21/07/2024 - Edição 550

Ponte Aérea

Big techs viram senhoras da democracia ao cercear posições pró-Palestina

Redes sociais promovem apartheid digital em meio à guerra entre Hamas e Israel

Publicado em 24/10/2023 2:08 - Raphael Tsavkko Garcia

Divulgação Pixabay

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Durante os protestos que ficaram conhecidos como Primavera Árabe em 2011, assim como nos movimentos dos Indignados na Espanha e Junho de 2013 no Brasil, as redes sociais foram fundamentais para atrair mais pessoas às ruas e encorpar as demandas populares, as quais ganharam projeção mundial. Não é à toa, portanto, que um crescente número de ativistas tem usado as redes sociais como meio para denunciar abusos, convocar protestos, se organizar e se informar. Por exemplo, desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, a propaganda de Moscou tem sido ferozmente denunciada, assim como o apoio a Kiev tem crescido.

Todavia, propaganda e desinformação também se espalham pelas conexões digitais. Exemplos não faltam no caso da propaganda pró-Trump nos EUA, nas teorias conspiratórias como QAnon, no apoio a Bolsonaro, no incitamento a ataques e ódio contra minorias. Numa velocidade alucinante, as redes têm se tornado uma terra de ninguém onde grupos se digladiam e se reforçam internamente, ao mesmo tempo em que angariam apoios e impedem qualquer debate por meio do cerceamento a posições moderadas e independentes.

No conflito entre Israel e Hamas não poderia ser diferente. Há, porém, um agravante: A censura imposta pelas big techs que controlam as redes sociais a postagens de apenas um dos lados do conflito. Ativistas pró-Palestina tem, em todo o mundo, denunciado que suas postagens são apagadas para calar suas vozes. Ademais, há casos de perfis banidos e deletados ou limitados. A isso junta-se a campanha de propaganda e desinformação israelense que tem inundado as redes sociais buscando silenciar vozes dissidentes pela mera pressão financeira e política de um Estado que vem cometendo limpeza étnica e genocídio há mais de meio século.

Israel não é o primeiro país a agressivamente inundar as redes sociais com propaganda e desinformação: Índia, Irã, Edito, Rússia e até mesmo o Brasil mantêm tropas online. A diferença é que existe um esforço das redes sociais para tentar limitar a ação dessas tropas, mas o mesmo não acontece com Israel, que conta com o beneplácito dos EUA para cometer crimes indiscriminadamente e sem qualquer accountability.

Se é verdade que o Hamas cometeu um claro crime contra a humanidade ao assassinar centenas de civis israelenses e merece todo o repúdio internacional, é igualmente preciso afirmar que Israel comete crimes semelhantes em uma escala maior e de maneira contínua sem que a máquina de propaganda do país seja realmente incomodada por qualquer ator relevante—inclusive as big techs.

Enquanto isso, postagens em defesa da causa palestina são apagadas e limitadas sem qualquer critério, com a Meta chegando à desfaçatez de acusar tudo de um “bug” – que curiosamente se repete há anos e anos. Se por um lado Israel impõe um regime de apartheid nas ruas, por outro as big tech colaboram com o regime israelense e impõem um apartheid digital nas redes.

Por exemplo, em 2021, durante a pandemia, o Zoom, por exemplo, chegou a impedir que um evento sobre liberdade de expressão para a Palestina acontecesse, assim como o Facebook e YouTube bloquearam o evento acadêmico. Assim, as perspectivas dos palestinos acerca da violência a que são diariamente submetidos são silenciadas, ao passo que a propaganda israelense que busca passar pano para limpeza étnica corre solta, com posts promovidos, propaganda paga e apoio mal disfarçado daquelas grandes corporações.

Isso se insere na lógica israelense de tentar vender a ideia de que defender a Palestina seria o equivalente a antissemitismo (esquecendo, claro, que árabes são igualmente semitas) e que defender a causa seria dar apoio ao terrorismo. Palestinos e o Hamas seriam, segundo esse raciocínio desonesto, a mesma coisa.

Essa lógica é repetida diariamente no castigo coletivo contra a população de Gaza em que milhares de civis são mortos e, na prática, tratados como terroristas por um regime que bombardeia a região e impede a entrada de qualquer ajuda humanitária, ainda cortando água e eletricidade para tentar matar de todas as formas possíveis a população.

A propaganda de genocídio tem carta branca, ao passo que a resistência, mesmo pacífica, é criminalizada e silenciada. E isso acontece até mesmo contra vozes israelenses e da comunidade judaica mundo afora que se opõem às políticas genocidas de Israel, defendendo a paz e o diálogo no lugar delas. Da mesma forma é óbvio que existem vozes dentre a resistência palestina que se alinham ao Hamas – o que não justifica que todos em Gaza e até mesmo na Cisjordânia sejam criminalizados, inclusive por aqueles que controlam os algoritmos das redes sociais.

Tais redes, portanto, agem como legitimadoras de genocídio. E não se trata apenas do resultado da falta de accontability e oversight sobre as big tech. Ainda que houvesse limites legais aos poderes dessas corporações, muito provavelmente elas estariam alinhadas à política de proteção absoluta do governo dos EUA em relação a seu aliado incondicional. Washington sempre legitima os crimes de Israel e impede que eles sejam punidos. Não há descuido ou coincidência: as big tech encaixam-se nessa estratégia.

Se não bastasse isso, Israel também planeja impedir que demais veículos de mídia como a Al Jazeera possam transmitir imagens a partir de seu território e bombardeia escritórios de imprensa. Para além do Oriente Médio e das redes, países europeus também vêm apertando o cerco contra ativistas pró-Palestina, conforme já demonstrado neste espaço.

A censura a vozes que pedem por paz e denunciam o genocídio e apartheid israelenses apenas reforça o discurso radical de grupos como o Hamas – que por sua vez são o sonho do governo de extrema-direita israelense, como defendeu o próprio Netanyahu. A contínua repressão israelense não é de graça, seja nas redes, seja nas ruas da Palestina: enfraquece posições moderadas e fortalece, com base no desespero, posições mais radicais que, por sua vez, são usadas para legitimar a continuidade dos massacres, da ocupação israelense e dos extremistas de ambos os lados.

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Raphael Tsavkko Garcia


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