22/04/2024 - Edição 540

Mundo

O Brasil e a “diplomacia twitteira” de Israel

Bandeiras israelenses em ato bolsonarista preocupam entidades judaicas

Publicado em 27/02/2024 1:03 - Consuelo Dieguez (Piauí), Lucas Neiva (Congresso em Foco) – Edição Semana On

Divulgação Agência Brasil

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“Israel está fazendo uma diplomacia de TikTok. O chanceler israelense posta vídeos e dá declarações mentirosas em suas redes sociais atacando o Brasil e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não dá para discutir com um sujeito desse nível”, me disse um contrariado diplomata brasileiro, que acompanhou a comitiva do ministro das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Mauro Vieira, no encontro do G20, que reuniu os chanceleres dos países das vinte maiores economias do mundo, nos dias 21 e 22 deste mês, no Rio de Janeiro.

A indignação com o governo de Israel por parte do governo brasileiro, do Itamaraty e de diplomatas brasileiros aposentados se deu, inicialmente, com o constrangimento que o ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, impôs ao embaixador do Brasil, em Tel Aviv, no começo da semana. E se ampliou quando ele passou a dar um espaço inesperado a ataques contra o Brasil e o presidente em suas redes sociais, em razão das declarações do presidente brasileiro em Adis Abeba, capital da Etiópia, no dia 18 de fevereiro, ao comparar o massacre dos palestinos ao dos judeus cometido por Hitler, na Segunda Guerra.

A reação do governo de Israel surpreendeu o Brasil por ser totalmente anômala às regras diplomáticas. “Como você lida com um chanceler que posta fake news nas redes sociais atacando um país e seu presidente de forma tão desrespeitosa?”, me disse este diplomata que não quis ter o nome divulgado por não ser voz oficial do Itamaraty.

Este é o dilema brasileiro agora. Como reagir, diplomaticamente, às táticas que estão sendo lidas por diplomatas do Itamaraty como “violentas” e, ao mesmo tempo, “infantis”, do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e de seu chanceler, a fim de evitar a escalada da crise entre os dois países. Tem consumido bastante energia da chancelaria brasileira lidar com o fato de Israel Katz fazer provocações diárias ao presidente da República em suas redes, insuflando boa parte dos políticos, de líderes evangélicos e da comunidade judaica de direita brasileira a agirem contra o governo Lula. Tudo reverberado pela imprensa que, desde a declaração de improviso de Lula, em Adis Abeba, tem tratado o que poderia ser um incidente diplomático de resolução factível como uma crise maior, que chegou a levar parlamentares da direita e da bancada evangélica brasileira a pedirem o impeachment do presidente.

A diplomacia brasileira mapeou o contexto em que o assunto ganhou tamanha dimensão. O estremecimento das relações entre Brasil e Israel se dá quando Benjamin Netanyahu se vê cada vez mais isolado no mundo, em razão do massacre dos palestinos na Faixa de Gaza. Isso faz com que Netanyahu “crie situações para tentar sensibilizar a comunidade internacional a favor de Israel”, na visão de representantes brasileiros.

Prova desse isolamento, me disse um diplomata, foi o resultado da última reunião do Conselho de Segurança da ONU, no dia 20, onde só os Estados Unidos, em um grupo de catorze participantes, votaram contra o cessar-fogo na Faixa de Gaza. Como o país tem poder de veto no Conselho, o cessar-fogo não foi aprovado.

Na análise de diplomatas do Itamaraty, Israel tenta fazer agora, com o Brasil, o que pratica há anos com os Estados Unidos: buscar apoio da comunidade judaica e dos cristãos de ultradireita americanos para enfraquecer os governantes. “O presidente Joe Biden, na questão Palestina, teme desagradar o forte lobby judaico americano, principalmente em um ano eleitoral”, anota um diplomata. “Netanyahu faz isso desde Barack Obama, quando ignorou a proposta de entendimento do presidente americano com os palestinos e foi para o Congresso americano dizer que a paz era irreal”, lembrou. “No caso brasileiro, o governo de Israel está claramente tentando atiçar a comunidade judaica de extrema direita no Brasil e os evangélicos conservadores contra o governo que vem se posicionando a favor da paz desde que o conflito entre Israel e a Faixa de Gaza estourou, logo após o atentado terrorista do Hamas. Seria uma forma de tentar forçar o governo brasileiro a recuar no seu apoio ao cessar-fogo e à criação de dois Estados.”

Uma amostra dessa pressão se deu na manifestação organizada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, no último domingo, 25, na Avenida Paulista, a favor dele mesmo. Sua intenção foi demonstrar ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao governo que ainda tem força política e que conta com apoio de dezenas de milhares de seguidores. Durante a manifestação, bolsonaristas evangélicos, entoando hinos cristãos, se misturavam a manifestantes carregando bandeiras de Israel. Os evangélicos pentecostais e neopentecostais – que em boa parte acreditam que a volta de Cristo se dará somente depois que todos os judeus voltarem para a Terra Santa – têm fortalecido os laços com judeus brasileiros da direita para fazerem oposição ao presidente Lula desde o início do seu governo. Na manifestação pró-Bolsonaro, a dobradinha ficou ainda mais evidente.

A confusão entre Brasil e Israel começou no domingo, dia 18 de fevereiro, após Lula dar uma coletiva à imprensa, no encerramento da 37ª Cúpula Ordinária de Chefes de Estado de Governo da União Africana, em Adis Abeba, capital da Etiópia. Em sua declaração, Lula afirmou que o que está acontecendo em Gaza é um genocídio por se tratar de uma guerra entre Israel, um país altamente armado, contra uma população civil indefesa. E soltou a declaração que se voltaria contra ele: “O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existiu em nenhum momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus. E você vai deixar de ter ajuda humanitária? Quem vai ajudar a reconstruir aquelas casas que foram destruídas? Quem vai devolver a vida das crianças que morreram sem saber por que estavam morrendo?”, disse o presidente.

A declaração inflamada de Lula na África, embora dada de improviso, era resultado, segundo me relatou um diplomata, das “informações angustiantes” que ele recebera sobre a guerra. No dia 16 de fevereiro, Lula teve duas reuniões importantes em Adis Abeba, das quais saiu arrasado, segundo pessoas presentes. Uma delas foi com o presidente do Egito, Abdul Fatah Khalil Al-Sissi. A outra, com o primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Mohammad Shtayyeh.

Nesses encontros, os dois líderes mostraram a Lula imagens de crianças mutiladas pelo devastador ataque das Forças de Defesa de Israel, IFD, na Faixa de Gaza, em represália ao bárbaro ataque do Hamas a civis desarmados, no Sul de Israel, em 7 de outubro passado, onde morreram cerca de 1200 pessoas e mais de 100 foram feitas reféns. Nas imagens de Gaza mostradas a Lula, o que mais o transtornou foram as de crianças e bebês sem braços e pernas, outros com queimaduras por todo o corpo e outros com cabeças estilhaçadas por tiros. Em seus relatos, os dois líderes contaram a Lula que as amputações estavam sendo feitas sem anestésico, por falta do suprimento, e que a maioria dos hospitais estava fora de operação em razão dos bombardeios israelenses.

Lula também recebeu a informação de que pessoas estavam sem água e sem comida, principalmente porque mais de dez países, entre eles, Estados Unidos, Reino Unido, Suíça, Itália, Irlanda, Canadá e Austrália, cortaram a ajuda humanitária à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (Unrwa), na sigla em Inglês, depois que o governo de Israel declarou que sete membros da entidade estavam entre os terroristas dos Hamas que atacaram Israel. Com isso, o socorro à população palestina confinada no Sul da região ficou ainda mais comprometido. Até agora, segundo informações da Unrwa à imprensa israelense, Netanyahu não conseguiu provar que havia funcionários da entidade no atentado terrorista. Por esta razão, inclusive, a Irlanda decidiu retomar a ajuda.

O fato é que, ao despejar sua angústia diante de jornalistas, comparando duas tragédias humanas, Lula mexeu com o mais profundo trauma judaico, que levou à morte mais de 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial: o Holocausto. Assim que acabou de se pronunciar, sua fala já repercutia – muito mal – no Brasil e em Israel. As reações foram imediatas. Os termos usados para criticar Lula por sua declaração iam de “antissemita” a “ignorante”.

No Congresso, os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Eduardo Pacheco, exigiam retratação imediata do presidente e um pedido de desculpas a Israel. Parlamentares da ultradireita bolsonarista se uniram aos evangélicos para pedir o impeachment do presidente pelo “desrespeito” com o povo judeu. As federações israelitas do Rio e de São Paulo afirmaram que as falas do presidente comparando as ações de Israel em Gaza ao Holocausto eram “uma visão distorcida do conflito no Oriente Médio”. As federações mencionaram ainda a falta de crítica por parte do governo brasileiro “ao verdadeiro terrorismo imposto pelo Hamas”. O presidente do Instituto Rav Sany, rabino Sany Sonnenreich, que promove projetos a jovens judeus nos bairros dos Jardins e de Moema, em São Paulo, subiu o tom: “Repudiamos energética e veementemente mais uma divulgação falsa, antissemita, racista, ignorante, mentirosa proferida pelo presidente Lula. Quando ele diz que nunca viu tantas crianças e mulheres assassinadas numa guerra, leia-se ‘pelo próprio Hamas’, que os coloca como escudos humanos, em locais estratégicos, a fim de que sejam atingidos propositalmente.”

Até mesmo o embaixador aposentado Sérgio Florêncio, que costuma ser mais moderado, foi crítico. Numa entrevista à TV Bandeirantes, ele disse: “Não é compreensível e lógica a manifestação do presidente Lula, ao fazer a comparação, totalmente inadequada, entre os ataques devastadores das Forças de Defesa de Israel, que constituem uma barbárie, com o Holocausto. Esta declaração de Lula foi um erro histórico. Não se compara uma das maiores tragédias do século XX com uma guerra, devastadora, condenável, mas localizada no contexto de ataques do Hamas e também desproporcionais da IDF. Foi uma impropriedade diplomática. O que Lula fez foi dar argumento ao líder israelense reconhecidamente autoritário, antidemocrata e que tem seus dias contados. Acabada a guerra, Netanyahu vai cair.” Ao dar como exemplo o genocídio judaico, Lula deixou de citar, na sua entrevista, que o mundo, depois da Segunda Guerra, passara por vários genocídios além do Holocausto: o do Camboja, que matou 2 milhões de civis; o da região dos Bálcãs e o de Ruanda. A não inclusão desses outros crimes levou muitos judeus, por isso mesmo, a entenderem a comparação específica como provocação.

Já a imprensa brasileira declarou guerra diária a Lula, acusando-o de flertar com o caos. Colunistas afirmaram, entre outras coisas, que a fala era “um constrangimento para o Brasil”, que iria “arruinar as relações de Lula com o chanceler americano, Antony Blinken, às vésperas de ele chegar ao Brasil para a reunião dos chanceleres do G20”, e dificultar a participação do Brasil na discussão do processo de paz. O jornal O Estado de S. Paulo chegou a acusar Lula de “vandalismo diplomático”.

Fosse “erro histórico”, “impropriedade”, “racismo”, ou “vandalismo”, dependendo do ponto de vista de cada um, Lula poderia ter amenizado o tom de seu comentário caso ele achasse pertinente. O problema, como me explicou um diplomata, é que Lula e a diplomacia brasileira nem tiveram tempo para isso, dada a violenta e inusitada reação do governo de Israel.

Na segunda-feira, 19, dia seguinte à fala de Lula, o chanceler Israel Katz convocou o embaixador brasileiro no país, Fred Meyer, para que ele se explicasse. O episódio teria sido considerado natural na diplomacia – dado que o país se sentiu ofendido pelas declarações do presidente de outro país – caso o embaixador do Brasil não tivesse sido colocado em uma “armadilha”, nas palavras de um diplomata brasileiro. Em vez de ser chamado para a chancelaria, como seria natural, Meyer foi levado para o Museu do Holocausto, em Tel Aviv. Lá, Katz, com um microfone na lapela, do tipo usado por influencers nas redes sociais, fez um discurso, em hebraico, atacando o Brasil e declarando Lula “persona non grata” no país. E, também, como fazem os influencers, postou tudo nas suas redes.

Ou seja, o embaixador brasileiro tomou uma reprimenda pública, sem entender o que estava sendo dito para que pudesse defender o Brasil e o seu presidente, já que não havia intérpretes no local. Inconformado com o comportamento do governo israelense, o Brasil chamou seu embaixador de volta, demonstrando sua insatisfação com Israel. E mais. Na véspera da abertura do encontro do G20, na terça-feira, 20, o embaixador israelense no Brasil, Daniel Zonshine, foi chamado pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Mauro Vieira, no Palácio Itamaraty, no Rio, para também dar explicações sobre o comportamento de seu governo. O embaixador israelense não sofreu nenhuma humilhação pública. Ele entrou e saiu da reunião sem dar declarações.

Mas as agressões de Israel Katz não se limitaram ao constrangimento infringido ao embaixador brasileiro em Tel Aviv. Ferindo todas as regras da diplomacia e demonstrando disposição de escalar a crise, Katz passou a postar vídeos e mensagens nas suas redes sociais atacando Lula e o Brasil. Em uma das postagens afirmou que Lula era “negacionista do Holocausto”. Em outra, disse que a comparação de Lula entre Gaza e Holocausto era “promíscua e delirante”, e “um cuspe no rosto dos judeus brasileiros”.

O ponto alto da hostilidade ao Brasil veio com a postagem de um vídeo de mais de 8 minutos, no qual Katz aparece ao lado da brasileira de origem judaica Rafaela Treistman, que vive há três anos em Israel, e que estava na rave onde judeus foram mortos cruelmente pelo Hamas, inclusive o namorado dela, o também brasileiro Ranani Glazer. Com o apoio de Katz, que, com cara contrita, balançava a cabeça afirmativamente, Treistman repreendeu o governo Lula. No vídeo, postado pelo chanceler, ela afirma que não foi dada qualquer assistência aos brasileiros sobreviventes e às famílias dos mortos, e se diz impossibilitada de voltar ao Brasil em razão, segundo ela, “do forte antissemitismo existente no país”.

O vídeo provocou uma reação dura do ministro Mauro Vieira, que reagiu afirmando serem falsas as declarações de Treistman, e derrubou ponto por ponto as declarações dela, mostrando todas as ações da Embaixada do Brasil em Israel, após o 7 de outubro, que mandou inclusive representante para o funeral de Glazer e tratou do traslado dos mortos. Numa entrevista, durante a reunião do G20, Mauro Vieira também fez uma crítica aberta ao comportamento do chanceler israelense nas redes sociais, afirmando que Katz “distorce posições do Brasil para tentar tirar proveito em política doméstica”. E foi enfático. “Estou certo de que a atitude do governo de Netanyahu e de sua antidiplomacia não refletem o sentimento da sua população. O povo israelense não merece essa desonestidade, que não está à altura da história de luta e de coragem do povo judeu. Em cinquenta anos de carreira, nunca vi algo assim.” E finalizou: “Nossa amizade com o povo israelense remonta à formação daquele Estado, e sobreviverá aos ataques do titular da chancelaria de Netanyahu.”

Israel Katz parece, realmente, ter pouca familiaridade com as regras diplomáticas, embora já tivesse ocupado o posto de ministro das Relações Exteriores do seu país, em 2019, numa atuação bastante controversa. Ele voltou a ocupar o cargo em janeiro deste ano, no lugar do então chanceler Eli Cohen, que tinha uma relação amistosa com o governo brasileiro e com o embaixador Fred Meyer. Cohen esteve ao lado das famílias dos brasileiros mortos e foi muito prestativo aos pedidos da Embaixada do Brasil para agilizar o processo de repatriação de brasileiros de origem judaica e palestina que optaram por retornar ao Brasil após a tragédia do 7 de outubro. Também facilitou a liberação dos corpos para que pudessem ser transladados para o país.

Antes de voltar para a chancelaria, Katz era o titular da pasta de Infraestrutura e Energia, para onde Cohen foi deslocado (Katz também ocupou os postos de ministro dos Transportes e das Finanças). A troca foi feita para agradar ao grupo radical que cerca Bibi Netanyahu, que exigia um posto mais distinto para seus pares, conforme reportagem do Haaretz, influente jornal israelense, de cunho liberal e forte crítico de Netanyahu e seu governo.

No dia 2 de janeiro, a chamada do Haaretz sobre a nomeação de Katz dizia o seguinte: “O homem que era chamado de fantoche [de Netanyahu], mas que se compara ao rei Herodes, está de volta ao Ministério de Relações Exteriores.”

Na reportagem, a jornalista Allison Kaplan Sommer afirma que Katz, membro desde 1998, do Likud, o partido de ultradireita controlado por Netanyahu, foi transferido para a chancelaria para “acalmar o ego machucado dos legisladores seniores do Likud depois de postos mais prestigiosos terem sido ocupados por membros de outras coalizões”, ou seja, ganhou o posto por conveniências políticas. O resultado é que já no seu discurso de posse, Katz mostrou seu perfil provocativo e nada contemporizador. Principalmente para um chanceler. Ele disse: “Nós estamos no meio de uma Terceira Guerra Mundial com o Irã e os islamitas.” Por razões como essas, os diplomatas de carreira israelenses não gostaram da indicação de Katz. Conforme o relato à jornalista do Haaretz, eles não tinham boa recordação da atuação dele na sua primeira experiência no ministério, em 2019.

E contaram isso para a repórter, em 2020. “Em 2019, o ministro Katz veio com grandes expectativas considerando suas realizações como ministro dos Transportes. Hoje, podemos dizer que o desapontamento é tão grande quanto eram as expectativas.” Outros o depreciaram ainda mais. Disseram que Katz “era o fantoche de Netanyahu”, além de “limitado para a média israelense”. De acordo com o think tank Mitvin, era Netanyahu quem tomava as decisões e fazia a política externa, cabendo a Katz participar de poucos encontros e visitas. Segundo o relatório do instituto, o primeiro-ministro dominava a página do Ministério das Relações Exteriores. Das 350 citações, 250 mencionaram Netanyahu e, apenas vinte, Katz.

O Haaretz analisou que, apenas uma vez Katz discordou da linha de Netanyahu, na sua primeira gestão no Ministério de Relações Exteriores. Foi quando disse que os poloneses tinham colaborado com os nazistas na Segunda Guerra, durante o Holocausto. “Eles amamentaram o antissemitismo com sua mãe de leite”, disse ele, causando uma tempestade diplomática. O primeiro-ministro da Polônia reagiu, à época, afirmando que não permitiria que os judeus tirassem dinheiro da Polônia, na busca por reparação de suas propriedades retiradas pelos nazistas durante a guerra. Segundo a agência AP, em reportagem de 22 de fevereiro de 2019, o então primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, disse que a fala de Katz em relação aos poloneses era “nada menos que racista”.

Na pasta dos Transportes, Katz também criou confusão. Ele tentou forçar a aprovação de dois projetos tidos como irreais: construir uma ilha artificial na costa da Faixa de Gaza (proposta que ele voltou a fazer recentemente na reunião com a União Europeia e nem chegou a ser considerada) e uma ferrovia conectando os estados do Golfo com Haifa. Outra proposta polêmica era fazer a divisão de gênero dentro dos ônibus, com homens e mulheres sentados separadamente.

Ainda em 2020, ele deu uma declaração ainda mais estapafúrdia, segundo a reportagem do Haaretz, quando se gabou nas redes sociais de dois portos marítimos que ele tinha desenvolvido. “Meu nome será associado com isso para sempre – como o rei Herodes, que construiu o porto de Cesarea quando ele quis transformar Israel em um centro internacional de comércio. Ele não teve sucesso. Eu tive.”

Já sua experiência como ministro das Finanças de Israel, de 2020 a 2021, foi desastrosa, de acordo com a imprensa do país. A colunista de finanças do Haaretz escreveu que nessa sua curta experiência, Katz provou ser “o pior ministro das Finanças da história de Israel”. E afirmou que ele operava com uma “chocante irresponsabilidade e estreitas considerações políticas”, o que piorou a crise e “devastou a economia”.

Katz tem também visões controversas em questões referentes à segurança de Israel. Recentemente, defendeu a continuação da construção de assentamentos dos colonos judeus, a extensão da soberania israelense à Cisjordânia e a rejeição da solução de dois Estados. De acordo com o Jerusalem Post, Katz já propôs que palestinos na Cisjordânia deveriam ter uma administração associada à Jordânia e que a Faixa de Gaza deveria ser isolada de Israel e conectada ao Egito.

Fora do governo, seu histórico também não é dos melhores. Em 1980, foi indiciado por dirigir com carteira suspensa, violar a investigação nesse caso e ainda de fraude e quebra de confiança em relação ao mesmo episódio da carteira. Na juventude, Katz atuava com violência nos movimentos estudantis e participou de algumas situações em que dispersou estudantes árabes portando correntes de ferro. Na imprensa israelense, Katz não usufrui de grande prestígio. No dia 19 de fevereiro, após o episódio com o embaixador brasileiro em Tel Aviv, o programa jornalístico do Canal 13, uma das principais emissoras do país discutiu, em seu horário nobre, a crise entre Brasil e Israel. Os debatedores criticaram não só a decisão do governo de declarar Lula persona non grata no país como também a forma de o chanceler conduzir a questão, embora concordassem que as falas do presidente brasileiro deveriam ser “fortemente condenadas”.

Diante do perfil tão conturbado do chanceler Israel Katz, o governo brasileiro resolveu não escalar a briga com Israel. A avaliação é de que Bibi Netanyahu está acabado e tenta manter a guerra apenas para se segurar no poder. Seus dias talvez estejam mesmo contados, dizem os diplomatas, já que os Estados Unidos, o Catar e o Egito estão em intensas negociações com o Hamas e com autoridades israelenses para tentar pôr um fim ao conflito. O chanceler americano, Antony Blinken, já esteve cerca de dez vezes no Oriente Médio buscando uma solução. E deixou claro que ela passa pela construção de dois Estados, o que Netanyahu rejeita peremptoriamente.

Já no Brasil, o esperado enfrentamento de Blinken com Lula, profetizado pela imprensa, não se confirmou. Blinken se reuniu com Lula por quase duas horas em Brasília. Ambos posaram para as fotos sorridentes e com aperto de mão. Já no Rio, para a reunião do G20, em uma entrevista para a GloboNews, ao ser questionado sobre como via a declaração de Lula, comparando a tragédia da Palestina com a dos judeus na Segunda Guerra, Blinken, que é judeu, foi amistoso. “É comum dois amigos (como ele e Lula) terem divergências”, disse. “O presidente Lula falou aquilo por causa do seu sofrimento com a morte das pessoas na guerra.”

Já Lula, que vinha se mantendo calado apesar dos ataques da imprensa e do chanceler Katz, reagiu e partiu para o contra-ataque. Ele postou no Twitter, no sábado, 24: “Da mesma forma que eu disse quando estava preso que eu não aceitaria acordo para sair da cadeia e não trocaria minha liberdade pela minha dignidade, eu digo [..] Eu sou favorável à criação do Estado Palestino soberano [..] que possa viver em harmonia com o Estado de Israel.”

Uma análise de um colunista do Haaretz, porém, não tratou a questão como trivial. E, em 21 de fevereiro, o jornal afirmou que “em poucas palavras “o presidente do Brasil apagou todas as afetivas conexões com Israel e Sionismo”.

Não é como enxerga, contudo, o embaixador brasileiro aposentado José Maurício Bustani, ex-diretor geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), que foi retirado do posto por pressão dos Estados Unidos quando avaliou – corretamente – que o Iraque não tinha armas químicas. “Lula manifestou sua indignação e emoção, que não são só dele, quanto ao que resta do povo palestino”, me disse. “Não usou a palavra Holocausto. Extermínio não permite comparações matemáticas ou entre métodos utilizados.” Continuou. “A reação dos representantes do atual governo de Israel prejudica e desmerece a dignidade do povo israelense e dos judeus de todas as nacionalidades e aumenta a censura internacional crescente quanto às ações militares contra os palestinos.” Em seguida, afirmou que “o Brasil tem crédito histórico em relação ao Estado de Israel, retomado pela primeira visita no último século de um chefe de Estado brasileiro, quando Lula visitou o país, além de nossa relação de amizade e cooperação desde Oswaldo Aranha”. Por esta razão, disse o embaixador, “são incabíveis as tristes declarações do chanceler israelense que podem querer sugerir um lamentável rompimento de relações diplomáticas”.

Outro que se incomodou com o comportamento de Katz foi o embaixador aposentado Marcos Azambuja. Normalmente afável, e evitando entrar em polêmicas, ele, inicialmente, se manteve calado sobre as declarações de Lula. Mas mostrou indignação com a atitude do chanceler de Israel em relação ao embaixador brasileiro. “Eu tinha resolvido não me manifestar”, me disse ele por telefone. “Mas o comportamento do chanceler israelense não atingiu apenas o presidente da República, atingiu todo o Brasil. Atingiu a diplomacia brasileira.” Para ele, embora a declaração de Lula tenha sido atrapalhada, “o presidente, obviamente, não tinha a intenção de ofender os judeus. Foi uma frase dita no improviso. Mas chamar Lula de antissemita, isso sim é uma impropriedade”. Azambuja não acredita que o que ele chama de “desentendimento” com Israel irá prosperar. “Netanyahu é um homem isolado, tentando se manter no cargo, e usa dessas artimanhas para tentar amenizar o horror que Israel está provocando em Gaza. Mas não considero o que ocorreu entre os dois países como crise. Foi um incidente e será superado.”

O espanhol Josep Borrell, alto representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, também saiu em defesa de Lula. Em uma declaração em 22 de fevereiro, ele disse que Lula não quis fazer uma equivalência entre Israel e os nazistas e defendeu que o presidente brasileiro seja um porta-voz para a solução dos dois Estados – o de Israel e o da Palestina – no conflito de Gaza.

Em Israel, a preocupação, no momento, não passa pelo destempero verbal do chanceler israelense contra o Brasil, nas redes sociais. A preocupação é com o que realmente pode acontecer em Gaza nos próximos dias. O temor é com a possibilidade de Israel bombardear os palestinos em Rafah, como Netanyahu já avisou que irá acontecer. Em seu editorial do dia 20, o Haaretz afirmou que “o pior governo da história de Israel quer levar o país a queimar”. Já o colunista do mesmo jornal, Gideon Levy, escreveu: “Tudo o que nós podemos pedir, implorar, gritar é: não entrem em Rafah. Uma incursão de Israel a Rafah será um ataque ao maior campo de pessoas deslocadas do mundo. Isso arrastará os militares israelenses a cometerem crimes de guerra de uma gravidade jamais cometida. É impossível invadir Rafah agora sem cometimento de crimes de guerra. Se as Forças de Defesa de Israel invadirem Rafah, a cidade se transformará numa casa funerária.”

Bandeiras de Israel em ato bolsonarista preocupam entidades judaicas

 Além do discurso proferido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, a presença de um grande número de bandeiras de Israel portadas pelos manifestantes foi um dos aspectos de maior repercussão na passeata organizada na Avenida Paulista no último domingo (25). O gesto, apesar de já esperado por entidades de representação judaica no Brasil, foi visto com preocupação diante da apropriação de um de seus principais símbolos.

Em nota, o Instituto Brasil-Israel se pronunciou sobre a utilização de bandeiras israelenses pelos manifestantes. Para a entidade, o ato é parte de uma “instrumentalização da imagem de Israel pela extrema-direita brasileira, baseada na perspectiva imaginária de um país conservador, branco e cristão”. Essa representação “é contrária à realidade de uma sociedade composta por uma população diversa, com rachas internos difíceis de resolver, muito machucada pela guerra”.

Daniel Douek, assessor especial do Instituto Brasil-Israel, cientista social e mestre em Letras pelo programa de Estudos Judaicos e Árabes da USP, reforça o entendimento de que o uso das bandeiras “tem menos a ver com uma agenda da comunidade judaica do que com apoiadores de Bolsonaro, especialmente evangélicos, pelo lugar que o país ocupa em sua doutrina religiosa”.

O movimento Judeus Pela Democracia também entende o gesto dos manifestantes como uma apropriação por parte da ala evangélica. “O apoio incondicional de evangélicos à Israel bíblica e a aproximação pela extrema-direita a uma Israel belicista e imaginariamente conservadora ajudam a explicar. Some-se a isso o uso maniqueísta da guerra e temos o resultado mais do que óbvio”, aponta o grupo.

As bandeiras, conforme acrescenta Daniel Douek, acabam sendo apropriadas também para representar um símbolo de oposição à atual conjuntura política. “Há desde um contraponto à esquerda, que exibe bandeiras da Palestina em suas manifestações, até a percepção de que o Estado de Israel representaria os valores conservadores que esses grupos reivindicam para o Brasil”.

A realidade da comunidade judaica, porém, ele explica que diverge do imaginário bolsonarista. “A comunidade judaica brasileira é plural, composta por cerca de 120 mil pessoas. Existe judeu rico e judeu pobre, judeu branco e judeu negro, judeu de direita e judeu de esquerda. Daí que as reações em relação à presença da bandeira de Israel nesses atos variam muito”, ressaltou.

Douek acredita que o processo de apropriação tende a se intensificar com o avanço da polarização na política brasileira e do enfoque sobre a guerra no Oriente Médio. O movimento Judeus pela Democracia lamenta que isso aconteça nas mãos de um movimento contrário à ordem democrática. “É triste ver que as evidências já divulgadas do golpismo do governo Bolsonaro não desmobilizaram a parcela conservadora, religiosa, militarista e potencialmente antissemita da população brasileira”.


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