Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

04/07/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Teatro do Mundo

A necessidade do teatro, a responsabilidade pública e o direito à cultura

Uma reflexão sobre o encontro, a escuta e a elaboração coletiva da vida

Publicado em 06/06/2026 11:11 - Fernando Lopes Lima

Divulgação Foto: apresentação da peça "A Vida é Sonho" na Casa do Dr.Gabi, Corumba MS. Acervo próprio.

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O dramaturgo e pensador francês Denis Guénoun defende uma ideia provocadora: o teatro não é apenas uma forma de entretenimento, mas uma necessidade social. Para ele, a reunião de pessoas em um mesmo espaço, compartilhando uma experiência ao vivo, produz algo raro em nossa época: a construção de uma comunidade temporária capaz de refletir sobre si mesma. O teatro não existe apenas porque há artistas; ele existe porque há uma necessidade humana de encontro, de escuta e de elaboração coletiva da vida.

SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAMFACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP

Em outra direção, mas também refletindo sobre a função social do teatro, o humorista e dramaturgo alemão Karl Valentin utilizava ironicamente a expressão “teatro obrigatório”. A provocação surgia da constatação de que muitas vezes os teatros permaneciam vazios. Sua ironia revelava uma contradição: se reconhecemos a importância da arte para a sociedade, por que tantas vezes ela é abandonada à própria sorte? O “teatro obrigatório” não era uma defesa literal da obrigação de assistir espetáculos, mas uma crítica à incapacidade social de compreender o valor da experiência artística.

Entre a necessidade defendida por Guénoun e a ironia de Valentin existe uma questão fundamental: se a cultura é um bem público, sua existência não pode depender exclusivamente das regras do mercado.

Uma praça não precisa dar lucro para existir. Uma biblioteca não precisa vender ingressos para justificar sua presença. Uma escola não precisa ser rentável para cumprir sua função social. Da mesma forma, um teatro, um centro cultural, um grupo artístico ou uma orquestra não podem ser avaliados apenas por sua capacidade de gerar receita financeira. Sua função principal é gerar riqueza simbólica, memória, identidade, pensamento crítico e pertencimento.

É nesse contexto que surgem as políticas públicas de cultura e as leis de incentivo cultural. Elas não representam privilégios para artistas. Representam o reconhecimento de que determinadas atividades são importantes demais para serem abandonadas à lógica do lucro imediato.

Manter um teatro aberto significa manter um espaço de encontro para a cidade. Significa oferecer às novas gerações a possibilidade de entrar em contato com diferentes formas de pensar o mundo. Significa garantir que artistas possam desenvolver pesquisas de longo prazo, sem a obrigação permanente de produzir apenas aquilo que vende mais.

Da mesma forma, a existência de grupos com sedes próprias é fundamental para a vida cultural. Um grupo que possui um espaço de trabalho não está apenas produzindo espetáculos. Está formando artistas, oferecendo oficinas, criando vínculos com a comunidade, preservando memória e construindo processos que muitas vezes levam anos para amadurecer. Quando um grupo perde sua sede, perde-se muito mais do que um endereço; perde-se uma parte do patrimônio cultural vivo de uma cidade.

Essa compreensão está presente em iniciativas como o programa *Cultura Viva*, desenvolvido pelo Ministério da Cultura, que reconhece e fortalece os Pontos e Pontões de Cultura espalhados pelo país. O programa parte de uma ideia simples e poderosa: a cultura já existe nos territórios. Ela está nos grupos de teatro, nos coletivos de música, nas bibliotecas comunitárias, nos mestres da cultura popular, nos cineclubes, nos grupos indígenas, quilombolas e periféricos. O papel do Estado não é criar cultura, mas garantir condições para que ela floresça.

Infelizmente, nas últimas décadas, uma parte da sociedade foi sendo levada a desconfiar da arte, da cultura e até mesmo da educação. Em muitos momentos, elas passaram a ser tratadas como gastos supérfluos, luxos dispensáveis ou espaços de disputa ideológica. Essa visão ignora que nenhuma sociedade se desenvolve apenas pela economia. Uma cidade sem cultura pode até crescer em números, mas empobrece em imaginação, em convivência e em capacidade de sonhar coletivamente.

Quando uma comunidade fecha um teatro, abandona um centro cultural ou deixa morrer um grupo artístico, não está apenas economizando recursos. Está reduzindo suas possibilidades de encontro. Está diminuindo os espaços onde as diferenças podem dialogar. Está enfraquecendo os mecanismos pelos quais uma sociedade pensa a si mesma.

Por isso, defender as leis de incentivo, os fundos públicos de cultura, os Pontos e Pontões de Cultura, as sedes de grupos artísticos e a manutenção dos teatros não é defender interesses corporativos. É defender a ideia de que a cultura é um direito de todos.

Talvez Guénoun tenha razão ao afirmar que o teatro é uma necessidade social. E talvez a ironia de Karl Valentin continue atual ao nos lembrar do absurdo que é construir teatros para depois deixá-los vazios. Entre uma ideia e outra está o desafio permanente das políticas culturais: garantir que os espaços existam, que os artistas possam criar e que a população tenha acesso à arte.

Porque uma sociedade que investe em cultura não está financiando apenas espetáculos. Está investindo na sua própria capacidade de imaginar futuros, preservar memórias e construir formas mais humanas de viver em conjunto.

SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON

FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

Email

Cia. Teatro do Mundo

Estação Cultural Teatro do Mundo

O Teatro dos Horrores

Leia outros artigos da coluna: Teatro do Mundo

Fernando Lopes Lima


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *