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Em cúpula, Amorim chama pela 1ª vez ação de Israel em Gaza de ‘genocídio’

Negociação tenta criar cessar-fogo em Gaza, em troca de reféns israelenses

Publicado em 09/11/2023 12:22 - Jamil Chade (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Ahmad Hasaballah/Getty Images

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O governo brasileiro propõe a realização de uma conferência diplomática que possa abrir espaço para uma negociação de um acordo de paz entre israelenses e palestinos. A sugestão foi apresentada pelo embaixador Celso Amorim, assessor especial da presidência, em um discurso em Paris. Ele participa da reunião convocada pelo governo da França para garantir ajuda humanitária aos palestinos.

Em seu discurso, Amorim destacou a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que “inocentes não podem pagar pela insanidade da guerra”.

Mas, pela primeira vez, ele usa a palavra “genocídio” de forma aberta num evento internacional. Lula já havia recorrido ao termo numa declaração no Brasil. Mas o governo estava evitando citar o termo em debates no Conselho de Segurança da ONU e em outras reuniões, como forma de garantir que pudesse atuar como mediador até mesmo de uma proposta de pausa humanitária. Agora, Amorim faz a alusão num momento em que a crise ganha uma dimensão inédita e que soma mais de 10 mil mortos.

Na ONU, o debate sobre o termo tem causado polêmica. Oficialmente, a entidade ainda cita apenas “crimes de guerra”. Mas, há dez dias, um alto funcionário das Nações Unidas publicou uma carta ao se aposentar, alertando que a entidade estava se dobrando diante da pressão de americanos. Segundo ele, o que ocorre em Gaza é de fato um “genocídio”.

Em sua fala, Amorim voltou a condenar os ataques contra Israel. “Reitero a condenação do Brasil aos ataques terroristas contra o povo israelense e a tomada de reféns”, disse.

Mas alertou que isso não justifica o que está ocorrendo em Gaza. “Tais atos bárbaros não justificam o uso de força indiscriminada contra civis”, disse.

“A morte de milhares de crianças é chocante. A palavra genocídio inevitavelmente vem à mente”, disse Celso Amorim.

Segundo fontes em Brasília, a elevação do tom do governo Lula ocorre diante de um contexto cada vez mais complicado. O encontro do ex-presidente Jair Bolsonaro com diplomatas de Israel nesta semana, a intransigência sobre a liberação dos brasileiros em Gaza, o aumento dos ataques e até mesmo as declarações do Mossad sobre os supostos terroristas no Brasil contribuíram para um mal-estar na relação.

Em Paris, Amorim também lembrou da situação dos 32 brasileiros que continuam sem poder sair de Gaza. “Enquanto faço este discurso, continuamos aguardando ansiosos a saída dos brasileiros de Gaza”, disse.

Para ele, uma “ação internacional em favor da população civil de Gaza é urgente”. O embaixador terá uma reunião privada com o anfitrião do encontro, o presidente da França Emmanuel Macron, além de outros atores da região.

Durante sua intervenção, Amorim anunciou que o Brasil vai contribuir financeiramente para a ajuda aos palestinos.

“O Brasil está contribuindo nas áreas de segurança alimentar e saneamento de água em Gaza”, disse. “Tendo fornecido à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) um total de US$ 20 milhões entre 2006 e 2016, estamos determinados a retomar nosso compromisso com a agência”, anunciou.

“Uma contribuição financeira simbólica à UNRWA está sendo feita imediatamente. Uma contribuição mais substancial está sendo preparada e será anunciada em breve”, disse.

Para ele, porém, o que a região hoje precisa é de uma interrupção no conflito. “Um cessar-fogo humanitário é essencial”, disse. “Passagens seguras e desimpedidas para a entrada de ajuda humanitária em benefício de hospitais, escolas e creches devem ser respeitadas”, defendeu.

“A saída dos feridos deve ser garantida”, completou.

Segundo ele, é “profundamente perturbador que quase cem membros da equipe da ONU tenham perdido a vida em Gaza”.Para ele, essa “não é apenas uma guerra entre o Hamas e Israel”.

“Isso faz parte de um conflito maior, de 75 anos, cuja raiz é a ausência de um lar seguro para o povo palestino”, disse.

“O reconhecimento de um Estado palestino viável, vivendo lado a lado com Israel, com fronteiras seguras e mutuamente reconhecidas, é a única solução possível”, defendeu.

Segundo Amorim, “esta crise é provavelmente um dos desafios mais perigosos para a paz e segurança internacionais, com o maior potencial de se espalhar para um conflito global”.

“O Brasil considera que uma conferência diplomática onde uma solução política possa ser promovida, com a participação de um grande número de Estados, nos moldes da Conferência de Anápolis, é indispensável. A França poderia liderar este processo”, completou.

Na abertura dos debates nesta quinta-feira, Emmanuel Macron, presidente da França, defendeu cessar-fogo. Para ele, uma “pausa humanitária” deve ser acordada de forma imediata e que leve, eventualmente, a um cessar-fogo.

“Em um prazo imediato, precisamos trabalhar para proteger os civis. Para fazer isso, precisamos de uma pausa humanitária muito rapidamente e devemos trabalhar para um cessar-fogo”, disse Macron. “Os civis devem ser protegidos, isso é indispensável e inegociável e é uma necessidade imediata”, insistiu.

Durante a conferência, porém, as agências humanitárias insistiram que não se pode criar uma situação nas quais as organizações internacionais sirvam para “limpar” o colapso criado por Israel, principalmente no que se refere a um deslocamento forçado de pessoas ao sul de Gaza.

Negociação tenta criar cessar-fogo em Gaza, em troca de reféns israelenses

Os governos do Qatar, Egito e EUA tentam mediar a criação de um entendimento que estabeleça um cessar-fogo humanitário em Gaza, com o objetivo de atender à população mais vulnerável, retirar feridos e evitar um colapso humanitário sem precedentes. Um dos cenários prevê uma pausa de três dias no conflito. Mas a condição é de que o Hamas liberte uma parte dos mais de 200 reféns israelenses mantidos em Gaza.

Para as agências humanitárias, o que existe hoje são “zonas fake” de proteção de civis no território palestino. Para a principal liderança da entidade Médicos Sem Fronteiras, Isabelle Defourny, 30% dos mortos em Gaza estavam no sul, onde supostamente Israel determinou que seria mais seguro e para onde tenta empurrar os palestinos.

Agências internacionais de notícia, como a AP, revelaram a informação sobre a negociação nesta quinta-feira. Mediadores do setor humanitário da ONU confirmam que as conversas estão ocorrendo de forma intensa. A expectativa é de que um primeiro projeto de acordo possa ser circulado entre os governos até o início da próxima semana.

No acordo, para que o cessar-fogo possa ocorrer, a condição trabalhada é a de que o Hamas liberte parte dos reféns israelenses, mantidos em Gaza desde 7 de outubro. Na primeira leva, crianças, idosos e pessoas doentes sequestradas pelo Hamas poderiam ser incluídas na troca.

O processo foi iniciado já na semana passada, quando uma delegação dos EUA e autoridades de Israel estiveram no Cairo. O Qatar seria o responsável por falar diretamente com o Hamas, enquanto os americanos teriam seu papel como interlocutor de Israel.

Nos últimos dias, o governo de Joe Biden tem falado sobre a possibilidade de um cessar-fogo. Mas com condicionantes, uma exigência também de Israel. Tanto no Conselho de Segurança da ONU como na Assembleia Geral, os textos submetidos a diferentes votações não criavam qualquer condicionante às pausas propostas.

Enquanto a negociação ocorre, um encontro em Paris tenta mobilizar recursos internacionais para atender aos palestinos. Ao longo de meses, antes mesmo da nova etapa da guerra, as agências humanitárias estavam sem recursos. Hoje, vivem uma condição sem precedentes de crise financeira.

Na abertura dos debates, Emmanuel Macron, presidente da França, defendeu cessar-fogo. Para ele, uma “pausa humanitária” deve ser acordada de forma imediata e que leve, eventualmente, a um cessar-fogo.

“Em um prazo imediato, precisamos trabalhar para proteger os civis. Para fazer isso, precisamos de uma pausa humanitária muito rapidamente e devemos trabalhar para um cessar-fogo”, disse Macron. “Os civis devem ser protegidos, isso é indispensável e inegociável e é uma necessidade imediata”, insistiu.

Durante a conferência, porém, as agências humanitárias insistiram que não se pode criar uma situação nas quais as organizações internacionais sirvam para “limpar” o colapso criado por Israel, principalmente no que se refere a um deslocamento forçado de pessoas ao sul de Gaza.


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