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Teatro do Mundo

O Teatro dos Horrores

A política sequestrada pela lógica do espetáculo

Publicado em 30/05/2026 1:39 - Fernando Lopes Lima

Divulgação Semana On - IA

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Vivemos um tempo estranho: a política, que deveria ser a arte de organizar a vida coletiva, foi sequestrada pela lógica do espetáculo. O debate público virou algoritmo. E o algoritmo não recompensa serenidade, profundidade ou escuta — recompensa choque, medo, raiva e humilhação pública.

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Na corrida presidencial, muitas vezes parece mais importante ganhar curtidas do que conquistar consciência. Um vídeo agressivo circula mais do que uma proposta de educação. Uma frase violenta engaja mais do que um plano de saúde pública. A indignação instantânea vale mais que qualquer projeto de país.

A consequência disso é devastadora: os adversários deixam de ser vistos como pessoas com ideias diferentes e passam a ser tratados como inimigos absolutos. A democracia vai se tornando uma guerra emocional permanente. E numa guerra permanente ninguém governa de fato — apenas mobiliza torcidas.

A política então perde sua dimensão mais essencial: pensar o comum.

Quem pensa a cidade?

Quem pensa o transporte, os teatros, os rios, as escolas, os idosos, as crianças?

Quem pensa o direito de existir sem medo?

Quando tudo vira disputa moral e performance digital, governar deixa de ser construir futuro e passa a ser administrar ressentimentos.

Nesse cenário, grupos vulneráveis acabam virando alvo simbólico. Leis sobre corpos, banheiros, identidades e comportamentos passam a ocupar o centro do debate não porque resolvam os grandes problemas nacionais, mas porque produzem reação emocional imediata. O corpo do outro vira campo de batalha eleitoral.

Quando uma sociedade começa a discutir quem pode existir em paz, ela já está adoecendo.

Uma mulher trans impedida de usar um banheiro feminino não recebe apenas uma proibição prática; recebe uma mensagem pública: “sua existência será permanentemente vigiada”. E isso vale para muitas outras minorias. O problema não é apenas jurídico — é humano. É o desaparecimento gradual da capacidade de se colocar no lugar do outro.

Uma sociedade saudável depende justamente dessa capacidade imaginativa: perceber que a liberdade que eu desejo para mim precisa existir também para quem vive diferente de mim.

Mas liberdade não é ausência de limites. E também não é o direito de destruir o outro. Uma sociedade verdadeiramente livre talvez seja aquela onde:

* ninguém precise viver com medo de existir;

* diferenças não sejam transformadas em ameaça;

* o debate político não exija a desumanização do adversário;

* a educação forme pensamento crítico, e não apenas consumidores de opinião;

* a arte tenha espaço, porque a arte complexifica o ser humano;

* o cuidado coletivo seja entendido como riqueza, não como fraqueza;

* a verdade tenha mais valor que a viralização;

* e onde a dignidade humana venha antes do engajamento.

Uma cultura saudável não é aquela em que todos concordam. É aquela em que as divergências não destroem a possibilidade de convivência.

Talvez o grande desafio do nosso tempo seja reaprender a escutar. Recuperar a política como espaço de elaboração da vida comum — e não como um ringue infinito de humilhação pública.

Porque quando tudo vira espetáculo, o horror deixa de chocar. E isso talvez seja o mais perigoso de tudo.

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FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

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