22/06/2024 - Edição 540

Especial

A vida secreta de seus filhos

Publicado em 13/06/2014 12:00 -

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Es­tudos re­centes mos­tram que os pais pensam que sabem, mas, no fundo, não têm ideia do que os fi­lhos fazem on-line. Um exemplo: 33% das cri­anças con­fessam que já fi­zeram com­pras vir­tuais, 24% delas sem con­sen­ti­mento. Mas só 17% dos pais pensam que seus fi­lhos com­pram na rede, se­gundo o re­la­tório Norton On­line Fa­mily, da Sy­mantec, feito com 9.888 pes­soas.             

Outro es­tudo mostra o que os adultos pro­va­vel­mente não veem: 88% dos jo­vens de 12 a 17 anos já pre­sen­ci­aram cru­el­dade na in­ternet e 21% já hu­mi­lharam pes­soas em redes so­ciais – dados do re­la­tório "Teens, Kind­ness and Cru­elty on So­cial Network Sites" (ado­les­centes, bon­dade e cru­el­dade em redes so­ciais), feito pelo Pew Re­se­arch Center's In­ternet e Ame­rican Life Pro­ject.

Patricia Peck, especialista em direito virtual e criadora do projeto Criança Mais Segura na Internet, critica o excesso de confiança nos filhos. Muitos adultos não estão na rede e acham que estar em casa é estar seguro. "Quando um filho dá uma volta na rua, perguntamos com quem ele conversou. Mas não questionamos o que rolou na internet."

Não é descuido, é inexperiência, opina o psicólogo Cristiano Nabuco, pesquisador na área de dependência em internet. "Não dá para imaginar os perigos de uma situação que você não viveu." A psicóloga infantil Armelinda Maria Barros Leite concorda: "Os cuidados que os pais devem ter com os filhos na internet são os mesmos que eles precisam ter nas ruas. É preciso conhecer seus relacionamentos", afirma.

Es­tudo mostra que 88% dos jo­vens de 12 a 17 anos já pre­sen­ci­aram cru­el­dade na in­ternet e 21% já hu­mi­lharam pes­soas em redes so­ciais.

A lista de riscos inclui desde conversar com estranhos até ficar dependente e se desligar do mundo real. "Se nós adultos checamos e-mail até na praia, imagine um adolescente, em que o controle cerebral de estímulos não está totalmente desenvolvido", diz Nabuco.

Proibir não Adianta

Seria mais sim­ples proibir, mas é im­pos­sível evitar que cri­anças e ado­les­centes acessem a rede. Se não for em casa, vai ser na es­cola, com o amigo, no ce­lular. "É a mesma coisa que falar para seu filho nunca comer pi­colé. É inútil, quando ele puder, vai comer, e sem sua su­per­visão", diz a psi­có­loga An­drea Jotta, do Nú­cleo de Pes­quisas da Psi­co­logia em In­for­má­tica da PUC-SP.

Me­lhor juntar-se ao "ini­migo"? Os nú­meros dizem que sim. A úl­tima pes­quisa TIC Cri­anças, do Co­mitê Gestor da In­ternet no Brasil, mostra que os pais co­nec­tados são os que mais con­trolam o acesso e me­lhor ori­entam os fi­lhos sobre o uso da rede, de acordo com Ale­xandre Bar­bosa, porta-voz da en­ti­dade.

É a es­tra­tégia da dona de casa Vi­viane Pe­reira, 35. Ela está no Fa­ce­book, Twitter, tem um blog (o Mãe Di­gital) e segue os passos vir­tuais da filha Ra­faela, 16."Eu não me im­porto, sempre foi assim. Também não faço nada de er­rado", diz a me­nina, dona de um laptop nunca ras­treado pela mãe. "Fico de olho, mas ela tem a pri­va­ci­dade dela. Não sei tudo que ela faz. Sei que par­ti­cipa de fó­runs de mú­sica", ex­plica.

Com o filho mais novo, Italo, 9, a rédea é mais curta. Ele usa um com­pu­tador com blo­queio de sites e sempre tem al­guém por perto. Mesmo assim, aci­dentes acon­tecem. "Uma vez, ele es­tava pes­qui­sando sobre a Grécia e chegou na pa­lavra busto. Foi cli­cando e acabou em uma pá­gina com fotos sen­suais de mu­lheres. Minha filha viu e me chamou." A si­tu­ação foi con­tor­nada com con­versa.

Hora do Diálogo

Nisso os es­pe­ci­a­listas con­cordam: se proibir não adi­anta e pode até pi­orar, diá­logo sempre ajuda. Não é pre­ciso ater­ro­rizar a cri­ança, mas alertar do risco da ex­po­sição e do uso de ima­gens, avisa Pa­tricia Peck.

A pro­fes­sora Maria Alice Garcia Mar­tins aposta nesta es­tra­tégia: "Con­verso bas­tante com o João (15 anos), sobre os pos­sí­veis riscos da in­ternet e o ori­ento a não con­versar e nem adi­ci­onar em sua rede pes­soas es­tra­nhas. Faço seus ca­das­tros junto com ele e tenho as se­nhas de sites de re­la­ci­o­na­mento e e-mail. Fora isso, ele tem li­ber­dade de na­vegar e faz isso com bas­tante frequência. Às vezes acho que pre­ci­saria estar mais pró­xima e acom­pa­nhar mais de perto esse mo­vi­mento, in­ves­ti­gando de vez em quando seu com­pu­tador, mas sempre con­verso com ele sobre de­ter­mi­nados con­teúdos e da ade­quação deles para a sua idade", afirma.

Para a pu­bli­ci­tária Nanci Silva, o papel dos pais é o de ori­entar os fi­lhos para a vida, seja no es­paço of­fline ou on­line: "De­vemos en­siná-los a res­peitar li­mites e re­gras, cum­prir res­pon­sa­bi­li­dades e tomar os cui­dados ne­ces­sá­rios. Nossa re­lação deve ser pau­tada pelo diá­logo, pela sin­ce­ri­dade e pela pre­sença. Meus fi­lhos pas­saram por um pro­cesso. Pri­meiro apren­deram a usar a in­ternet como fonte de pes­quisa, bus­cando fontes con­fiá­veis. De­pois, pas­saram a ter os seus pró­prios en­de­reços ele­trô­nicos para re­ceber as ta­refas es­co­lares. E, so­mente de­pois dos 10 anos, pas­saram a ter acesso às redes so­ciais, mesmo assim, apenas João Fran­cisco, de 15 anos, tem au­to­ri­zação para co­locar sua foto no perfil. Só podem adi­ci­onar fa­mi­li­ares, amigos da es­cola, pro­fes­sores e amigos do nosso con­vívio. Eles têm cons­ci­ência da im­por­tância dos cui­dados e não adi­ci­onam des­co­nhe­cidos. Tenho a senha de todos, para que possa ve­ri­ficar se tudo está dentro da nor­ma­li­dade."

Internet tem idade?

Não há uma idade certa para a cri­ança co­meçar a ter con­tato com a in­ternet, de acordo com a psi­có­loga e edu­ca­dora Carmem Ro­dri­gues Schffer, da Fun­dação Mi­neira de Edu­cação e Cul­tura (Fumec). No en­tanto, se­gundo ela, até os seis anos de idade o mundo vir­tual não traz muitos be­ne­fí­cios para a cri­ança. A psi­có­loga Ar­me­linda Maria Barros Leite diz que, até os seis anos, não se deve per­mitir que a cri­ança na­vegue so­zinha: "Ela não tem con­di­ções de dis­cernir si­tu­a­ções de risco", ad­verte.

De forma geral, aceita-se que cri­anças com menos de dez anos pre­cisam de su­per­visão, mas de­pois dá para soltar um pouco e, se houver des­con­fi­ança, usar fer­ra­mentas que geram re­la­tó­rios de sites vi­si­tados.

Para An­drea Jotta, do Nú­cleo de Pes­quisas da Psi­co­logia em In­for­má­tica da PUC-SP, as mesmas re­gras do mundo real valem para o vir­tual. "A cri­ança pode ga­nhar cada vez mais au­to­nomia quando mos­trar que é res­pon­sável e segue al­guns com­bi­nados. Se des­cum­prir as re­gras deve ter cas­tigo", acon­selha a psi­có­loga.

Se o pai des­co­brir que o ado­les­cente está aces­sando con­teúdo im­pró­prio, em vez de brigar, pode apro­veitar para dis­cutir o tema. "Não tem como deixar os sites de sexo blo­que­ados para sempre", diz o es­pe­ci­a­lista em se­gu­rança vir­tual Bruno Ros­sini, da Sy­mantec.

Stella Perlatti, 8, entra em sites de bonecas, vê vídeos e pediu para ter um blog. A mãe, a design Priscilla Perlatti, 36, deixou. Priscilla vive na internet – é uma das autoras do site de maternidade Mamatraca. "Fazemos o blog dela juntas. Ela ilustra com desenhos feitos em um tablet."

A mãe ainda não usa nenhum filtro no computador e não sabe quando será necessário. "A Stella já está começando a sair do nosso controle, mas quero esperar para ver o que vai acontecer."

Com a alfabetização, o interesse das crianças passa a ser concreto: elas pesquisam coisas relacionadas ao cotidiano, mas ainda não são capazes de julgar os conteúdos. Depois da pré-adolescência, podem analisar conteúdos criticamente, explica Schffer. Ela acredita que o uso do computador ajuda no desenvolvimento cognitivo.

Compartilhando a Rede

A psi­có­loga Ar­me­linda Maria Barros Leite ad­verte que, talvez, a me­lhor so­lução es­teja no com­par­ti­lha­mento da ex­pe­ri­ência vir­tual entre pais e fi­lhos: "Não é sau­dável per­mitir que a ex­pe­ri­ência vir­tual se trans­forme em algo iso­lado. Por isso, acessar a rede em fa­mília é uma ex­pe­ri­ência mais in­te­res­sante e mais se­gura. Manter os com­pu­ta­dores em um am­bi­ente comum, no qual pais e fi­lhos possam na­vegar lado a lado é uma saída", ex­plica.

Filho mais novo da pu­bli­ci­tária Nanci Silva, Antônio Pedro, 12 anos, dá a pista cuja tra­je­tória emerge na mesma es­trada pro­posta por Barros Leite: "Quando eu nasci, já tinha com­pu­tador e in­ternet na minha casa.  Fui apren­dendo e des­co­brindo a na­vegar, sempre com a ori­en­tação dos meus pais. Com o fa­le­ci­mento do meu pai, vou menos ao com­pu­tador, mas ainda gosto dos jogos on­line, ouço mú­sica e vejo ví­deos no you­tube. Minha mãe sempre curte e co­menta as mi­nhas pu­bli­ca­ções no Fa­ce­book. Eu acho que minha re­lação na in­ternet com minha fa­mília é muito boa porque nós sempre es­tamos unidos, mesmo quando tem uma bar­reira de metal com tec­no­logia avan­çada nos se­pa­rando a gente se une com com­pu­ta­dores".

Crianças na Net

Val­demar Setzer, pro­fessor apo­sen­tado do De­par­ta­mento de Ci­ência da Com­pu­tação da USP, dis­corda. Se­gundo ele, a in­ternet é al­ta­mente dis­tra­tiva. "Com­pu­tador e in­ternet são ins­tru­mentos de adulto. Nin­guém dá um carro para uma cri­ança aprender a usar."

Para a edu­ca­dora Eloiza Oli­veira, di­re­tora do campus vir­tual da Uni­ver­si­dade do Es­tado do Rio de Ja­neiro (UERJ), o risco está no ex­cesso de cre­di­bi­li­dade dado a in­for­ma­ções da rede. "É pre­ciso en­sinar a du­vidar, mas nem tudo na in­ternet é ne­ga­tivo. Temos pre­con­ceito. Os jo­vens se en­volvem em cam­pa­nhas, dis­cutem temas sé­rios e con­vivem so­ci­al­mente de forma po­si­tiva."


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