seu governo criou na OMC um bloco de economias emergentes que fez naufragar os interesses americanos e europeus de abertura de mercados, sem reciprocidade aos países em desenvolvimento. Lula ainda freou o projeto da Alca. Naquele momento, Lula rejeitou o apelo de George W. Bush para se aliar aos americanos na guerra contra o Iraque.

Em 2008, ele fustigou os países ricos, chamando a crise financeira de um problema criado por homens de “olhos azuis”.

Hoje, o Brasil voltou. Mas desembarca em um mundo em ebulição e onde uma nova ordem internacional está em jogo. A política externa de Lula, portanto, vive seu maior desafio.

Mediação não move impérios, ensina a História

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que ontem se reuniu com o chanceler russo, Sergey Lavrov, o segundo homem mais poderoso do seu país, insiste em dizer que o Brasil não arredou pé da posição que adotou na Organização das Nações Unidas de condenar a Rússia por ter invadido a Ucrânia.

Segundo Vieira, ele defendeu junto a Lavrov um cessar-fogo imediato na Ucrânia e uma solução pacífica para o conflito. E recordou as manifestações recentes de Lula a favor da formação de um grupo de países para mediar as negociações entre a Rússia e a Ucrânia. “Tratamos de paz, não de guerra”, pontuou Vieira.

Pode ter sido. Mas o ministro precisa combinar com Lula para que ele não reforce a impressão de que o Brasil, sob o seu comando, começa a abandonar a neutralidade que é a marca registrada de sua política externa. Nos quatro anos de Bolsonaro, o Brasil alinhou-se incondicionalmente aos Estados Unidos de Trump.

Agora, ao desalinhar-se dos Estados Unidos de Biden, não tem porque alinhar-se ao outro lado. Quando Lula afirma que nem o presidente Vladimir Putin toma a iniciativa de parar a guerra, nem o presidente Zelensky, ele estabelece uma falsa equivalência. A Ucrânia é quem foi invadida, e é legítimo que se defenda.

Lula é ingênuo – ou simula ser – ao imaginar que mediação move os impérios. Nunca moveu. Impérios ganham ou perdem guerras. Ou na impossibilidade de ganhá-las, negociam um cessar-fogo com seu oponente ou batem em retirada. Foi assim no Vietnã. Na Coreia, nenhum dos lados se deu por vencido até hoje.

A China tem um plano de 36 pontos para mediar a guerra na Ucrânia, e se ainda não o levou adiante é porque não conseguiu, ou porque a hora de fazê-lo ainda não chegou. Que plano tem Lula? Que importância tem o Brasil no cenário mundial para liderar um esforço de mediação? Se Lula tem algum plano, esconde.

Os Estados Unidos recusam-se a credenciar Lula para mediar qualquer coisa; valem-se da Ucrânia para enfraquecer a Rússia. É a guerra terceirizada. A China recebeu Lula com toda pompa e circunstância, mas também não o credenciou para ser mediador. Lula tenta obter da Rússia essa credencial.

Falta no governo Lula quem se disponha a fazer o papel que em 2007, em Santiago do Chile, durante a XVII Conferência Ibero-Americana de chefes de Estado, fez o rei Juan Carlos 1º, da Espanha, ao irritar-se com o presidente venezuelano Hugo Chávez que não parava de falar. A certa altura, o rei gritou:“¿Por qué no te callas?”

Lula tem uma saída para o imbróglio em que se meteu, demasiadamente encantado com si mesmo, a pensar que só deve a eleição aos próprios méritos: hoje ou amanhã, o governo enviará ao Congresso o plano de gastos para os próximos anos. A agenda de assuntos internos poderá obrigá-lo a mudar de assunto. A ver.


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