22/05/2024 - Edição 540

Brasil

Negar o nazismo como um movimento de extrema direita é desonestidade ou ignorância, diz chefe da missão diplomática alemã no Brasil

Publicado em 20/09/2018 12:00 -

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O embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, disse que ficou surpreso com a repercussão do vídeo que explica como os alemães lidam com o passado. A peça, que foi publicada na conta da missão diplomática no Facebook há duas semanas, foi alvo de ataques de alguns militantes de direita que não gostaram do conteúdo. 

Tudo porque o vídeo classifica o nazismo como uma ideologia de extrema direita. Para esses internautas – alguns manifestam apoio ao candidato Jair Bolsonaro (PSL) em seus perfis – o movimento liderado por Adolf Hitler era de esquerda. Outros foram até mais longe e publicaram comentários negando o Holocausto. 

Segundo Witschel, que chefia a missão alemã em Brasília desde setembro de 2016, essa reação pode ser explicada por ignorância ou simplesmente desonestidade. 

"Há muitas pessoas que não sabem muito sobre o nazismo. E nós queremos informar. Uma pessoa informada vai fazer de tudo para evitar uma volta do nazismo. Mas parece que há outros que têm um interesse político de reinterpretar o nazismo para encaixá-lo de acordo com seus objetivos imediatos. Esses grupos políticos fazem tentativas desonestas de mover a responsabilidade do Holocausto para o colo de outros", disse.

Witschel também aponta que essa discussão é inexistente em círculos sérios na Alemanha. "Nunca ouvi uma voz séria na Alemanha argumentando que o nacional-socialismo foi um movimento de esquerda", disse. "Não faz sentido jogar a culpa e a responsabilidade do Holocausto em uma determinada tendência política. Foram os nazistas. Com certeza não foram os socialistas", afirmou, lembrando ainda que membros de partidos de esquerda, como os social-democratas e os comunistas, estavam entre as primeiras vítimas do regime.

Ele também comentou que "foi uma surpresa que, mesmo no Brasil, haja pessoas que neguem o Holocausto e que falem do movimento nazista como se ele fosse de esquerda".

"O Holocausto é simplesmente um fato. Quem não acredita deveria visitar algum campo de concentração. É um fato histórico e basta." O embaixador também disse que ficou especialmente chocado com a expressão "holofraude" em um comentário negacionista feito por usuário no post do vídeo. "Esse termo foi terrível. E esse argumento sem base histórica de que o nazismo foi um movimento de esquerda não tem bases honestas, mas objetivos desonestos", completou. 

Entre algumas páginas e círculos de direita brasileiros têm sido comum, nos últimos anos, tentar classificar o nazismo como um "movimento de esquerda". O principal argumento para defender essa tese leva em conta a presença do termo "socialista" no nome do partido. O nome oficial da agremiação nazista era Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP. O próprio filho de Jair Bolsonaro, o deputado Eduardo, afirmou em 2016 no Twitter que o "nazismo é esquerda" e usou o argumento sobre a presença da palavra "socialista" no nome do partido. 

Só que historiadores renomados de Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos consideram o nazismo um movimento de extrema direita, de caráter nacionalista, que defendia uma visão radical de darwinismo social, em que os alemães – ou os membros da raça ariana – deveriam subjugar raças consideradas inferiores. Suas origens imediatas são traçadas na ação de grupos paramilitares de direita formados por ex-militares após a derrota do país na Primeira Guerra Mundial, em sociedades secretas antissemitas e ideias perversas sobre racismo biológico e imperialismo em voga na Alemanha do pós-guerra.

Já a inclusão da palavra "socialista" no nome é encarada como uma estratégia política para atrair as classes trabalhadoras da Alemanha, que à época gravitavam em torno dos partidos social-democrata e comunista, e também para diferenciar os nazistas dos partidos de direita tradicionais. Na história alemã, não era incomum que políticos conservadores ou da direita adotassem alguns poucos elementos socialistas como estratégia de poder. "Hitler nunca foi socialista", apontou o historiador britânico Ian Kershaw na sua monumental biografia do líder nazista.

O próprio Hitler afirmou em uma entrevista em 1923 que pretendia retirar da esquerda o termo socialismo e ressignificá-lo. Segundo Hitler, o socialismo era uma antiga "instituição ariana". Essa distorção das palavras para fins políticos também é comum na história alemã. A antiga Alemanha Oriental comunista (1949-1990), que era governada por um regime ditatorial, tinha como nome oficial "República Democrática Alemã". 

O embaixador Witschel recordou ainda que o partido nazista, em suas origens, contou com diversas alas conflitantes, com alguns elementos que defendiam ideias social-revolucionárias. Entre as figuras que advogavam essa ideia estava o militante Gregor Strasser. Mas ele foi expulso do partido em 1932 e posteriormente assassinado em 1934 por ordem de Hitler, que identificava as ideias de Strasser como uma forma disfarçada de marxismo. Historiadores se referem a essa corrente obscura do início do nazismo como "strasserismo". 

"Essa ala social-revolucionária nunca passou de uma corrente minoritária. E a partir de 1934, com o assassinato de seus membros, o nazismo não tinha mais qualquer minoria socialista. E é preciso lembrar que, a partir de 1933, os partidos social-democrata e comunista foram proibidos, e seus membros foram para campos de concentração ou assassinados", disse. 

Ainda segundo Witschel, a publicação do vídeo pela embaixada não teve nada a ver com ação de grupos brasileiros que propagandeiam a ideia do "nazismo de esquerda". Ele diz que a missão já planejava há tempos divulgar um vídeo sobre a cultura da lembrança. A publicação também foi influenciada pelos recentes eventos xenófobos em Chemnitz, no leste da Alemanha, que vem sendo palco regular de protestos organizados por grupos populistas e de extrema direita.

"Como representantes diplomáticos, somos absolutamente neutros na campanha eleitoral brasileira. O que nós fazemos é informar sobre nossa história e nossa cultura da lembrança. Não queremos tomar um ou outro lado na discussão eleitoral. Só queremos dizer que o Holocausto é um fato – e que não deve se repetir", disse.

Por fim, o embaixador afirmou que, apesar de algumas reações negativas, a embaixada encarou a divulgação em massa do vídeo como uma "surpresa positiva". "Para nós é importante um interesse tão alto. Esse resultado possibilitou para muitos brasileiros conhecer um pouco mais da história alemã, incluindo essa fase terrível do nazismo, da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto", comentou.

Na tarde desta quinta-feira (18/09), o vídeo da embaixada já contava com mais de 800 mil visualizações vezes e tinha mais de 1.700 comentários. O Consulado-Geral da Alemanha no Recife também publicou a peça, e a reação foi similar. Após a repercussão, a maior parte dos comentários passaram a ser feitos por brasileiros que mostraram repúdio às declarações dos militantes de direita. "Querem ensinar o padre a rezar a missa", disse um usuário. "Todo dia um a 7 a 1 diferente", disse outro. Vários pediram "desculpas" à embaixada da Alemanha pelo comportamento de alguns de seus compatriotas. 


Vergonha alheia em alemão

Uma palavra sintetiza a aula sobre nazismo que um grupo de brasileiros tentou dar aos próprios alemães na Internet: fremdschämen (vergonha alheia).

"Devemos nos opor aos extremistas de direita, não devemos ignorar, temos que mostrar nossa cara contra neonazistas e antissemitas", afirma no vídeo Heiko Mass, ministro das Relações Exteriores.

Muitos internautas contestaram o ministro: "Extremistas de direita? O partido de Hitler não se chamava Partido dos Trabalhadores Socialistas? Onde tem extrema direita?", perguntou um internauta, em relação ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), que ficou ativo no país entre 1920 e 1945. O partido de Hitler misturava uma cultura paramilitar racista, populista, antissemita e anti-marxista, algo como "contra tudo o que está aí" e " ou pelos verdadeiros alemães "de bem".

Houve quem tentasse explicar onde estava o erro da embaixada: "Não é só pelo nome do partido. É uma concentração de poder no Estado. Setores hegemônicos da esquerda (comunismo/socialismo) acreditam em poder centralizado no governo para a construção de uma sociedade melhor. A direita acredita na descentralização desse poder, por isso advoga um poder maior ao indivíduo e não ao coletivo (…)". Isto é, como Hitler centralizava o poder, logo, ele não poderia ser de direita, segundo esse internauta.

Enquanto alguns tentavam ver o lado positivo da iniciativa e marcavam amigos para tentar provar que o nazismo é, sim, de direita – "(…) se o Consulado alemão explicando que o nazismo é de extrema direita não te convencer, não sei o que mais poderá", escreveu um internauta. Outros até ameaçaram a embaixada: "[Vocês] perderam uma enorme chance de ficar de boca fechada. Mas não se preocupem. Estou compartilhando este post na Alemanha. Vamos ver o que irão dizer!"

Damaris Jenner, responsável para assuntos de imprensa na embaixada, explica que a ideia era falar sobre como se ensina história na Alemanha. “Na semana em que pensamos em fazer esse vídeo, aconteceram as manifestações em Chemnitz e vários jornais brasileiros noticiaram”, diz ela. Os protestos foram realizados por militantes da extrema direita desde o final de agosto contra a morte de um alemão, supostamente esfaqueado por dois imigrantes, e que terminaram em atos de violência.

“Achamos que seria interessante ligar esses dois assuntos para mostrar essa discussão na Alemanha”, afirma Jenner. Mas a reação dos internautas surpreendeu. “Não imaginávamos que repercutiria dessa forma”, diz. “Nosso vídeos costumam ser bem assistidos, mas esse foi excepcional”. Até o fechamento desta reportagem, o vídeo tinha mais de 630.000 visualizações na página da embaixada. Jenner diz que, além da audiência alta, fez diferença o engajamento dos usuários. "Geralmente tem menos debate”, diz. Ela afirma que alguns comentários foram respondidos “de forma cordial” pela própria embaixada ou pelos consulados que replicaram o vídeo, mas que em muitos casos os próprios usuários responderam uns aos outros.

Apesar da polêmica e de alguns comentários pouco cordiais de usuários, a embaixada não pretende retirar do ar a publicação. “Isso é um assunto importante em muitos países atualmente”, diz Jenner, sobre a temática levantada pelo vídeo. “Mas as reações daqui são devido a situação política do Brasil”, afirma. Desde as jornadas de junho de 2013, o país vive um clima acirrado de polarização política. Grupos alinhados ao pensamento da direita se uniram em torno do impeachment da petista Dilma Rousseff. Enquanto grupos de esquerda acusavam os adversários de golpe. Neste cenário, a defesa falaciosa de que o nazismo seria um movimento de esquerda se tornou comum entre militantes da direita nas redes sociais.

Na escola, os alemães começam a aprender sobre o nazismo quando têm entre 13 anos e 15 anos. E no Brasil também. "Os alunos da rede pública estudam este tema em História em dois momentos do ciclo básico: no nono ano do ciclo fundamental e no terceiro ano do ensino médio", afirma o professor de história da rede pública de São Paulo Danilo Oliveira. A diferença é que, enquanto na Alemanha a história do Terceiro Reich está nas ruas, no turismo e nas memórias das famílias, no Brasil, as lembranças do passado de influência nazista vão sendo apagadas pelo desinteresse sobre o tema.

É o que aconteceu com a Fazenda Cruzeiro do Sul, em Paranapanema, interior do Estado, onde funcionou na década de 1930 uma colônia nazista. A história da fazenda ganhou destaque a partir do trabalho do historiador Sydney Aguilar que descobriu como 50 meninos órfãos do Rio de Janeiro foram escravizados por dez anos a ponto de terem sido privados até mesmo de seu nome, eles só ganhavam números. Essa história foi contada no filme Menino 23, lançado em 2016. O prédio da sede, construído com tijolos com o desenho da suástica, já não existe mais. O proprietário começou a demolir a estrutura em 2012, e terminou em 2016. E só restou à Procuradoria Geral do Estado processar o dono.

O professor Oliveira admite que o nível de informação dos brasileiros sobre grandes temas da humanidade, como o nazismo, pode piorar nos próximos anos. Isso porque a diferença entre as ideologias de direita e esquerda são mais aprofundadas nas disciplinas de história e sociologia no ensino médio, que deixarão de ser obrigatórias se a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para esta etapa de estudos for aprovada. Por enquanto, como disse um internauta, "brasileiros questionando a embaixada alemã sobre nazismo é 8 a 1 para Alemanha". Mas pelo andar das coisas, esse placar ainda tem potencial para crescer muito.

Defensores de Bolsonaro

Os seguidores de Jair Bolsonaro há muito tempo defendem a “tese” de que o nazismo era um movimento de esquerda. O candidato à presidência já chegou a defender Hitler como um "grande estrategista" que lutou "em defesa de seu povo", em quadro do programa humorístico CQC. Em suas redes sociais, Eduardo Bolsonaro, filho do presidenciável e candidato à reeleição como deputado federal, afirmou que "o nazismo não é de direita, mas sim de esquerda".

"O nazismo jamais poderia ser considerado de Direita, pois para isso precisaria ser a favor do liberalismo econômico, do capitalismo e do Estado reduzido,e isso nunca aconteceu", escreveu o candidato.

Adolfo Sachisida, pesquisador do Ipea e ex-conselheiro econômico de Bolsonaro, gravou um vídeo em que seguiu a mesma linha.

Em 2016, afirmou em seu canal no Youtube que é  de esquerda quem prioriza o Estado em detrimento do indivíduo, a função social da propriedade em oposição à propriedade privada e o controle estatal de preços em lugar do livre mercado.

Assim, o pesquisador entende que Hitler, por defender a imposição do Estado sobre a economia, seria de esquerda. Para sustentar sua tese, o pesquisador recorre a uma comparação entre o PT e a legenda alemã. "O PT é a sigla do Partido dos Trabalhadores. Da mesma maneira, o partido nazista era uma sigla: Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães."

É uma confusão comum tentar associar a direita apenas ao liberalismo econômico e apressadamente atribuir a um governo estatizante um viés de esquerda. Ocorre, porém, que o liberalismo econômico da direita vivia grande crise após a quebra da Bolsa de 1929. Regimes como os de Benito Mussolini, na Itália, e Hitler buscavam combater a desordem deixada pela crise econômica, mas também eram profundamente anticomunistas em seus discursos.

A perseguição aos comunistas e socialistas quando Hitler chegou ao poder e a tentativa de associar o judaísmo ao marxismo feita pelo nazismo deveria ser prova suficiente de como aquilo que o o ex-líder alemão menos queria era ser associado à esquerda de sua época.

Associar os conceitos de "direita" e "esquerda" dos anos 1930 e 1940 ao seu significado atual é o que os historiadores chamam de anacronismo, ou seja, analisar um fato histórico a partir do presente, e não com base nas condições históricas dos atores sociais.


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