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Teatro do Mundo
Entre métodos, tradições e experiências cênicas, o teatro revela que nenhuma escola possui o monopólio da verdade
Publicado em 13/06/2026 4:09 - Fernando Lopes Lima
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Confesso que, em pleno século XXI, ainda me incomoda ouvir alguém afirmar que existe uma forma “certa” e outra “errada” de atuar. Não porque o estudo não seja importante. Pelo contrário. O teatro exige dedicação, pesquisa, técnica, escuta e trabalho constante. Mas uma coisa é estudar teatro; outra, muito diferente, é transformar determinados métodos em régua universal para medir todas as experiências teatrais do mundo.
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A história do teatro é, justamente, a história da invenção permanente de novas formas de presença, de representação e de relação com o público. Se existisse uma única maneira correta de atuar, não teríamos assistido ao surgimento de tantas linguagens distintas ao longo dos séculos. Não existiriam os atores épicos de Bertolt Brecht, os experimentos de Antonin Artaud, os trabalhos físicos de Jerzy Grotowski, os palhaços de circo, os brincantes populares, os performers contemporâneos, os mestres das tradições orientais ou os incontáveis artistas anônimos que criaram suas próprias formas de expressão em comunidades espalhadas pelo planeta.
Quando alguém afirma que uma atuação está “errada” porque não corresponde aos parâmetros de determinada escola, geralmente está confundindo gosto pessoal, formação específica ou tradição cultural com verdade absoluta. O problema é que essa lógica frequentemente reproduz mecanismos de colonização estética. Durante muito tempo, o Ocidente apresentou seus modelos artísticos como superiores, enquanto desqualificava saberes ancestrais, rituais indígenas, manifestações africanas e outras formas de criação coletiva que não cabiam em seus critérios acadêmicos.
Mas o teatro não nasceu numa universidade. O teatro é mais antigo que qualquer método. Ele está nos ritos de passagem, nas celebrações da colheita, nos cantos xamânicos, nas festas populares, nos cortejos, nas máscaras, nos terreiros, nos mitos contados ao redor do fogo. Há teatralidade em sociedades que jamais ouviram falar de interpretação psicológica ou de construção de personagem nos moldes europeus.
Talvez um dos desafios mais importantes do nosso tempo seja justamente ampliar a escuta. Reconhecer que existem muitas formas de presença cênica e que nenhuma delas possui o monopólio da verdade artística. Isso não significa abandonar a crítica ou afirmar que tudo tem a mesma potência. Significa compreender que os critérios de análise precisam nascer do encontro com cada linguagem, e não da imposição de uma única régua sobre todas elas.
O teatro é revolucionário porque resiste às classificações definitivas. Ele permite que cada pessoa invente seu corpo, sua voz, sua relação com a cena e com o mundo. Permite que comunidades inteiras afirmem suas identidades por meio da arte. Permite que tradições silenciadas voltem a falar.
Descolonizar o teatro não é rejeitar o conhecimento acumulado pelos grandes mestres. É colocá-lo ao lado de outros saberes, em pé de igualdade. É entender que o palco não pertence a uma escola, a uma classe social ou a uma cultura específica. Pertence à humanidade.
Por isso, antes de perguntar se uma atuação está “certa” ou “errada”, talvez seja mais interessante perguntar: o que essa atuação produz? Que mundo ela revela? Que experiência ela provoca? Que linguagem ela está tentando construir?
São perguntas muito mais férteis para uma arte que, felizmente, continua sendo um território de liberdade, invenção e transformação.
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FERNANDO LOPES LIMA
É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.
Estação Cultural Teatro do Mundo
A necessidade do teatro, a responsabilidade pública e o direito à cultura
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