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Especial
Negro tem quatro vezes mais risco de ser morto pela polícia
Publicado em 04/07/2026 1:00 - Wanessa Celina – Agência Pública
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Entre as 4.330 vítimas da letalidade policial de 2025 em nove estados brasileiros, 3.104 eram negras, ou seja, 71,7%. O número total de vítimas é 6,4% maior na comparação com 2024, quando a violência policial causou 4.068 mortes no total. Os registros são do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Isso significa que, na média, pelo menos 8 pessoas negras foram mortas pela polícia nesses estados no ano passado.
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A faixa etária mais atingida, considerando a soma dos nove, é dos 18 aos 39 anos, com 79% do total, e concentração entre os 18 aos 29, com 57,6%. As vítimas são “em sua imensa maioria” do gênero masculino, segundo o relatório “Pele Alvo” elaborado pela Rede de Observatórios da Segurança. Um exemplo é o Estado do Amazonas que em 2025 registrou 100% de vítimas homens.
O relatório acompanha os mesmos estados desde 2019 e, segundo seus pesquisadores, não é possível falar em avanço. “Os dados mostram que não estamos diante de uma fatalidade ou de casos isolados. Ano após ano, a principal vítima da letalidade policial continua sendo a juventude negra das periferias. Se esse padrão se repete há sete edições do Pele Alvo, totalizando 28.799 mortes, fica evidente que ainda não existe uma política pública efetiva voltada para proteger essas vidas”, afirma Silvia Ramos, cientista social e diretora da Rede de Observatórios da Segurança.

Em 2025, 312 crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos de idade foram atingidos pela violência policial nos estados monitorados pelo estudo. Duas delas, no Rio de Janeiro, tinham entre 0 e 12 anos. O número aponta um crescimento de mortes entre crianças e jovens, uma vez que em 2024 o total foi de 298 vítimas, uma entre 0 e 12 anos, também atingida por operação policial no Rio de Janeiro.
“Chamamos atenção para a perversidade com que o Estado, da forma mais diretamente violenta, tem incidido sobre as juventudes negras periféricas. Quando colocamos em perspectiva a definição de “mortes decorrentes da intervenção policial” — casos em que civis morrem em confrontos com policiais — e há duas vítimas de 0 a 11 anos registradas, por exemplo, constatamos que o modelo de segurança, o contexto em que essas mortes são orquestradas, como são encaradas e investigadas, precisam urgentemente de uma mudança efetiva”, afirma o relatório assinado pela rede que reúne diversas entidades de pesquisa em segurança pública.

Em números absolutos, a Bahia teve o maior número de mortes em 2025, 1.243, mais de três vítimas negras da violência policial por dia. Na sequência estão o Rio de Janeiro, com 588 mortes, o Pará, com 516 e São Paulo, 499 vítimas. A taxa de crescimento, na comparação com 2014, foi maior no Maranhão, que passou de 14 mortes em 2024, para 59 no ano passado. Nos estados em que a taxa caiu, os números seguem altos. A Bahia, por exemplo, registrou 1.298 vítimas em 2024, ou seja, ocorreu uma diminuição nas mortes.

Cresce o número de vítimas jovens na Bahia e no Rio de Janeiro
A Bahia também foi o estado que apresentou o maior aumento de mortes entre pessoas negras de 18 a 29 anos. Em seguida, vem o Rio de Janeiro, com 409 mortes em 2025, superando as 363 mortes em 2024. Outros que tiveram aumentos nessa faixa etária foram Maranhão, Pernambuco, e São Paulo.

A diferença de como a violência policial afeta pessoas negras, idependente da idade, é evidenciada no relatório pela diferença entre a proporção de negros que foram mortos pela polícia em 2025 e o número de pessoas negras na população geral. O Rio de Janeiro é o estado, entre os monitorados pelo estudo, onde essa diferença entre vítimas (88,55%) e população (57,8%) é maior, com uma diferença de praticamente 31 pontos percentuais. Na sequência vem Pernambuco, com 94,4% das vítimas negras e 65,3% da população, uma diferença de 29 p.p.

“Com base nas taxas de mortes decorrentes de intervenção policial por 100 mil habitantes, calculadas separadamente para a população negra e branca, observou-se que, na média dos estados monitorados, pessoas negras sofrem quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que as pessoas brancas”, destaca o relatório.
Negro tem quatro vezes mais risco de ser morto pela polícia
Uma análise dos dados de letalidade policial de 2025 em nove estados mostra que pessoas negras sofrem quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que as pessoas brancas.
A sétima edição do relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, estudo feito pela Rede de Observatórios da Segurança aponta aumento de 6,4% na letalidade policial (4.330 mortes somadas nos nove estados monitorados) em relação ao ano anterior.
Do total, 86,3% (3.104 pessoas) eram negras. Em sua maioria, são jovens de até 29 anos (64,8%), do sexo masculino e vivem em periferias e favelas. Os números são repassados via Lei de Acesso à Informação pelas secretarias de segurança de nove estados: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
Ainda que escancare a centralidade do racismo estrutural na atuação das forças estatais, conclusão de as todas as sete edições do “Pele Alvo”, o monitoramento esbarra na opacidade dos dados fornecidos pelas secretarias de segurança pública.
Estados se habituaram a usar a categoria “não informado” para ocultar o perfil racial de mais da metade das vítimas. Quando o Maranhão passou a informar melhor, o perfil a proporção de negros mortos disparou 22 pontos percentuais no estado. No Ceará, a alta foi de 8 pontos.
Quatro estados registraram o maior número de mortes de suas séries históricas desde 2019: Ceará (200), Maranhão (142), Pará (632) e São Paulo (834).
O Piauí é o único estado monitorado a apresentar redução da letalidade policial, com queda de 16,7% em relação ao ano anterior. Em sete anos, o número de vítimas caiu 52,4%, atingindo o menor patamar da série histórica.
Mesmo com a redução, a desigualdade racial permanece: as pessoas negras representam 77,1% da população do estado, mas correspondem a 85% das vítimas.
Das 43 mortes decorrentes de intervenção policial registradas pelo Amazonas em 2025, exatamente o número do ano anterior, 96% eram negros, a maior proporção entre todos os estados monitorados.
No estado onde 12,5% da população se autodeclara indígena, não há reconhecimento oficial de vítimas indígenas.
No Amazonas, houve interiorização da violência policial. As mortes se espalharam de 10 para 16 municípios, e o interior passou a concentrar 63% dos casos, enquanto a capital Manaus respondeu por 37% das vítimas.
O município de Coari, sozinho, concentrou 16,3% das mortes do estado, embora reúna apenas 1,6% da população. A Polícia Militar foi responsável por 75% das ocorrências.
Estado com o maior número de mortos pela polícia em sete anos, com um total de 8.743, a Bahia tem a letalidade concentrada em algumas regiões. Entre os 417 municípios, 12 acumulam metade das vítimas.
A população negra compõe 79,7% dos habitantes da Bahia, mas representa 93,9% das vítimas da letalidade policial.
O estado do Ceará atingiu o maior número de mortes de sua série histórica desde 2019: 200 vítimas em 2025. De 2019 a 2025, houve crescimento de 47% na letalidade. Pessoas negras representaram 87% dos mortos.
Em 2025, o Maranhão registrou 142 mortes, maior número de sua série histórica, aumento de 87% em um ano —em 2015 o estado anotou 53 casos. Pessoas negras representam 92% das vítimas identificadas, acima de proporção (79%) na população do estado.
Em 2025, ano em que a capital do Pará sediou a COP30, a letalidade policial cresceu, concentrada na Região Metropolitana de Belém, Ananindeua e Marituba. A Polícia Militar foi responsável por 90% das mortes.
A população negra no Maranhão representa 80% do total,, mas soma mais de 93% dos mortos pela polícia. É a segunda maior taxa de letalidade policial contra pessoas negras entre os estados monitorados, sendo 8 por 100 mil habitantes.
As mortes decorrentes de intervenção policial cresceram 31% em relação a 2025. Em sete anos, houve crescimento de 20% no período.
Pessoas negras (65,3% da população) foram quase todos os mortos pela polícia: 94%. Em Pernambuco, negros correm 11 vezes mais risco de serem mortos pela polícia do que outros grupos. Quase 72% das vítimas tinham até 29 anos.
Tendo a Operação Contenção, realizada nos Complexos da Penha e do Alemão em outubro de 2025 como símbolo, o Rio de Janeiro contabilizou 800 mortes provocadas por agentes públicos de segurança, incluindo duas vítimas com idade entre 0 e 11 anos.
É um aumento de 14% em relação ao ano anterior e acumulando 8.119 vítimas em sete anos de monitoramento. As mortes ocorreram sobretudo na capital (56%).
No Rio, pessoas negras são 58% da população, mas correspondem a 90% dos mortos pela polícia. A taxa de letalidade foi de 6,3 mortes por 100 mil habitantes negros, contra 1,1 entre brancos, o que representa risco seis vezes maior de uma pessoa negra ser morta.
Ao passo que ferramentas de monitoramento, como o Smart Sampa, são utilizadas para reforçar indicadores de produtividade e prisões, as transmissões de câmeras corporais do programa Olho Vivo são frequentemente interrompidas em momentos decisivos, contrariando determinações do Supremo Tribunal Federal (STF).
Adoção das câmeras demonstrou ser capaz de reduzir a letalidade policial, já que as mortes caíram de 814, em 2020, para 419, em 2022, mas voltaram a crescer, até atingir o recorde atual de 834 mortes registradas em 2025, uma alta de 2,7% em relação ao ano anterior.
Foram 4.774 mortes em sete anos. O aumento ocorreu em contexto de queda de crimes relevantes, como furtos, roubos e latrocínios, refletindo escolhas na condução da política de segurança pública. A capital registrou 31% das ocorrências.
Pessoas negras representam 41% da população paulista, mas correspondem a 65% das vítimas fatais da ação policial.
A Rede de Observatórios é uma iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC). Integram a Rede o Coletivo de Pesquisa e Extensão ILHARGAS, do Amazonas; a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política de Drogas, da Bahia; o Laboratório de Estudos da Violência (LEV), do Ceará; a Rede de Estudos Periféricos (REP), do Maranhão; o Grupo de Pesquisa Mãe Crioula, do Pará; o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), de Pernambuco; o Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (NUPEC), do Piauí; e o Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP), de São Paulo.
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