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Atiradora dos EUA prometeu lealdade ao Estado Islâmico

Publicado em 04/12/2015 12:00 -

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A coautora do ataque a tiros em San Bernardino, Califórnia, prometeu lealdade ao Estado Islâmico (EI) e a seu líder em um post colocado no Facebook com um pseudônimo, disseram investigadores nesta sexta-feira (4).

O casal Tashfeen Malik e Syed Rizwan Farook matou 14 pessoas numa festa de fim de ano no sul da Califórnia. Eles tinham mais de 6.000 cartuchos de munição e uma dúzia de bombas improvisadas com eles e armazenadas em uma casa.

O FBI afirmou que investiga o caso como um ato de terrorismo. O órgão, que é a polícia federal americana, disse também que Malik e Farook tentou destruir evidências antes do ataque ao quebrar dois telefones celulares e jogá-los no lixo.

De acordo com o diretor-assistente do FBI em Los Angeles, David Bowdich, conversas de telefone de um dos atiradores estão sendo investigadas como possíveis provas. Não está claro, no entanto, se alguma célula do EI estava ciente do ataque.

Malik, 27, mudou-se para os Estados Unidos em 2014 com visto de noivado e depois se tornou residente permanente após se casar com Farook na Califórnia. O casal, que foi morto em uma troca de tiros com a polícia, tinha uma filha de seis meses.

Ela e Farook, 28, apagaram registros on-line antes do ataque, o que, por um lado, reforça a tese de que foi um ato premeditado, e de outro, dificulta a investigação.

Os investigadores trabalham com a hipótese de que o casal se radicalizou por conta própria, inspirados no EI.

"Por enquanto, acreditamos mais que eles se radicalizaram sozinhos e foram inspirados pela milícia do que receberam ordens para fazer o crime", disse uma das autoridades.

De acordo com outra autoridade, Malik expressou "admiração" pelo líder da facção, Abu Bakr al-Baghdadi, na conta sob o pseudônimo e afirmou não haver nenhum sinal de que qualquer pessoa alinhada ao EI tenha se comunicado com ela em resposta.

Farook entrou em contato por meio de redes sociais com extremistas vigiados pelo FBI, segundo a agência de notícias Associated Press. A informação foi creditada a uma autoridade que não teve a identidade revelada.

O canal CNN também afirmou que agentes do FBI confirmaram ligações dos perpetradores com extremistas. A rede diz, contudo, que o ataque pode ter tido outras motivações que não política ou religiosa.

Vítimas

Quase todas as vítimas do homicídio em massa em San Bernardino eram amigos e colegas de trabalho, e foram abatidos durante uma festa de fim de ano no escritório. Uma diferença notável com relação a outros casos muito divulgados de homicídio em massa é que alguns deles conheciam Syed Rizwan Farook, o homem que abriu fogo contra o grupo com a ajuda de sua mulher, Tashfeen Malik, segundo as autoridades.

Nicholas Thalasinos, 52, uma das vítimas, e Farook, eram parte do mesmo "pequeno grupo" de trabalhadores, disse Jennifer Thalasinos, mulher de Nicholas, na quinta-feira. Ela afirmou que jamais ouviu seu marido dizer algo de negativo sobre Farook durante o tempo em que eles trabalharam juntos.

Jennifer Thalasinos disse que ela e o marido eram judeus messiânicos, um credo que incorpora elementos do judaísmo e do cristianismo, e que o marido usava as franjas de tecido tradicionais do judaísmo, conhecidas como tzitzit, por sobre as calças. Nicholas gostava de conversar sobre política, diz sua mulher, e não era tímido quanto a expressar suas opiniões.

"Meu marido era muito franco quanto ao Estado Islâmico (EI) e a todos os muçulmanos radicalizados", ela disse, acrescentando que "se ele tivesse imaginado que alguém em seu escritório era daquele jeito, teria dito alguma coisa".

Uma amiga de Nicholas Thalasinos, Kuuleme Stephens, 41, disse que durante uma conversa telefônica com Nicholas quanto este estava no trabalho, duas semanas atrás, ela o ouviu discutindo com Farook sobre Israel. Ela diz ter ouvido Farook dizendo que Israel não era o lar dos judeus, e que o lugar deles não era lá. Segundo Stephens, não era incomum que Thalasinos discutisse política, e que ela havia interpretado a conversa como só mais um debate acalorado.

"Nicholas sempre falava de política, e aquilo me pareceu só mais uma conversa apaixonada sobre política", ela disse.

Na quinta-feira, as autoridades informaram que a maioria das vítimas do ataque do dia anterior, no Inland Regional Center em San Bernardino, eram funcionários de uma divisão do departamento de saúde pública do condado de San Bernardino, responsável por inspecionar toda espécie de estabelecimento, de restaurantes a piscinas públicas e ateliês de tatuagem. Farook fazia o mesmo trabalho e deixou a festa de mau humor, retornando pouco depois em companhia de Malik e trazendo um arsenal que incluía armas de fogo e bombas caseiras.

Uma das únicas vítimas que não trabalhava com Farook foi Daniel Kaufman, 42, que operava a cafeteria do Inland Regional e oferecia treinamento a pessoas com deficiências de desenvolvimento. Os amigos o recordam como um homem de entusiasmo e alegria ilimitados.

Por mais de uma década, ele participou de uma feira renascentista realizada a cada primavera no sul da Califórnia, contaram esses amigos, arremessando bandeiras e fazendo acrobacias com elas seguindo as procissões realizadas pela "nobreza" do evento. Ele tinha um sexto sentido para os momentos em que os amigos precisavam de um abraço especial.

"Era um cara tão cheio de vida que chegava a ser ridículo", disse Stacia Chadwick, que foi amiga de Kaufman, a quem conheceu na feira renascentista, por dez anos.

Papai Noel

Damian Meins, 58, diretor-assistente do departamento de saúde ambiental, também foi morto. O jornal "Press Enterprise" reportou que ele costumava se vestir de Papai Noel e tirar fotos com as crianças de uma escola local, St. Catherine of Alexandria, onde havia trabalhado como professor de educação física e de atividades extraclasse. Sua mulher, Trena, é diretora de outra escola católica, e os dois tinham duas filhas já adultas.

"Ele era muito engraçado, com o melhor senso de humor entre todo mundo que conheço", disse Dottie Merkl, antiga colega de trabalho de Meins no departamento de saúde ambiental do condado de Riverside, onde Meins trabalhou até 2010.

Algumas das vítimas deixaram filhos pequenos. Michael Wetzel, 37, tinha seis filhos, de acordo com o jornal "San Bernardino County Sun". A igreja dele e um blog local sobre atividades familiares estão recolhendo doações para sua família.

A página de Facebook de Robert Adams, 40, outro colega de trabalho e vítima de Farook, contém diversas fotos e vídeos dele brincando com uma menininha sorridente. "Um momento papai/filhinha", ele escreveu como legenda de uma foto que mostrava a menina brincando em uma balança, com os cabelos voando ao vento.

Adams havia postado recentemente uma citação de Albert Einstein, em seu perfil: "O mundo é um lugar perigoso não por conta daqueles que fazem o mal, mas sim daqueles que o contemplam sem nada fazer".

Perseguição

Bennetta Bet-Badal, 46, cresceu no Irã, mas fugiu para os Estados Unidos aos 18 anos a fim de escapar à perseguição do regime islâmico do país aos cristãos, de acordo com um site criado para recolher doações para os três filhos que ela deixou ao ser assassinada no ataque.

Ela chegou ao país via Nova York, mas foi parar na Califórnia, onde estudou química na Universidade Politécnica Estadual da Califórnia e se casou com um policial. Ela deixa três filhos com 10, 12 e 15 anos de idade.

Bet-Badal adorava seu emprego como fiscal do departamento de saúde pública do condado, de acordo com o site de doações. No dia do ataque, ela saiu de casa entusiasmada com a apresentação que planejava fazer na reunião anual do departamento —um evento que incluía a festa de final de ano da organização.

Tina Johnson, ex-mulher de Shannon Johnson, outra das vítimas, diz que ele cresceu no sul dos Estados Unidos, e que, quando universitário, jogou beisebol pela Universidade Estadual de Augusta, na Geórgia. Ela conta que ele amava animais, a ponto de eles terem "um verdadeiro zoológico" de bichos de estimação, incluindo iguanas, cachorros, tentilhões e um gato.

Os dois perderam contato depois do final de seu casamento seis anos atrás, e Tina Johnson disse não saber quando exatamente o ex-marido se mudou para a Califórnia.

"Ele era um homem muito bom, com um coração muito grande", ela disse. "Ainda estou em choque".

Luto

E as perdas do departamento de saúde não param por aí. Duas das vítimas mais jovens foram Yvette Velasco, 27, que fiscalizava restaurantes metodicamente em busca de violações do código de saúde, e Sierra Clayborn, 27, cuja irmã, Tanisha Clayborn, lamentou sua perda no Facebook: "Descanse em paz, minha irmã, te amo mais do que você poderia imaginar", ela escreveu. "Você foi tirada de nós cedo demais".

Uma mulher que atendeu ao telefone na casa de Isaac Amanios, 60, o mais velho entre as vítimas, disse que ele tinha mulher e três filhos. Ela disse ser parente de Amanios mas se recusou a falar mais, limitando-se a dizer que a família estava arrasada. (Nat Berhe, jogador de beisebol do New York Giants, escreveu quinta-feira no Twitter que era primo de Amanios, e se declarou "muito abatido, agora".)

"Tudo que sabemos é que perdemos um irmão, perdemos um amigo", disse a parente que atendeu ao telefone.


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