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Especial

Entre o direito de ir e vir e a simples baderna

Publicado em 17/01/2014 12:00 -

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Nas últimas semanas uma expressão passou a fazer parte do vocabulário dos brasileiros: o “rolezinho”. Para os menos antenados, uma explicação: trata-se de encontros marcados por redes sociais que atraem milhares de jovens da periferia a shoppings.

Os adolescentes entram pacificamente nos locais. O problema é que, depois, alguns promovem baderna e correria assustando lojistas e outros frequentadores. Em grupos, passam correndo por corredores entoando batidas do funk. Os que vêm atrás se integram aos demais, numa formação conhecida como "bonde".

Com a intervenção de seguranças, muitas vezes o que era um passeio acaba se transformando em confusão. Confira abaixo o vídeo do “rolezinho” no Shopping Itaquera, em São Paulo.

Os “rolezinhos” acontecem desde 2012, mas antes eram chamados de "encontro de fãs" e serviam para que "ídolos" conhecessem os seus seguidores e vice–versa. Estes ídolos são jovens da periferia donos de perfis que chegam a ter dezenas de milhares de seguidores em redes sociais como o Facebook.

Direitos e Deveres

Depois dos tumultos das últimas semanas, três shoppings da capital paulista conseguiram liminares que proibiam encontros que seriam realizados no final de semana passado. Quem participasse, poderia ser multado em até R$ 10 mil. A Abrasce (associação que reúne 264 shoppings no país) não descarta entrar na Justiça para impedir a realização de outros "rolezinhos" e vão destacar mais seguranças nos próximos eventos, que estão sendo são monitorados nas redes sociais.

Para o professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Fernando Menezes, o que está em jogo, nesse caso, é o direito de ir e vir e o direito à propriedade. “No caso em que um grupo, se valendo da sua liberdade de ir e vir, combina um encontro de tal volume e de tal tamanho e com tais atitudes que começam a, exageradamente, impedir o exercício de outros direitos e liberdade por outras pessoas, estão abusando do seu direito”, explicou.

O professor da Universidade de Brasília, Alexandre Bernardino, discorda. Na opinião dela, a proibição da entrada nos shoppings está ligada ao perfil dos jovens que fazem os "rolezinhos". “É claramente uma manifestação de preconceito em relação a um determinado grupamento social que se caracteriza por pobreza e por negritude, um grupo que se manifesta politicamente, no sentido mais amplo da palavra, e que não pode ter seu direito de manifestação e de ir e vir cerceado em um lugar público, porque o lugar é privado, mas é aberto ao público, então é publico”, defende.

No Shopping Vitória (ES), a polícia militar fez uma “fila indiana” para retirar os jovens que participavam do “rolezinho”.

A professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFP), Liana Lewis, entende que o fenômeno evidencia contrastes da sociedade brasileira. “Quando a gente trata de 'rolezinho', a gente não pode separar a questão de classe da questão de raça. O 'rolezinho' é um fenômeno de classe e de faixa etária, mas sobretudo de raça”, explicou. Para Liana, existe um estranhamento quando universos diferentes passam a ocupar o mesmo espaço. “O que mais amedronta no 'rolezinho', para além da questão de classe, é que você tem vários garotos negros em um espaço majoritariamente branco”, destacou.

De acordo com a professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ivana Bentes, o fenômeno tem raiz política. “Mesmo que não tivesse uma intenção de causar politicamente, ele é político. A simples existência de um jovem negro da periferia dentro de um shopping center, sendo rejeitado, sendo considerado um consumidor indesejado, já é um fato político, independentemente da intencionalidade”, disse. “Acho muito importante que outros grupos sociais tenham se organizado para manifestar solidariedade a esses jovens”, completou.

A professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFP), Liana Lewis, entende que o fenômeno evidencia contrastes da sociedade brasileira.

Governo
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse que os “rolezinhos” são uma resposta ao preconceito contra algumas classes sociais e que não se deve reprimi-los.

Segundo ele, o melhor caminho é dialogar e buscar alternativas para as manifestações dos jovens. “Não considero a repressão o melhor caminho, porque tudo o que for feito nessa linha vai ser como colocar gasolina no fogo”, disse.

Para Carvalho, tirar conclusões neste momento pode gerar uma “análise precipitada”, o que é “temerário e pode incorrer em erro”. “Estamos na fase de tentar entender melhor esse fenômeno, que é uma manifestação por abertura de espaços para a juventude, que mostra que cada vez mais não aceita a discriminação e o fechamento de espaços reservados a uma ou outra classe social”, avaliou.

Espaço e Lazer

Para o sociólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, João Clemente Neto, as manifestações em shoppings estão ligadas à carência de locais para lazer e cultura. “Se você for em alguns lugares, mesmo nos bairros da classe média, você não encontra espaço para isso. Se você pegar a cidade de São Paulo, quantos milhões de jovens e adolescentes nós temos? E os espaços para livre manifestação são minúsculos”, ressaltou o professor que trabalha com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Para Neto, os jovens optam por se manifestar nos shoppings pela visibilidade dos locais e pela mensagem que eles tentam passar. “Tudo que nós falamos de consumo, que ele quer ver e quer consumir, aparece no shopping. E ao mesmo tempo é uma forma de resistência, porque ali é o espaço do consumo. Então, quando você fala ali, é uma forma de se autorreconhecer, daquele grupo se reconhecer naquele espaço”, concluiu.

O advogado, Mauro Rodrigues Penteado, professor de direito comercial da Universidade de São Paulo (USP) discorda. “Por mais que nos solidarizemos com nossa juventude humilde que busca espaços para se relacionar e dar vazão ao seu amor e alegria, não é possível apoiá-la nessa onda recente de ‘rolezinhos’ marcados em shoppings centers e outros locais privados com destinação específica.

Para ele é triste a ausência de opção de lazer para os jovens de camadas mais pobres. No entanto, os "rolezinhos", tal como vêm sendo marcados, atentam contra os direitos individuais e coletivos assegurados pela Constituição Federal.
“Isso sem falar no direito também constitucionalmente garantido à propriedade e à livre iniciativa (arts. 1º, inc. IV, 5º, "caput" e 170). Daí porque estão corretas as liminares concedidas pelo Judiciário aos shoppings – que estabeleceram multa aos participantes”, explica.

Segundo Penteado, os shoppings são empreendimentos privados abertos ao público especificamente para compras, lazer, diversão, passeio e nenhum deles tem uma "praça do rolezinho".
“Se o poder público não disponibiliza, como deveria, espaços próprios para o saudável congraçamento e encontro entre jovens, nem por isso os brilhantes moços que os organizam deixam de ter alternativas interessantes. E todas elas são protegidas pela Constituição”, argumenta o jurista.

Gente comum

A voz das redes sociais é menos “filosófica”, tem menos embasamento sociológico, mas seu senso comum reflete o sentimento médio da população. Para a maioria, não há problema algum em um “rolezinho”, desde que os direitos das demais pessoas sejam respeitados.

Para a maioria, não há problema algum em um rolezinho, desde que os direitos das demais pessoas sejam respeitados.

Para o arquiteto carioca Fabrício Ferreira a saída não é proibir os “rolezinhos”, mas gerenciá-los: “Não tem problema nenhum pessoas andarem juntas num shopping. O problema é a baderna fora de contexto. Se 50 pessoas começarem a correr e gritar dentro de um shopping center, todos vão ficar assustados, independente de ser 50 pobres ouvindo funk ou 50 ricos ouvindo opera”.

Moradora de Campo Grande (MS), a consultora Lilinha Queiroz considera que o fenômeno é coisa de gente que não respeita o espaço público. “Já pensou nas crianças pequenas vendo o tumulto? Para elas isso é assustador. Um idoso assustado pode até falecer de infarto por medo. Sou contra e não acho que essas pessoas podem fazer isso”, avisa.

O estudante Adriano Borges, também de Campo Grande, concorda e discorda. “Discordo a partir do momento em que o grupo transforma o que era para ser um simples passeio em bagunça e baderna”.

O bombeiro Thiago Kalunga vai na mesma linha. “Todo mundo tem o direito de dar o seu ‘rolezinho’, o que não pode é transformar um passeio em tumulto com perturbação da tranquilidade”.


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