25/02/2024 - Edição 525

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Netanyahu e sua aposta fracassada na divisão dos palestinos

Primeiro-ministro israelense acreditava que manter o Hamas vivo era a chave para impedir o Estado palestino

Publicado em 23/01/2024 10:26 - Felix Tamsut - DW

Divulgação ABIR SULTAN/Pool via REUTERS

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Quando se trata do conflito israelo-palestino, a abordagem adotada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sempre foi a de manter o status quo.

Apesar do famoso discurso na Universidade de Bar-Ilan em 2009, no qual, em princípio, concordou com o estabelecimento de um Estado palestino, o que Netanyahu demonstrou com suas ações é que ele e também seus governos sempre estiveram mais interessados em perpetuar o conflito interno palestino entre o Hamas e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) – mesmo que o preço fosse manter o Hamas vivo.

De acordo com o site conservador israelense Mida, Netanyahu disse ao seu partido, Likud, em 2019, que permitir que o dinheiro do Catar chegasse ao Hamas era fundamental para impedir um Estado palestino. “É parte da nossa estratégia: criar uma separação entre os palestinos em Gaza e na Cisjordânia.”

Ao longo dos anos, grande parte da sociedade israelense foi indiferente a essa abordagem. No entanto, após o 7 de Outubro, a situação mudou.

À procura de novas abordagens

Uma das frases mais repetidas em Israel após os horrores dos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro é “shinui konsepzia“, que significa “mudança de abordagem”. As pessoas esperam, de ambos os lados do espectro político israelense, soluções diferentes das que lhes foram oferecidas até 6 de outubro.

E Netanyahu não conseguiu oferecer nenhuma nova solução até agora.

É preciso dizer, no entanto, que, como apontado pelo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, grande parte da sociedade israelense nem mesmo acredita que haja uma solução para o conflito.

Extrema direita avança

Enquanto israelenses liberais e de esquerda pedem a realização de eleições e querem a saída de Netanyahu, seu governo, que inclui políticos da extrema direita, está tentando usar a guerra para restabelecer os assentamentos que Israel encerrou em 2005, quando deixou a Faixa de Gaza.

Embora o próprio Netanyahu continue repetindo que Israel não tem intenção de fazer isso, seus parceiros de coalizão, liderados pelo ministro da Segurança Nacional, o extremista Itamar Ben-Gvir, têm ido de emissora em emissora para defender soluções como a “migração voluntária” dos palestinos em Gaza.

A ascensão de Ben-Gvir reflete também o quanto Netanyahu perdeu o controle sobre seu próprio governo. No passado, elementos radicais da direita de Israel eram claramente criticados por todos os outros partidos políticos, inclusive o Likud. Netanyahu apoiou abertamente Ben-Gvir – a figura mais conhecida da extrema direita de Israel, condenado duas vezes por apoio a uma organização terrorista – em prol da própria sobrevivência política, legitimando-o no processo.

Agora, as pesquisas mostram que, enquanto o apoio a Netanyahu continua diminuindo, o partido extremista de Ben-Gvir deverá obter ainda mais assentos parlamentares do que os atuais seis.

Aconteça o que acontecer, a sociedade israelense pós-7 de Outubro será muito diferente da que havia antes, tanto politicamente quanto em outros aspectos, e será essa sociedade que irá julgar as declarações mais recentes de Netanyahu sobre Israel ter de controlar a Faixa de Gaza no dia seguinte ao término do conflito.

O lugar de Netanyahu na história será determinado por duas perguntas: O Hamas continua sendo uma ameaça para Israel? Os reféns poderão retornar em segurança?

Se o seu governo não conseguir cumprir as metas que declarou ao público, Netanyahu – o primeiro-ministro mais longevo de Israel e um político que sempre quis ser lembrado como “defensor de Israel” – deixará como legado ter provocado a primeira guerra que o país perdeu.


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