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Teatro do Mundo

Onde estão os sacerdotes?

Estou sentindo falta dos que têm propósito real para o mundo

Publicado em 20/06/2026 4:38 - Fernando Lopes Lima

Divulgação Semana On - IA

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Talvez uma das perguntas mais incômodas do nosso tempo seja esta: onde estão os sacerdotes? Não os religiosos apenas, mas aqueles que, em qualquer campo da vida, assumem o compromisso de guardar algo maior que si mesmos. Onde estão os artistas-sacerdotes, os educadores-sacerdotes, os intelectuais, os políticos, os trabalhadores capazes de sustentar um sentido coletivo para além do próprio espelho?

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Vivemos uma época estranha. Nunca houve tanto acesso à arte e, ao mesmo tempo, tantas vezes ela parece reduzida à decoração. A arte como cenário. Como evento. Como verniz cultural. Como penduricalho elegante de uma classe que consome experiências, mas evita ser atravessada por elas.

Há quem frequente exposições como quem visita uma vitrine; quem cite autores como quem exibe joias; quem fale de teatro, cinema, literatura ou música não para encontrar perguntas, mas para construir uma identidade sofisticada. Não se busca o encontro — busca-se distinção.

E o problema não está no entretenimento. O entretenimento sempre existiu e tem seu valor. O problema começa quando toda experiência precisa ser leve, rápida, agradável e incapaz de perturbar. Quando a arte deixa de ser risco e passa a ser conforto. Quando deixa de provocar deslocamento e vira confirmação.

Ao mesmo tempo, muitos artistas — e também muitos que ocupam esse lugar simbolicamente — parecem presos numa luta exaustiva pela sobrevivência institucional. Editais, pequenos espaços de reconhecimento, migalhas de prestígio, manutenção de nichos. Não porque sejam indignos, mas porque a precariedade empurra para isso. E, pouco a pouco, corre-se o risco de trocar horizonte por permanência. Já não se pergunta: “o que estamos tentando transformar?” Apenas: “como seguimos existindo mais um ano?”

Mas seria injusto apontar apenas para a arte.

Talvez este seja um sintoma mais amplo. Na política, vê-se frequentemente grupos que já não imaginam sociedade — apenas defendem territórios. Na economia, sucesso substitui contribuição. Na educação, formar para produzir parece mais urgente que formar para pensar. Na comunicação, atenção vale mais que profundidade.

Direita e esquerda, mercado e ativismo, tradição e inovação — todos podem cair na mesma armadilha: a substituição do propósito pelo pertencimento.

E então surge um vazio.

Porque o ser humano não vive apenas de conforto, consumo ou reconhecimento. Existe uma fome mais difícil de nomear: a necessidade de participar de algo que nos ultrapasse.

Por isso a pergunta permanece.

Onde estão os sacerdotes?

Onde estão aqueles capazes de criar sem pedir licença ao algoritmo? Os que ensinam sem fabricar consumidores? Os que fazem política sem transformar o mundo em torcida? Os que produzem arte não para ornamentar o colapso, mas para revelar que ele existe?

Talvez ainda estejam por aí — silenciosos, sem palco, sem glamour, sem selo de importância. Em pequenos teatros. Em escolas. Em grupos comunitários. Em oficinas. Em gente que continua fazendo porque acredita que a experiência humana pode ser ampliada.

Talvez o sacerdote contemporâneo não seja aquele que possui respostas.

Talvez seja aquele que ainda protege perguntas.

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FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

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