18/06/2024 - Edição 540

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50 países se unem contra veto dos EUA a ajuda humanitária a civis em Gaza e pedem reunião de emergência da ONU

Família de brasileiro morre em bombardeio na Faixa de Gaza, diz Embaixada

Publicado em 20/10/2023 10:16 - Jamil Chade (UOL), Luisa Belchior, Isabela Leite (G1), G1 e GloboNews – Edição Semana On

Divulgação AFP

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Num gesto raramente visto na diplomacia internacional, mais de 50 países se uniram para pedir a convocação de uma reunião de emergência da Assembleia Geral da ONU. O objetivo é mobilizar apoio político para a proteção ao povo palestino, diante dos ataques de Israel em Gaza.

A decisão ocorre depois que o governo dos EUA vetou um projeto apresentado pelo Brasil no Conselho de Segurança da ONU, que pedia uma “pausa humanitária” e o fim da evacuação de civis do norte de Gaza. A presidência de Joe Biden já havia avisado o governo brasileiro que não queria o envolvimento do Conselho da ONU nas questões envolvendo Israel, depois dos atos terroristas cometidos pelo Hamas, no dia 7 de outubro.

O veto americano foi explicado pela Casa Branca por conta de sua insistência na necessidade de que Israel mantenha seu direito a autodefesa. A resolução, por ter um caráter humanitário, não tratava desse aspecto.

Mas o custo político para os EUA tem sido elevado. O governo russo indicou, já na quarta-feira, que iria tomar uma decisão de driblar o veto americano e pensava em convocar a Assembleia Geral da ONU.

Agora, a iniciativa ganhou o apoio de mais de 50 países, entre eles Argélia, Indonésia, Arábia Saudita, Marrocos, Turquia, Moçambique, Nigéria, Camarões e Paquistão.

No Conselho de Segurança, uma aprovação de uma condenação apenas pode ocorrer se não houver o veto de todos os cinco membros permanentes da entidade. Mas, na Assembleia Geral, a regra é outra: basta que uma resolução tenha a maioria dos 192 votos.

Numa carta obtida enviada por esses governos para a presidência da Assembleia Geral, o Grupo Árabe e do Grupo da Organização para a Cooperação Islâmica (OCI) nas Nações Unidas em Nova York, “solicitam a retomada da décima sessão especial de emergência da Assembleia Geral após o veto lançado em 18 de outubro de 2023 por um Membro Permanente do Conselho de Segurança sobre um projeto de resolução que aborda a grave situação do Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental”.

Diz a carta:

À luz da gravidade da situação, devido, em particular, à agressão militar por parte de Israel, a potência ocupante, contra a população civil palestina na Faixa de Gaza, que, até a presente data, matou milhares de civis, incluindo crianças, mulheres e idosos, feriu dezenas de milhares, causou a destruição desenfreada de casas e outras propriedades e infraestrutura civis, e infligiu condições humanitárias catastróficas, arriscando uma desestabilização ainda mais perigosa da situação, colocando em risco mais vidas civis e ameaçando a paz e a segurança internacionais, é urgente que a Assembleia Geral se reúna para tratar dessa crise.

Ao longo do processo negociador da resolução do Brasil, o Itamaraty cedeu e acomodou vários dos pedidos americanos, na esperança de que o texto pudesse ser aprovado.

Mas a atitude da Casa Branca foi vista como uma tática de protelar qualquer decisão, argumentando até mesmo que o órgão deveria esperar o fim da visita de Joe Biden à região.

Para a diplomacia brasileira, esses eram argumentos apenas para adiar qualquer gesto do Conselho e, mesmo aguardando a visita, não haveria qualquer garantia de que os EUA apoiariam o projeto.

Agora, a manobra dos árabes vai no mesmo sentido da estratégia já usada pelo governo americano contra os russos, quando o governo de Vladimir Putin também usou seu poder de veto no Conselho e impediu a aprovação de uma resolução que os condenava pela invasão da Ucrânia.

A Casa Branca, então, levou o caso para a Assembleia Geral e, ali, conseguiu votos suficientes para aprovar uma resolução condenando Putin.

Palestinos fogem de bombas e voltam para zona evacuada em Gaza, diz ONU

A ONU informou hoje que palestinos estão retornando para o norte de Gaza, região que havia sido ordenada a ser evacuada por Israel. O motivo é o fato de que, mesmo no sul de Gaza, eles continuam sendo alvo de bombas.

Há uma semana, o governo de Israel avisou que iniciaria um ataque contra o norte da Faixa de Gaza e, portanto, pedia que a ONU ajudasse a evacuar a população palestina. A entidade alertou que isso seria impossível, já que envolveria o fluxo de mais de 1 milhão de pessoas. Mesmo assim, de forma espontânea, milhares de palestinos tomaram o rumo do sul de Gaza, na esperança de se proteger.

Segundo a ONU, porém, parte dessa população continua sendo alvo de ataques, mesmo na região onde supostamente estaria protegida. Na madrugada desta sexta-feira, Israel voltou a bombardear Gaza, atingindo áreas no sul onde os palestinos haviam sido orientados a buscar segurança. As autoridades israelenses apontam que mais de cem alvos foram atingidos, mas insistem que se trata de locais que serviam aos grupos terroristas.

De acordo com a porta-voz da ONU para Direitos Humanos, Ravina Shamdasani, os palestinos estão pegos “no meio de insanidade” e, agora, começam a voltar para seus locais de origem.

“Continuamos muito preocupados com o fato de que os ataques pesados das forças israelenses continuam em Gaza, inclusive no sul. Os ataques, somados às condições de vida extremamente difíceis no sul, parecem ter levado algumas pessoas a voltar para o norte, apesar dos bombardeios pesados que continuam ocorrendo lá”, diz Ravina Shamdasani, porta-voz da ONU para Direitos Humanos.

Segundo Ravina, palestinos têm relatado para a ONU que, diante dos ataques nas “zonas seguras”, eles afirmam que “preferem morrer em suas casas”.

Um deles revelou à entidade que seus sogros que tinham sido evacuados decidiram voltar ao norte de Gaza. Mas, na noite de ontem, morreram diante de um ataque aéreo por parte de Israel.

Mil palestinos sob escombros

Além da preocupação sobre o fluxo de pessoas, a ONU também alerta que mais de mil palestinos estão sob os escombros dos prédios destruídos por ataques israelenses em Gaza. Esses números se somam aos mais de 3.700 mortos em apenas duas semanas na região, dos quais 1.500 são crianças.

No total, mais de 121 mil unidades residenciais, casas e prédios foram atingidos pelos ataques israelenses em apenas 15 dias. Segundo a ONU, isso significa que 30% das residências estão afetadas.

“Com mais de 3.700 pessoas mortas em Gaza e mais 1.000 supostamente sob os escombros, bem como 1.300 pessoas mortas em Israel, e mais um milhão de palestinos – metade deles crianças – supostamente deslocados, imploramos a todas as partes que permitam a passagem rápida e desimpedida de ajuda humanitária para todos os civis necessitados, onde quer que estejam”, afirma Ravina.

ONU pede investigação de hospital

Num outro apelo, a ONU ainda afirmou que as mortes registradas no hospital de Al Ahly, alvo de um ataque há dois dias, são “inaceitáveis”. Para a entidade, é necessário que uma investigação seja aberta para determinar os responsáveis pelo ataque que deixou quase 500 mortos. Para Ravina, os autores precisam ser levados à Justiça.

O governo de Israel, apoiado por Joe Biden, aponta que a autoria do ataque seria do grupos islâmicos dentro de Gaza. Já os governos árabes na região denunciam um “crime de guerra cometido por Israel”.

Segundo Ravina, evidências precisam ser preservadas no local e será necessário que grupos iniciem uma apuração. Ela, porém, admite que, sem acesso, a obtenção de dados é um desafio.

Ajuda humanitária ainda sendo negociada

Nesta sexta-feira (20), a ONU também anunciou que está em “intensas negociações” para permitir que a passagem fronteiriça entre Gaza e o Egito seja aberta para permitir que uma ajuda humanitária chegue aos palestinos.

A esperança da entidade é de que isso possa ocorrer em “cerca de um dia”. Na quinta-feira, Biden havia sugerido que essa abertura poderia ser feita ainda nesta sexta-feira. Mas, segundo diplomatas brasileiro o local continua fechado.

Na ONU, os negociadores se dizem “encorajados” com a possibilidade de que um acordo seja estabelecido. Isso não envolveria apenas a abertura da fronteira. Mas também a segurança da entrega e o destino dos produtos.

Num primeiro momento, apenas 20 caminhões entrarão. Mike Ryan, diretor de Operações da OMS, havia criticado o volume baixo de ajuda. “Isso é uma gota de água no oceano”, disse. Nesta sexta-feira, porém, o porta-voz da ONU, Jens Laerke, optou por um tom mais otimista: “um caminhão é melhor que nenhum caminhão”.

Hoje, 1,1 milhão de pessoas em Gaza estão deslocadas de suas casas. Antes da eclosão da violência, 80% deles viviam abaixo da linha da pobreza.

Ataques matam 1.500 crianças em Gaza; corpos são jogados em valas comuns

Novos números publicados pela ONU na noite de ontem (19) revelam que a grande maioria das mortes na Faixa de Gaza, desde o dia 7 de outubro, é composta por mulheres e crianças. Os dados ainda revelam como, sem local para guardar esses corpos, palestinos estão enterrando pessoas sem identificação em valas comuns.

De acordo com a entidade, 3.800 palestinos morreram em ataques realizados sobre a região. Desses, 1.500 são crianças e 1.400 são mulheres. Existem ainda 12,5 mil palestinos feridos.

A informação é apresentada no dia em que sete relatores da ONU denunciaram Israel por “crimes contra a humanidade”. Eles ainda alertam que, se a ofensiva e o cerco não forem revistos, há um “risco de genocídio” da população palestina.

O número de mortes relatado em Gaza durante os 13 dias de guerra é cerca de 60% maior do que o número total de mortes durante a escalada de 2014, que durou mais de 50 dias e deixou 2.251 mortes.

“Além disso, estima-se que centenas de pessoas, incluindo mulheres e crianças, ainda estejam presas sob os escombros, aguardando resgate ou recuperação”, afirma a ONU.

“As equipes de resgate, principalmente da Defesa Civil Palestina, estão lutando para cumprir sua missão, em meio a ataques aéreos contínuos, grave escassez de combustível para operar veículos e equipamentos e com conexão limitada ou inexistente a redes móveis”, afirmou.

De acordo com a ONU, ataques aéreos israelenses atingiram as proximidades de duas padarias, onde muitas pessoas, inclusive mulheres e crianças, estavam na fila. O ato matou 20 pessoas na cidade de Gaza.

Falta de espaço para corpos

Aos poucos, a ONU vai também descobrindo uma realidade dramática. Segundo o informe, em 15 de outubro, cerca de 100 corpos não identificados foram enterrados em uma vala comum em Rafah devido à falta de espaço refrigerado para armazená-los até que os procedimentos de reconhecimento sejam realizados.

“Essa medida foi tomada após preocupações ambientais e de indignidade humana relacionadas à decomposição dos corpos”, disse.

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, até 18 de outubro, 79 famílias haviam perdido dez ou mais de seus membros; 85 famílias haviam perdido de 6 a 9 membros, e 320 famílias haviam perdido de 2 a 5 de seus membros.

30% das residências afetadas

Houve a destruição de 12.845 unidades habitacionais e a inabitabilidade de 9.055 unidades habitacionais, segundo informe da ONU a partir de dados do Ministério de Obras Públicas de Gaza.

Outras 121.000 unidades habitacionais sofreram danos leves a moderados. O número total de unidades habitacionais destruídas ou danificadas corresponde a pelo menos 30% de todas as residências da Faixa de Gaza.

Outro impacto é na capacidade de comunicação da população. Segundo a entidade, 83% dos usuários de linha fixa estão desconectados em Gaza; 54% dos locais de linha fixa estão desconectados e 50% das principais linhas de internet de fibra óptica não estão operacionais.

“Isso é resultado dos danos à infraestrutura e da falta de combustível. Os bombardeios resultaram em cortes em dois dos três cabos de fibra que saem de Gaza, um dos quais foi consertado depois que as autoridades israelenses concederam à empresa um prazo de duas horas para que a equipe consertasse um cabo de fibra”, completou.

Relatores da ONU acusam Israel de crime contra humanidade e temem genocídio

Numa declaração emitida na quinta-feira, em Genebra, sete relatores da ONU acusaram Israel de estar cometendo “crimes contra a humanidade” e alertaram que, se a ofensiva não for freada, há um risco de genocídio contra os palestinos.

Trata-se da denúncia mais forte já feita pelos mecanismos da ONU desde o início da atual crise. Nos últimos dias, a diplomacia de Israel tem atacado as Nações Unidas e mesmo o Conselho de Segurança, insistindo que o foco das atenções deveria ser o de condenar e lutar contra o Hamas.

O documento que acusa Israel é assinado por Pedro Arrojo Agudo, Relator sobre os Direitos Humanos à Água Potável e ao Saneamento, Francesca Albanese, Relatora Especial sobre a situação dos direitos humanos no Território Palestino Ocupado, Paula Gaviria Betancur, Relatora Especial sobre os direitos humanos de Pessoas Deslocadas Internamente e Balakrishnan Rajagopal, Relator Especial sobre o direito à Moradia, entre outros.

“O cerco completo de Gaza, juntamente com ordens de evacuação inviáveis e transferências forçadas de população, é uma violação do direito internacional humanitário e criminal. Além disso, é de uma crueldade indescritível”, disseram os especialistas.

Eles lembraram que a destruição intencional e sistemática de casas e infraestrutura civis, conhecida como “domicídio”, e o corte de água potável, medicamentos e alimentos essenciais são proibidos pelo direito penal internacional. “Estamos soando o alarme: Há uma campanha contínua de Israel que resulta em crimes contra a humanidade em Gaza”.

“Considerando as declarações feitas pelos líderes políticos israelenses e seus aliados, acompanhadas de ações militares em Gaza e da escalada de prisões e assassinatos na Cisjordânia, há também o risco de genocídio contra o povo palestino”, disseram os especialistas.

Segundo ele, “não há justificativas ou exceções para tais crimes”. “Estamos chocados com a inação da comunidade internacional diante da guerra beligerante”, disseram os especialistas.

O alerta é emitido um dia depois de o governo americano ter vetado uma resolução do Brasil no Conselho de Segurança da ONU que pedia uma “pausa humanitária” para o conflito.

“A população de Gaza, metade da qual são crianças, já sofreu muitas décadas de ocupação brutal ilegal e viveu sob o bloqueio por 16 anos”, disseram.

Para eles, “é hora de cessar fogo imediatamente e garantir o acesso urgente e desimpedido a suprimentos humanitários essenciais, incluindo alimentos, água, abrigo, medicamentos, combustível e eletricidade. A segurança física da população civil deve ser garantida”.

“A ocupação precisa acabar e deve haver reparação, restituição e reconstrução, visando à justiça plena para os palestinos”, afirmaram.

Família de brasileiro morre em bombardeio na Faixa de Gaza, diz Embaixada

Parentes de um brasileiro que tenta deixar a Faixa de Gaza morreram em um bombardeio no norte do território, segundo a Embaixada do Brasil na Palestina nesta sexta-feira (20)

Hasan Rabee, brasileiro que integra o grupo levado a casas no sul de Gaza pela embaixada, afirmou que seu primo, a esposa e todos os filhos e netos do casal foram atingidos por um ataque aéreo que atingiu o prédio onde viviam.

A Embaixada brasileira confirmou ao G1 as mortes. O embaixador do Brasil na Palestina, Alessandro Candeas, disse que os parentes não têm cidadania brasileira.

“Teve um bombardeio perto da casa deles, e o prédio inteiro foi destruído. Era um cidadão do bem, trabalhador, não tem nada a ver com isso. Não sei nem quantas crianças têm de morrer para parar essa guerra e os ataques contra civis aqui na Faixa de Gaza”, disse Hasan em relato à GloboNews.

Ele afirmou ainda que cerca de 60 pessoas, no total, morreram nesse ataque. Autoridades palestinas não confirmaram o número, mas, nesta sexta, afirmaram que 352 pessoas morreram na Faixa de Gaza entre quinta-feira (19) e esta sexta (20).

No total, o número total de mortos em Gaza desde o início da guerra era de 4.137 até a manhã desta sexta.

Na semana passada, o governo israelense pediu à população de todo o norte da Faixa de Gaza, inclusive a Cidade de Gaza, que deixasse suas casas e rumassem ao sul do território, indicando que aumentaria os ataques à área, que faz fronteira com o sul de Israel.

Os militares israelenses também preparam uma incursão por terra à Faixa de Gaza, que começará justamente pelo norte. Dezenas de tanques do Exército do país já estavam posicionados na fronteira desde o início da semana.

Mas muitos palestinos relataram não ter para onde ir, já que, pelo atual acordo que está sendo costurado entre os governo egípcio e israelense para a abertura da fronteira, apenas estrangeiros poderão deixar a Faixa de Gaza (leia mais abaixo).

Por isso, eles continuaram em suas casas no norte de Gaza, caso dos parentes do brasileiro.

Rabee, de 30 anos, já havia dado entrevistas relatando a tensão no território, de onde 26 brasileiros tentam sair. Ele chegou a dizer que ficou sem água potável para beber, mas depois recebeu mantimentos da Embaixada brasileira.

Ele está no grupo de brasileiros que aguardam pela abertura da fronteira entre o sul de Gaza e o Egito em Khan Younes, no sul de Gaza. Uma outra parte de brasileiros está em Rafah, a cidade fronteiriça e onde ficam os postos de controle.

Além dos brasileiros, centenas de outros estrangeiros e milhares de palestinos lotam essas duas cidades à espera de uma resolução nas negociações entre Israel e Egito para a abertura da fronteira.


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