25/05/2024 - Edição 540

Mundo

Fome extrema aumenta, e mundo fracassa na meta de erradicar crise até 2030

Potências gastam US$ 2,4 tri em armas: valor erradicaria a pobreza no mundo

Publicado em 29/04/2024 10:20 - Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Jcomp via Freepik

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Com 281,6 milhões de pessoas sobrevivendo em uma situação de desnutrição aguda, a ONU alerta que o mundo dificilmente atingirá a meta estabelecida no início do século para erradicar a fome extrema até 2030.

Num informe publicado na semana passada, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) apresenta a situação de 59 países que vivem uma situação crítica: 24 milhões de pessoas entraram nessa categoria catastrófica em comparação a 2022.

“Esse quinto ano consecutivo de aumento do número de pessoas que enfrentam altos níveis de insegurança alimentar aguda confirma a enormidade do desafio de atingir a meta de acabar com a fome até 2030”, afirmou o documento.

De um total de 280 milhões de pessoas vítimas da fome, 36 milhões no mundo estão à beira da morte por conta da falta de comida.

Ranking dos países com maior número absoluto de famintos:

  1. República Democrática do Congo: 25,8 milhões
  2. Nigéria: 24,9 milhões
  3. Sudão: 20,3 milhões
  4. Afeganistão: 19,9 milhões
  5. Etiópia: 19,7 milhões

Ranking de país/território das maiores proporções de famintos — a classificação de insegurança alimentar se refere à incerteza sobre como farão para obter comida:

  1. Gaza: 100%
  2. Sudão do Sul: 63%
  3. Iêmen: 56%
  4. Síria: 55%
  5. Afeganistão: 46%

“Este relatório é uma chamada de atenção para as falhas humanas”, disse António Guterres, secretário-geral das ONU.

“Em um mundo de abundância, crianças estão morrendo de fome. Guerra, caos climático e uma crise de custo de vida significam que quase 300 milhões de pessoas enfrentarão uma crise alimentar aguda em 2023”, disse. Segundo ele, o número de pessoas à beira da fome absoluta e que levaria à morte em poucos dias subiu para mais de 700 mil — quase o dobro do número de 2022.

Os conflitos que eclodiram nos últimos 12 meses agravaram a terrível situação global. “A Faixa de Gaza tem o maior número de pessoas enfrentando uma fome catastrófica já registrada pelo Relatório Global sobre Crises Alimentares, mesmo com a fila de caminhões de ajuda bloqueados na fronteira”, disse.

Outro alerta é sobre o conflito no Sudão que, segundo Guterres, “criou a maior crise de deslocamento interno do mundo, com impactos atrozes com impactos atrozes sobre a fome e a nutrição, principalmente para mulheres e crianças”. “Essa crise exige uma resposta urgente”, disse.

Para o Fundo Mundial de Alimentação da ONU, a desnutrição em Gaza em crianças de menos de 2 anos atinge 30%. No norte da região, 70% da população está em um nível catastrófico de fome — que pode levar à morte. A entidade estima que, se nada for feito, o grau máximo de fome será atingido em seis semanas.

Pela FAO, existem cinco níveis de classificação da insegurança alimentar. A população do Norte de Gaza vive a segunda pior situação, apenas superada pela morte pela fome.

Na América Latina, Haiti é maior crise

Na América Latina, a fome extrema atinge as populações do Haiti, da Bolívia, da Colômbia, da República Dominicana, de El Salvador, da Guatemala, de Honduras e da Nicarágua.

A Venezuela não foi incluída no informe — questionadas, nenhuma das agências da ONU tinha uma resposta sobre a ausência do país no documento.

“Na América Latina e no Caribe, o Haiti está enfrentando uma crise alimentar pior em 2024 do que a projetada em agosto de 2023, devido ao aumento da violência das gangues”, diz trecho do relatório da FAO.

Na região, 19,7 milhões de pessoas enfrentaram altos níveis de insegurança alimentar aguda em 2023 em nove países. Na América Latina, existem 12 milhões de pessoas deslocadas à força em cinco países até 2023 — sendo 7,3 milhões de deslocados internos e 4,8 milhões de migrantes e refugiados.

Metas distantes

O que preocupa as agências da ONU é que, se 2023 mostrou um cenário dramático, o risco é que 2024 tenha um resultado “catastrófico”, principalmente no Sudão e em Gaza.

A situação abala os planos da entidade de erradicar a desnutrição até 2030, fenômeno que atinge cerca de 800 milhões de pessoas no mundo.

“Estamos longe de atingir meta de acabar com fome até 2030. Se continuarmos nessa mesma tendência, vai ser muito difícil”, afirma Dominique Burgeon, diretor da FAO em Genebra.

Segundo ele, mantida a situação, o mundo ainda terá 600 milhões de pessoas em insegurança alimentar até o final da década.

Quanto custaria para atacar fome?

Se a crise ganha novas proporções, os valores destinados para lidar com a fome representam apenas uma fração do que o mundo destina para armas. Nesta semana, um levantamento revelou que, em 2023, governos destinaram US$ 2,4 trilhões para suas forças armadas.

O Banco Mundial, no mesmo período, alocou US$ 45 bilhões para combater a fome. Na ONU, toda a ajuda humanitária para as piores crises do planeta foi calculada em US$ 54 bilhões.

Potências gastam US$ 2,4 tri em armas; valor erradicaria a pobreza extrema

As principais potências gastaram US$ 2,4 trilhões (pouco mais de de R$ 12 trilhões) em suas forças armadas no ano passado — numa ofensiva liderada por EUA, China e Rússia. Trata-se do valor mais elevado já registrado, superando o auge da Guerra Fria.

Apenas os países da Otan foram responsáveis por US$ 1,3 trilhão, segundo os dados do Sipri (Instituto Internacional de Estocolmo para Pesquisas para a Paz, na tradução). Os gastos no Oriente Médio e Ásia também batem recorde.

Mas o que aconteceria se destinássemos o equivalente ao dinheiro que o mundo gastou em armas em 2023 para lidar com alguns dos maiores desafios da humanidade?

Caso o valor fosse destinado a outras áreas, o impacto poderia ser decisivo na luta contra a pobreza e fome. Doenças seriam controladas e erradicadas, enquanto milhões de professores poderiam ser pagos.

Hoje, apenas sete países no mundo têm um PIB superior aos gastos globais em armas. Cerca de 150 países contam com um PIB que representa 10% desses orçamentos militares. O Haiti, por exemplo, tem uma economia que soma apenas 1% dos gastos mundiais de armas.

Se esse dinheiro fosse para alimentação…

A fome é tão antiga quanto a história da humanidade. A Oxfam, confederação que atua contra a insegurança alimentar, estimou em 2022 que precisaria de 37 bilhões de dólares por ano até 2030 para enfrentar a fome extrema e a fome crônica.

Em 2015, a FAO (agência da ONU para alimentação) estimou que acabar com a fome até 2030 exigiria US$ 267 bilhões por ano extras em investimentos na área urbana e rural, além de proteção social.

Ou seja, se apenas um ano de gastos militares fosse destinados para o combate à fome, a história seria outra para bilhões de pessoas.

Se fosse para operações humanitárias…

As crises humanitárias por conta de guerras, clima e desastres também assolam o planeta. Em 2024, a ONU anunciou que precisa de US$ 46 bilhões para sair ao socorro de 180 milhões de pessoas pelo mundo. Quase cinco meses depois, recebeu apenas 9% desse valor.

As armas de 2023, portanto, teriam financiado operações humanitárias durante anos.

Se fosse para erradicar a pobreza..

A pobreza extrema atinge hoje 648 milhões de pessoas que, segundo o Banco Mundial, vivem com menos US$ 2,15 por dia.

Dar mil dólares para cada uma delas por um ano revolucionaria a vida desse segmento mais miserável do planeta e custaria menos de US$ 700 bilhões. Um terço dos gastos em armas.

No começo do nosso século, o economista Jeffrey Sachs estimou que o mundo precisaria investir US$ 175 bilhões por ano, durante 20 anos, para erradicar a pobreza. Se tivesse sido adotada, sua proposta teria levado o planeta a um outro caminho.

Se fosse para a saúde…

Doenças que assolam a humanidade também teriam, finalmente, uma resposta. Em 2020, a UNAids (programa da ONU contra a doença) lançou um programa para permitir que US$ 29 bilhões fossem investidos até 2025 para reverter de forma definitiva a trajetória da Aids nos países pobres e de renda média. Uma migalha diante dos preços das bombas e mísseis.

A comunidade internacional ainda lançou, em 2022, um plano para erradicar a pólio até 2026. Para isso, precisa de US$ 4,8 bilhões.

Mesmo no caso da covid-19, os recursos teriam sido decisivos, enquanto a guerra pelas vacinas criava o que africanos chamaram de um “apartheid” de saúde no mundo. Durante os momentos mais críticos da pandemia, o Banco Mundial estimou que seriam necessários US$ 50 bilhões para vacinar o mundo todo contra a covid-19.

Nos primeiros três anos da pandemia, governos destinaram mais de US$ 105 bilhões para a compra de vacinas e terapias. Até 2025, a conta chegará a US$ 157 bilhões, segundo a IQVIA Holdings Inc, empresa que atua com tecnologia da informação, saúde e pesquisa clínica.

Se fosse para a educação…

Na área de educação, a comparação com os gastos em armas fica ainda mais escandalosa. Com os US$ 2,4 trilhões, haveria recurso suficiente para pagar pelos salários de 30 milhões de professores, com base na renda da profissão nos EUA (cerca de US$ 55 mil por ano).

Ainda nos EUA, o dinheiro das armas pagaria por toda a universidade de 8 milhões de americanos.

No Brasil, o que se gastou em armas financiaria o Bolsa Família — que custa R$ 168 bilhões por ano — por pelo menos 50 anos.

Se fosse para o clima…

O clima, o maior desafio da humanidade no século 21, também teria outra história. Com os recursos apenas de um ano em armas, os países ricos teriam recursos suficientes para cumprir a promessa de ajudar os emergentes e mais pobres a promover a transição energética. Em 2015, eles prometeram destinar US$ 100 bilhões por ano, dinheiro que jamais chegou.

Garantir uma transformação climática, porém, custará muito: cerca de US$ 1 trilhão por ano aos países em desenvolvimento. Ou 1,5 trilhão de euros para a UE se transformar em um continente com emissões zero até 2050.

Mesmo assim, a outra opção é uma ameaça existencial para todos nós.


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