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Governo Netanyahu promete não devolver Gaza aos palestinos

Em 2 meses de guerra, ONU fala em 'apocalipse' e colapso social na região

Publicado em 08/12/2023 1:46 - Gabriel Valery (RBA), Jamil Chade (UOL), Vitor Abdala (Agência Brasil) – Edição Semana On

Divulgação MOHAMMED FAEQ / AFP

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Sob justificativa de supostamente desmantelar a articulação do grupo armado palestino Hamas, Israel prossegue com o massacre na Faixa de Gaza. Em dois meses de ataques, o governo sionista de Benjamin Netanyahu já matou mais de 16 mil árabes residentes do único trecho de terra independente da política colonialista de Tel Aviv. De acordo com autoridades palestinas, dos mortos, mais de 7.100 são crianças, de acordo com dados mais recentes divulgados no último dia 5. Israel já não esconde seu objetivo. Tomar totalmente o controle da Palestina, que pode ter dias contados, de acordo com o governo de Tel Aviv.

No dia 6, Netanyahu reafirmou o que os palestinos já esperavam. E o que os sionistas almejam desde a criação do Estado de Israel, em 1948: finalizar o Nakba. O primeiro-ministro disse, abertamente, que a Autoridade Palestina não terá o controle de Gaza. Ao menos enquanto ele estiver no comando. A palavra Nakba em árabe remete à destruição do povo, da cultura, da identidade e dos direitos políticos dos palestinos.

Desde a formalização como Estado, Israel viu a ideologia sionista ganhar força e impor sua verdade única; de que aquelas terras seriam destinadas pelo divino ao povo herdeiro dos hebreus.

Fim de Gaza e da Palestina?

Contudo, ali existe um povo, que conta seus dias até a expulsão final diante da apatia internacional. Um povo semita, de origem tão antiga que remete a origem similar à dos judeus. Área de cultura milenar, que a Bíblia cita como “Canaã”, ou “Sion”, como preferem os judeus adeptos da Torá, livro sagrado dos judeus. Em boa parte de sua história, a Palestina viveu como uma região pacífica, com ampla aceitação de diferentes religiões. Contudo, a convivência na diversidade que agrada grande parte dos judeus parece não interessar aos sionistas.

A Faixa de Gaza, atualmente, é a única região com autonomia militar do governo central de Israel. Outro território palestino, a Cisjordânia, conta com a presença massiva do exército colonizador, além de ver um processo constante de redução de seu território a partir de uma política de assentamentos. Então, Israel está prestes a resolver, enfim, essa situação.

“Enquanto eu for primeiro-ministro, isso não acontecerá (a autonomia palestina em Gaza). Quem educa os seus filhos para o terror, financia o terror e apoia famílias de terroristas, não poderá controlar Gaza depois de erradicarmos o Hamas”, disse hoje o primeiro-ministro de Israel.

Desrespeito em Gaza

Israel desrespeita com frequência tratados internacionais. Entre eles, aqueles que condenam ataques a hospitais. Instituições, estas, que estão entre os alvos preferidos de Israel em Gaza, ao lado de escolas. Dezenas de médicos já morreram na região, incluindo missionários das Nações Unidas e do Médicos Sem Fronteitas (MSF). Além disso, o governo Netanyahu mantém postura firme contra propostas de cessar-fogo; posição que tem apoio quase único na comunidade internacional, dos Estados Unidos.

Entretanto, mesmo o governo norte-americano busca uma aparente solução dos conflitos, apesar de apoiar as ações israelenses de forma quase incondicional, na prática. Em novembro, o presidente dos EUA, Joe Biden, tentou negociar pausas humanitárias. Contudo, quem obteve sucesso nas propostas de tréguas foi o governo do Catar, por apenas seis dias. Mesmo assim, Biden afirmou, categoricamente, que a Autoridade Palestina, que controla politicamente a Cisjordânia, deveria assumir Gaza após a guerra.

O presidente do grupo palestino coordenado pelo partido Fatah, Mahmoud Abbas, concordou com a proposta. Seu grupo político tem histórico moderado de oposição ao Hamas, que adota métodos mais violentos para reivindicar direitos palestinos.

ONU fala em ‘apocalipse’ e colapso social em Gaza

A Faixa de Gaza vive um cenário “apocalíptico”, com milhares de pessoas sendo obrigadas a dormir pelas ruas e o colapso iminente da ordem pública. É desta forma que a ONU descreve a atual situação na região, dois meses depois da eclosão da violência entre o Hamas e Israel. Neste período, já são mais de 16,2 mil mortos, 1,9 milhão de deslocados. Mulheres e crianças representam mais de 60% de todas as vítimas.

Em 7 de outubro, um ataque por parte do Hamas contra Israel deixou 1,2 mil mortos. O grupo palestino ainda sequestrou mais de 200 pessoas, abrindo o maior período de instabilidade no Oriente Médio em anos.

A resposta de Israel veio na forma de uma ofensiva sem precedentes sobre Gaza, com a promessa do governo de Benjamin Netanyahu de que iria “aniquilar” o Hamas. O resultado, porém, tem sido o que relatores da ONU já descrevem como “risco de genocídio”.

Nem uma resolução do Conselho de Segurança da ONU conseguiu impedir o avanço israelense, apoiado de forma explícita pelos EUA. Do lado do Hamas, os apelos internacionais para que liberem todos os reféns tampouco foi atendido, ainda que uma negociação tenha permitido a soltura de cerca de cem deles.

Numa carta para o Conselho de Segurança, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alerta para o risco de um colapso da ordem pública em Gaza, com a proliferação de pilhagens, desespero e o fim de qualquer tipo de serviços.

Ele ainda pede um cessar-fogo. “A situação se deteriora rapidamente, com implicações irreversíveis para os palestinos e para a segurança na região”, disse.

Em seu novo informe, a ONU aponta que, depois de alguns dias de trégua, Israel reiniciou sua ofensiva militar e que, agora, avança sobre todas as regiões de Gaza, inclusive nas áreas que tinham sido declaradas como zonas de segurança. Apenas no dia 6 de dezembro, mais de 100 pessoas foram mortas em prédios residenciais em Jabalia camp.

Eis as principais conclusões do informe das Nações Unidas:

Ajuda interrompida – Em 6 de dezembro, pelo quarto dia consecutivo, Rafah foi a única província de Gaza em que houve distribuição limitada de ajuda em 6 de dezembro. Na província de Khan Younis, a distribuição de ajuda foi praticamente interrompida devido à intensidade das hostilidades. A Área Central estava em grande parte desconectada do sul, devido às restrições de movimento impostas pelas forças israelenses ao longo das estradas principais.

Deslocados – Desde 3 de dezembro, dezenas de milhares de deslocados internos chegaram, a maioria vinda de toda a província de Khan Younis. Como os abrigos na cidade de Rafah excederam em muito sua capacidade, a maioria deles se instalou nas ruas e em espaços vazios da cidade, bem como em prédios públicos.

Estimava-se que quase 1,9 milhão de pessoas em Gaza, ou cerca de 85% da população, estavam deslocadas internamente. Quase 1,2 milhão desses deslocados internos foram registrados em 156 instalações da UNRWA em Gaza.

Evacuação ordenada por Israel – Quase 30% da Faixa de Gaza foram alvo de ordens de evacuação. A capacidade dos residentes de acessar essas informações é prejudicada pelas interrupções recorrentes nas telecomunicações e pela falta de eletricidade para carregar celulares e dispositivos eletrônicos.

Em 6 de dezembro, cinco escolas da ONU que serviam de abrigo para deslocados internos em localidades no leste da província de Khan Younis foram totalmente evacuadas, seguindo ordens diretas dadas pelas forças israelenses aos gerentes dessas instalações.

Em 6 de dezembro, uma área adicional na cidade de Khan Younis, abrangendo cerca de um quilômetro quadrado, foi designada pelos militares israelenses para evacuação imediata. Juntamente com designações semelhantes em dias anteriores, cerca de 25% da área da cidade, onde cerca de 178.000 residentes originais (73% da população) e um número estimado de 170.000 deslocados internos receberam ordens de evacuação.

Fome – O Programa Mundial de Alimentação alertou que “a retomada das hostilidades em Gaza só intensificará a catastrófica crise de fome que já ameaça sobrecarregar a população civil”. A declaração indicou que “os novos combates tornam a distribuição de ajuda quase impossível e colocam em risco a vida dos trabalhadores humanitários”.

Mortes de soldados – No total, 88 soldados israelenses foram mortos em Gaza desde o início das operações terrestres israelenses, de acordo com fontes oficiais israelenses.

Doenças – Devido à superlotação e às condições sanitárias precárias nos abrigos da ONU no sul de Gaza, houve um aumento significativo de algumas doenças e condições transmissíveis, como diarreia, infecções respiratórias agudas, infecções de pele e condições relacionadas à higiene, como piolhos. Também há relatos iniciais de surtos de doenças, incluindo potencialmente a hepatite A.

Atualmente, apenas 14 dos 36 hospitais da Faixa de Gaza estão funcionando e, mesmo assim, oferecem apenas serviços limitados. Entre eles, dois pequenos hospitais no norte e 12 no sul estão aptos a admitir novos pacientes. Os dois principais hospitais no sul de Gaza estão operando três vezes acima de sua capacidade de leitos, enfrentando escassez crítica de suprimentos básicos e combustível. Além disso, esses hospitais estão fornecendo abrigo a milhares de deslocados internos.

Até 6 de dezembro, a OMS documentou 212 ataques a serviços de saúde na Faixa de Gaza, afetando 56 instalações de saúde e 59 ambulâncias.

Voo de repatriação de brasileiros em Gaza aguarda autorização 

Uma aeronave KC-30 (Airbus A330 200) aguarda autorização para decolar da Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, para fazer a repatriação de mais brasileiros que estão na Faixa de Gaza. De acordo com a Força Aérea Brasileira (FAB), o avião só decolará rumo ao Egito quando os brasileiros tiverem permissão para cruzar a fronteira em Rafah.

Assim que receber o sinal verde, o KC-30 decolará rumo ao Aeroporto Internacional do Cairo, em uma viagem de 15 horas. A FAB ainda não divulgou o número de pessoas que serão repatriadas.

O avião também leva um carregamento de cerca de 11 toneladas de alimentos não perecíveis, fornecidos como assistência humanitária pelo governo brasileiro.

O primeiro voo de repatriação de brasileiros provenientes de Gaza só chegou ao Brasil no dia 15 de novembro, mais de um mês depois do início dos ataques de Israel ao território palestino, devido à demora na autorização para saída pelo posto de fronteira de Rafah, que liga Gaza ao Egito.

No total, 32 brasileiros, segundo a FAB, foram trazidos ao país nesse voo. Também foi realizado um voo de repatriação com 32 brasileiros que estavam na Cisjordânia, outro território palestino.

Antes deles, já haviam sido realizados oito voos de repatriação de 1.413 brasileiros que estavam em Israel.


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