13/06/2024 - Edição 540

Mundo

Espanha retira ‘definitivamente’ embaixadora na Argentina

Em comício organizado pela extrema direita, Milei atacou governo espanhol e a esposa do primeiro ministro Pedro Sanchez

Publicado em 21/05/2024 12:53 - Jamil Chade (UOl), Aram Aharonian (Other News) – Edição Semana On

Divulgação Foto: Bloomberg/Erica Canepa

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O governo da Espanha anunciou hoje (21) que está retirando de forma “definitiva” sua embaixadora em Buenos Aires. Trata-se do último passo antes de uma ruptura diplomática completa entre dois países, no que revela a gravidade da crise.

A decisão foi tomada como reação ao discurso de Javier Milei, presidente da Argentina, que no fim de semana atacou o governo de Pedro Sanchez e acusou de “corrupta” a mulher do primeiro-ministro espanhol.

A fala foi feita durante um comício organizado pela extrema direita espanhola, em Madri. Milei viajou até a Espanha, mas se recusou a se reunir com o governo local e optou apenas por dar seu apoio para a oposição, herdeira do movimento franquista.

Ainda no domingo (19), o governo espanhol exigiu que Milei fizesse um pedido oficial de desculpas e convocou de volta sua embaixadora para consultas.

O argentino se recusou a atender ao pedido e disse que era o governo espanhol quem lhe devia desculpas.

Nesta terça-feira (21), diante do contexto, o chanceler espanhol, José Manuel Albares, anunciou que a embaixadora “fica definitivamente em Madri”.

Milei respondeu à decisão, ampliando os ataques contra os espanhóis. “É um absurdo típico de um socialista arrogante”, disse o argentino.

“Ele é tão fatalmente arrogante que se sentiu aludido por um problema pessoal, em uma frase que não tinha nomes. Portanto, o problema é do Sr. Pedro Sánchez, e a partir daí faz uma escalada diplomática absolutamente sem sentido.”

“Ele acha que é o Estado? Isso é muito totalitário, muito socialista”, acrescentou Milei.

Trata-se da primeira crise com os europeus criada por Milei. No Itamaraty, o temor é de que a situação impeça qualquer tipo de avanço na negociação para a criação de um acordo comercial entre o Mercosul e a UE (União Europeia). Nos últimos dias, a UE declarou apoio aos espanhóis diante dos ataques argentinos.

Milei esperava voltar para Madri no dia 21 de junho. Mas agora o governo espanhol avalia impedir que a viagem ocorra, ou que ele não seja recebido por autoridades.

Pela prática diplomática, a volta da embaixadora para o posto apenas ocorrerá quando a crise for solucionada. Mas a situação ganhou uma dimensão maior ontem, quando Milei rejeitou fazer qualquer gesto que possa significar um pedido de desculpas.

“Como posso me desculpar se fui eu quem foi atacado?”, declarou Milei.

O argentino argumentou que sua fala em Madri ocorreu depois de ter sido atacado pelo governo socialista. Milei também disse que Sánchez tem traços autoritários por transformar um problema pessoal em uma crise diplomática.

A acusação de corrupção passou a ser um mote da extrema direita espanhola que, com a ajuda de meios de comunicação aliados, criou uma situação na qual Sanchez chegou a pensar em renunciar. Mas sua opção foi por se manter no poder. A extrema direita espanhola, porém, não recuou, ampliando a crise também doméstica.

Milei é alvo de críticas de ministras

Milei ainda declarou, na noite de ontem, que Sanchez seria um “covarde” e que estaria se escondendo ao usar mulheres para atacar o argentino.

“Ele (Pedro Sanchez) é tão covarde que precisou me enviar mulher para bater em mim. É algo de uma covardia feroz”, disse Milei, numa referência a protestos por parte de ministras do governo espanhol.

A ministra da Educação e porta-voz do governo espanhol, Pilar Alegría, rebateu e disse “que a política não é uma questão de saias ou calças, mas de respeito”. “O fato de as mulheres terem voz ou autonomia não é covardia, é igualdade”, afirmou.

“Não é coincidência que um governo como o atual, um governo feminista em um país feminista como a Espanha, receba desqualificações e ataques da comunidade internacional de ultradireita”, disse a ministra Alegría.

“Além disso, depois dessas declarações, o feminismo na política, na sociedade e nas relações internacionais é mais necessário e relevante do que nunca”, concluiu.

Milei: o choque de realidade

Alheio aos interesses, anseios e sofrimentos de 46 milhões de argentinos, o governo do presidente Javier Milei mais uma vez se chocou com a realidade e contra a sua própria arrogância. A greve geral de 8 de maio, após a gigantesca marcha dos estudantes contra a privatização da educação, e a deriva da Lei Ônibus no Senado anunciaram um ponto de inflexão no respaldo que o libertário teve até agora.

O colapso da economia traduziu-se numa tragédia social e transformou o país que era o celeiro do mundo no único da região que cai continuamente enquanto os seus vizinhos crescem. A Cepal informou que a queda do PIB argentino este ano será superior a três pontos, o mesmo valor do crescimento dos países vizinhos, como o Brasil.

Duas questões desequilibraram o governo: liberou preços e tarifas, mas teve que recuar nas contas pré-pagas e nas tarifas de energia em geral, para as quais teve que postergar os últimos aumentos. A ruptura da decisão irredutível que tinha sustentado para não intervir nos preços foi o marcador da outra ruptura, a da sua credibilidade.

O movimento operário enfrentou o governo com a segunda greve geral em cinco meses de governo, numa altura em que o seu apoio se desfazia nas classes médias e no setor empresarial, que estava cheio de alarmes sobre o preço da eletricidade, da água, gás e rendas. Não há luz no fim do túnel: tudo parece obscuro.

Cinco meses se passaram e agora Milei não pode usar o que realizou para alimentar a épica de sua grande adaptação. “Fizemos”, disse ele, “o maior ajuste na história da humanidade” e vangloriou-se da sua bravura ao afrontar os protestos. Mas a imprensa internacional já não fala das suas “proezas”, mas sim das suas falácias e fracassos.

Falácias e ficções

A disseminação de falácias xenófobas e econômicas por parte de Milei e do seu exército de bots reflete a tendência para o autoengano daqueles que ganham o poder. Milei orgulha-se dos aplausos pelas suas intervenções em fóruns internacionais de extrema direita que a sua equipe de comunicação descreve como uma reunião com grandes investidores. Mas suas turnês, que chamam a atenção mais pela pirotecnia do que pela lucidez, não renderam um único dólar ao país, mas sim despesas avultadas para suas comitivas alegres e turísticas.

Aproveitou a memória da revolta do gueto de Varsóvia (8 de maio de 1943) para tentar confundir um feito de valor universal com a sua pretensão particular. Ao seu apelo para “tomar partido (como) uma obrigação moral”, uma frase que fora do contexto pode ser tão nobre quanto ambivalente, ele acrescentou a sua oferta para presidir a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto.

Na Fundação Milken, nos Estados Unidos, ele pediu: “Ajudem-me, vocês que são a encarnação do progresso humano, que fará da Argentina a nova Roma do século XXI”. Michael Milken fez fortuna no setor financeiro na década de 1980, apostando nos chamados “títulos podres”, ou seja, ativos financeiros de qualidade e solvência duvidosas, e cobrando comissões enormes para colocá-los no mercado.

O excedente fiscal é fictício, construído com base em incumprimentos e em privações sociais e regionais insustentáveis. O nível e a estabilidade do dólar oficial são fictícios, sustentados com base na recessão, na postergação de pagamentos de importações e em fraudes especulativas transitórias de curto prazo. Portanto, o nível de reservas “acumuladas” apresentado pelo governo também é fictício.

E também é fictícia a estabilização dos preços, que por enquanto é apenas uma redução da velocidade do seu aumento, forçada pela forte contração do mercado interno, pela queda da procura e pela artificialidade da âncora cambial. Toda esta ficção só é sustentada pela condescendência dos poderes econômicos locais e dos seus meios de comunicação com um governo que lhes prometeu uma enorme piñata empresarial.

Depois dos seus ataques e das grotescas desqualificações dos governantes democráticos progressistas da região, a BBC britânica disparou a sua análise na realidade. Intitulou sua nota sobre a Argentina de “Carne, leite e erva-mate: as quedas históricas no consumo argentino (e como aumentaram as exportações desses produtos)”. Parece que em Londres, apesar do nevoeiro, estão enxergando a realidade.

Na Espanha não ficaram surpresos com uma de suas falácias. Braço direito de Adolf Hitler, a frase principal de Joseph Goebbels era “Mentira, mentira, mentira, algo permanecerá, quanto maior for uma mentira, mais as pessoas acreditarão nela”. A inclusão de dados biográficos falsos sobre Javier Milei na edição espanhola do seu livro O caminho do libertário levou o Grupo Editorial Planeta a decidir retirar os exemplares do mercado.

Na aba do livro, Milei afirma ser graduado pela Universidade de Buenos Aires e ter feito doutorado na Califórnia. Mata Hari já disse: a vida é sempre um pouco mais fácil se deixarmos de lado a verdade. Milei e o seu gabinete de desinformação e propaganda não gostaram de ser descobertos e intensificaram a disseminação de falácias xenófobas e econômicas sobre Espanha, razão pela qual não há um bom clima para receber o presidente argentino na Espanha, onde viaja para se encontrar com a extrema direita do Vox.

Deputados progressistas e grupos de residentes argentinos apelaram ao repúdio à visita de uma figura que nega os crimes do regime de Franco, o genocídio de Netanyahu contra o povo palestino, bem como as mortes e desaparecimentos da ditadura civil-militar da Argentina.

O governo de Javier Milei já tinha tomado consciência de que o combustível que poderia atear fogo às suas reivindicações era a classe média, que foi quem consolidou a sua vitória no segundo turno. A indignação de um setor da classe média levou a extrema direita a reverter o aumento dos medicamentos pré-pagos.

E agora ouviu o silêncio – politicamente ensurdecedor – de uma nova greve geral: não só a classe média, mas também os trabalhadores deixaram claro que “o país não está à venda”. Os trabalhadores já disseram basta! e se põem a marchar…

A Lei de Bases

A comunidade empresarial do “círculo vermelho” digital e financeiro internacional aguarda a possível aprovação do megaprojeto de lei de bases no Senado, especialmente para o Regime de Incentivos aos Grandes Investimentos (RIGI), um marco legal para a fuga de moeda sem controle e lucro à custa da apropriação privada dos recursos do país.

O contraponto é a reforma trabalhista e previdenciária, que envolve a consolidação de uma brutal transferência de renda do bolso dos trabalhadores e aposentados, a destruição da rede de pequenas e médias empresas e a legalização da informalidade trabalhista, que “vai aprofundar o grave quadro de pobreza estrutural e indigência que assola a nossa comunidade”, como apontaram as centrais sindicais.

O que acontece depois da Lei de Bases com a atual formação do governo? Será que se a lei cair haverá mudanças de gabinete? No governo acreditam que por trás da pressão por demissões de alguns ministros está a figura do ex-presidente neoliberal Mauricio Macri, líder da Proposta Republicana (PRO), com uma grande bancada parlamentar, que já rejeitou a ideia de um “co-governo”.

Uma pesquisa realizada pelo cientista político Pablo Javier Salinas mostra que o governo Milei, desde que assumiu o cargo, a cada seis dias um alto funcionário renunciou. Segundo o jornal conservador La Nación, depois de mais de cinco meses de governo, 16% dos cargos de gabinete ainda precisam ser nomeados e 63% dos gabinetes do Estado Nacional não foram completados.

O governo dos Irmãos Milei – o protagonismo de Karina, a irmã, continua a crescer em detrimento de “Vamos fazer com que Milei conheça a realidade de Misiones”, dizem ministros e políticos do anarcocolonialismo (definição do ex-presidente Cristina Kirchner). Já se resignou ao fato de o Congresso não sancionar a Lei de Bases antes de 25 de maio, dia em que pretende reunir-se com alguns governadores nos Tribunais de Córdoba, para assinar um decálogo de generalidades que chama de Pacto de Maio, a base daquilo que ele descreveu como um novo contrato social.

A verdade é que alguns destes princípios condenariam o país à estagnação definitiva e outros exigiriam maiorias legislativas que neste momento estão fora do alcance do governo, enquanto o ministro do Interior Guillermo Francos e a “irmã presidencial” negociam com diferentes blocos do Senado a introdução de alterações que permitam a sanção geral do projeto.

Analistas locais apostam em quanto tempo durará o governo, uma vez que conseguiu fazer com que as classes média e trabalhadora (e desempregadas) abandonassem o canto da sereia e acordassem para a dura realidade. Existe um futuro? Por enquanto, há um apagão no fim do túnel.


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