21/07/2024 - Edição 550

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Apesar da má vontade de Israel com brasileiros, há chance de eles serem liberados de Gaza até sexta

Ao deixar cargo, diretor da ONU reconhece genocídio em Gaza e denuncia EUA: Bolívia rompe relações com Israel, e Colômbia e Chile convocam embaixadores após novos ataques a civis

Publicado em 01/11/2023 11:51 - UOL, Luana Takahashi e Jamil Chade (UOL), O Globo – Edição Semana On

Divulgação A brasileira Shahed al-Banna nasceu em Gaza, mas morou em São Paulo durante 6 anos, terra de sua mãe. Ela tem transmitido o drama dos refugiados em Gaza.

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O embaixador do Brasil na Palestina Alessandro Candeas afirmou que “há boas chances” de os brasileiros que estão na Faixa de Gaza serem liberados até sexta-feira (3). Em entrevista ao UOL News da manhã de hoje (1), o diplomata alertou que a crise humanitária na região deve se agravar nos próximos dias.

“Recebi uma mensagem do Paulino [Neto, embaixador do Brasil no Cairo (EGI)] dizendo que há uma boa chance de os brasileiros serem autorizados a sair amanhã ou depois de amanhã. Estamos com essa expectativa, e os brasileiros de Gaza mais ainda. O desespero é idêntico em todos os níveis e queremos que eles saiam o mais rápido possível. A crise humanitária, que já é grave, vai se intensificar”, afirmou Candeas.

Ele explicou que o Brasil não é o único país com cidadãos fora da primeira lista de estrangeiros autorizados a deixar a Faixa de Gaza. O embaixador disse que está em negociações para agilizar a saída dos brasileiros e que eles sejam incluídos já na próxima relação.

“O Brasil continua com gestões de alto nível, como fizemos desde o início deste conflito, junto a Israel, Egito, Qatar e outros atores para que os brasileiros estejam na próxima lista. Fizemos contatos aqui e tivemos a informação de que as autoridades de segurança de Israel já indicaram que outras listas virão, com nacionais de outros países. Essa é apenas a primeira lista, e uma boa notícia porque [a fronteira em Rafah] estava fechada havia mais de três semanas. Há entre 30 e 40 nacionalidades que estão na mesma posição dos brasileiros em Gaza!”, afirmou o embaixador.

Em conversa com os brasileiros que aguardam a liberação para cruzar a fronteira de Rafah, Candeas falou sobre a situação desesperadora na região: “Ninguém aguenta um dia a mais em Gaza. Nesta semana, eles tiveram problemas de irritação nos olhos por causa do ar contaminado pelo bombardeio. Há até denúncias de uso de fósforo branco, amarelo. O ar está irrespirável em Gaza”.

Brasileiros não dependem da ONU ou da Cruz Vermelha para obter comida

Alessandro Candeas tranquilizou os parentes e amigos dos brasileiros que estão na Faixa de Gaza e aguardam a liberação para sair dali. O embaixador disse que, apesar da situação caótica na região, eles estão em boas condições e recebendo toda a assistência necessária da diplomacia nacional.

“Estamos falando de uma zona de guerra, que está em crise humanitária. É importante ficar claro que os brasileiros não dependem dos abrigos e nem dos depósitos de comida da ONU, nem da Cruz Vermelha. Eles fazem compra no mercado local, que ainda está de pé. Às vezes, eles vão a outra cidade”, disse Candeas.

Tales: É evidente que Israel não gostou das tentativas do Brasil na ONU

O papel pacificador do Brasil no Conselho de Segurança da ONU não agradou a Israel, o que pode ter interferido na ausência de brasileiros na lista dos primeiros estrangeiros autorizados a deixar a Faixa de Gaza pela fronteira com o Egito. A análise é do colunista Tales Faria, do UOL.

“É possível que isso esteja ocorrendo porque Biden concorreu com o Brasil em protagonismo na ONU. Não há boa vontade do Biden, assim como Israel não gostou da posição pacificadora do Brasil na ONU”, afirmou o jornalista.

Trinta brasileiros deixam Cisjordânia e são repatriados ao Brasil

Trinta brasileiros, uma jordaniana e um palestino foram resgatados hoje da Cisjordânia pelo governo federal. A repatriação faz parte da Operação Voltando em Paz, em meio à guerra Israel-Hamas.

O voo decolou às 16h50 (10h50 horário de Brasília) da Jordânia e tem três paradas previstas: uma em Roma (Itália), outra em Las Palmas (Espanha) e a terceira em Recife, já no Brasil. A previsão é de chegada à base aérea de Brasília por volta de 5h30 desta quinta-feira.

A Representação Brasileira em Ramala organizou uma operação de resgate de pessoas que manifestaram interesse na repatriação.

Ainda que a Cisjordânia seja uma região diferente da Faixa de Gaza, há temor de ataques na região. A maioria dos habitantes locais são palestinos e muçulmanos.

Ônibus e vans alugados, identificados com a bandeira do Brasil, conduziram os passageiros de 11 cidades da Cisjordânia até a cidade de Jericó. Em Jericó, fizeram os trâmites migratórios e partiram para Amã, capital da Jordânia, segundo o Itamaraty em nota.

No Aeroporto Internacional Queen Alia, os brasileiros foram embarcados em uma aeronave da Presidência da República. O voo terá como destino a Base Aérea de Brasília no Brasil.

O destino final das famílias repatriadas, segundo o governo, será: Foz do Iguaçu (oito), São Paulo (cinco), Florianópolis (quatro), Recife (três), Rio de Janeiro (três), Fortaleza (três), Curitiba (dois), Brasília (dois), Porto Alegre (um).

A operação Voltando em Paz do Governo Federal terá repatriado 1.446 passageiros ao final, em oito voos vindos de Israel e um da Jordânia, todos sob comando da FAB (Força Aérea Brasileira). 1.443 brasileiros e três bolivianas, além de 53 animais de estimação, saíram da zona de conflito.

Ao deixar cargo, diretor da ONU reconhece genocídio em Gaza e denuncia EUA

O que ocorre em Gaza é genocídio, a ONU fracassou e a entidade está submetida aos interesses e pressão dos EUA. Quem afirma isso é Craig Mokhiber, em uma carta divulgada ao se aposentar nesta semana do cargo de diretor do escritório em Nova York do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos.

Oficialmente, a ONU tem evitado falar em genocídio, se limitando a descrever a situação como uma ameaça de crimes de guerra, algo que já deixou o governo de Israel profundamente irritado e abriu uma ofensiva contra a cúpula da entidade.

Com 63 anos e já tendo planejado sua aposentadoria, o funcionário internacional desabafou ao escrever ao seu chefe, o austríaco Volker Turk: “Mais uma vez, estamos vendo um genocídio se desenrolar diante de nossos olhos, e a Organização a que servimos parece impotente para impedi-lo”.

“O mundo está assistindo. Todos nós seremos responsáveis por nossa posição nesse momento crucial da história”, alertou, ao se despedir. Parte de sua crítica se refere ao fato de a ONU ter sucumbido às pressões políticas.

“Nas últimas décadas, partes importantes da ONU se renderam ao poder dos EUA e ao medo do lobby de Israel, abandonando esses princípios e se afastando do próprio direito internacional”, disse.

Procurada pelo UOL, a ONU afirmou que essa é a opinião pessoal do ex-funcionário. “Craig Mokhiber, membro da equipe do Escritório de Nova York, informou à ONU em março de 2023 sobre sua próxima aposentadoria. As opiniões contidas em uma carta tornada pública hoje são as opiniões pessoais do funcionário, cuja aposentadoria entra em vigor amanhã”, disse.

“A posição do Escritório sobre a grave situação nos Territórios Palestinos Ocupados e em Israel está refletida em nossos relatórios e declarações públicas”, completou.

As críticas ocorrem no momento em que o Conselho de Segurança vive um impasse total sobre Gaza e com as Nações Unidas incapazes de conseguir acesso significativo ao território palestino.

Segundo o ex-diretor, porém, o que a ONU não tem coragem de dizer é o fato de estar ocorrendo supostamente um genocídio.

“Trabalhei nesses corredores durante os genocídios contra os tutsis, os muçulmanos bósnios, os yazidis e os rohingyas. Em todos os casos, quando a poeira baixou sobre os horrores perpetrados contra populações civis indefesas, ficou dolorosamente claro que havíamos falhado em nosso dever de cumprir os imperativos de prevenção de atrocidades em massa, de proteção dos vulneráveis e de responsabilização dos perpetradores”, escreveu.

“E assim tem sido com as sucessivas ondas de assassinato e perseguição contra os palestinos durante toda a existência da ONU”, disse.

“Alto Comissário, estamos falhando novamente”, escreveu ao seu chefe, o austríaco Volker Turk.

“Sei bem que o conceito de genocídio tem sido frequentemente sujeito a abusos políticos. Mas o atual massacre em massa do povo palestino, enraizado em uma ideologia colonial de colonos etnonacionalistas, na continuação de décadas de perseguição e expurgo sistemáticos, com base inteiramente em sua condição de árabes, e associado a declarações explícitas de intenção por parte dos líderes do governo e das forças armadas israelenses, não deixa espaço para dúvidas ou debates”, insistiu.

“Em Gaza, casas de civis, escolas, igrejas, mesquitas e instituições médicas são atacadas arbitrariamente e milhares de civis são massacrados. Na Cisjordânia, incluindo a Jerusalém ocupada, as casas são confiscadas e reatribuídas com base inteiramente na raça, e violentos pogroms de colonos são acompanhados por unidades militares israelenses. Em todo o país, o Apartheid impera”, alertou.

“Esse é um caso exemplar de genocídio. O projeto colonial europeu, etno-nacionalista e de colonos na Palestina entrou em sua fase final, rumo à destruição acelerada dos últimos remanescentes da vida indígena palestina na Palestina”, afirmou.

Ele ainda acusou “governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de grande parte da Europa são totalmente cúmplices desse terrível ataque”.

Esses governos estão “ativamente armando o ataque, fornecendo apoio econômico e de inteligência e dando cobertura política e diplomática para as atrocidades de Israel”.

Críticas contra imprensa

O diretor também denuncia a imprensa ocidental que estaria “desumanizando continuamente os palestinos para facilitar o genocídio e transmitindo propaganda de guerra e defesa do ódio nacional, racial ou religioso que constitui incitação à discriminação, hostilidade e violência”.

“As empresas de mídia social sediadas nos EUA estão suprimindo as vozes dos defensores dos direitos humanos enquanto amplificam a propaganda pró-Israel. Os controladores online do lobby de Israel e os GONGS estão assediando e difamando os defensores dos direitos humanos, e as universidades e os empregadores ocidentais estão colaborando com eles para punir aqueles que ousam se manifestar contra as atrocidades”, denunciou.

“Na esteira desse genocídio, esses atores também devem prestar contas, assim como aconteceu com a rádio Milles Collines em Ruanda”, alertou.

Cobrança contra ONU

“Nessas circunstâncias, as demandas de nossa organização por ações eficazes e baseadas em princípios são maiores do que nunca. Mas não vencemos o desafio. O Conselho de Segurança, com poder de proteção e aplicação, foi novamente bloqueado pela intransigência dos EUA”, alertou.

Ele não poupa ninguém.

“O mantra da “solução de dois Estados” tornou-se uma piada aberta nos corredores da ONU, tanto por sua total impossibilidade de fato, quanto por sua total incapacidade de levar em conta os direitos humanos inalienáveis do povo palestino”, disse.

O desabafo é total. “Vim para esta Organização pela primeira vez na década de 1980, porque encontrei nela uma instituição baseada em princípios e normas, que estava totalmente do lado dos direitos humanos, inclusive nos casos em que os poderosos EUA, Reino Unido e Europa não estavam do nosso lado”, afirmou.

“Enquanto meu próprio governo, suas instituições subsidiárias e grande parte da mídia dos EUA ainda apoiavam ou justificavam o apartheid sul-africano, a opressão israelense e os esquadrões da morte da América Central, a ONU estava defendendo os povos oprimidos dessas terras. Tínhamos o direito internacional do nosso lado. Tínhamos os direitos humanos do nosso lado. Tínhamos os princípios do nosso lado. Nossa autoridade estava enraizada em nossa integridade. Mas não mais”, lamentou.

Bolívia rompe relações com Israel, e Colômbia e Chile convocam embaixadores após ofensiva em Gaza

A Bolívia decidiu romper relações diplomáticas com Israel, enquanto Colômbia e Chile convocaram seus embaixadores, em Tel Aviv, para consultas, em protesto contra a ofensiva levada a cabo em Gaza, após o ataque do grupo islâmico palestino Hamas, em 7 de outubro.

O governo boliviano, liderado pelo esquerdista Luis Arce, foi o primeiro na América Latina a cortar relações com Israel desde o início do conflito, que já deixou milhares de mortos de ambos os lados.

A Bolívia “decidiu romper relações diplomáticas com o Estado de Israel, em repúdio e condenação à agressiva e desproporcional ofensiva militar israelense, que está sendo levada a cabo na Faixa de Gaza”, disse o vice-ministro das Relações Exteriores, Freddy Mamani.

O Chile, por sua vez, convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas, na noite dessa terça-feira, para falar sobre “as violações inaceitáveis ​​do Direito Internacional Humanitário que Israel cometeu na Faixa de Gaza”, segundo um boletim do Ministério das Relações Exteriores do governo esquerdista Gabriel Boric.

“O Chile condena veementemente e observa com grande preocupação que essas operações militares – que neste momento do seu desenvolvimento envolvem punição coletiva da população civil palestina em Gaza – não respeitam as normas fundamentais”.

Na mesma linha, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, convocou seu embaixador em Tel Aviv: “Se Israel não parar o massacre do povo palestino, não poderemos estar lá”, acrescentou o primeiro presidente esquerdista do país, na sua conta no X.

Desde os ataques do Hamas em Israel, que causaram mais de 1.400 mortos, a resposta militar israelense na Faixa de Gaza deixou mais de 8.500 mortos, muitos deles crianças, segundo as autoridades sanitárias do território palestino.

Hamas saúda decisão da Bolívia

Em seu comunicado, nessa terça-feira, as autoridades bolivianas não mencionaram a violenta incursão do Hamas, na qual 240 pessoas também foram feitas reféns, incluindo muitos estrangeiros, segundo as autoridades israelenses. Nenhum boliviano aparece na lista.

Nessa mesma terça-feira, o Hamas saudou o anúncio da Bolívia num comunicado, expressando a sua “grande estima” pela decisão que tomou contra o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e instou “os países árabes que normalizaram as suas relações” com Israel a fazer o mesmo.

O governo israelense não fez comentários até agora.

A Bolívia já havia rompido relações diplomáticas com Israel em outras ocasiões, que remontam a 1969. Em 2009, o governo de Evo Morales (2006-2019) – ex-aliado de Arce – tomou a mesma determinação devido a um ataque israelense na Faixa

La Paz retomou as relações uma década depois, por ordem da presidente de direita Jeanine Áñez, que substituiu Morales no poder, em meio a uma grave crise interna.

Aplausos com críticas

Durante a mesma conferência de imprensa, a ministra da Presidência, María Nela Prada – que falava na qualidade de ministra dos Negócios Estrangeiros interina – disse que o governo “partilha” a condenação do secretário-geral da ONU, António Guterres, relativamente à situação em Gaza.

“Ao mesmo tempo, apelamos ao diálogo e a soluções estruturais que respeitem a vida, para evitar uma nova escalada do conflito”, acrescentou.

Morales destacou a decisão do governo Arce, embora o tenha feito com críticas.

“Finalmente, e sob pressão do povo, o governo decidiu romper relações diplomáticas com Israel. Faz depois de estar no poder durante três anos e depois de o regime israelense ter assassinado mais de 8.500 pessoas”, afirmou no X.

Antes de romper relações com Israel, o presidente Arce reuniu-se, na segunda-feira, com o embaixador palestino, Mahmoud Elalwani, após o que rejeitou “os crimes de guerra cometidos em Gaza” e defendeu um território para os palestinianos sem ocupação israelita.


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