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Poder

Seleção brasileira: entre protestos e o passado de glórias

Publicado em 06/06/2014 12:00 -

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O país que mais coleciona títulos. Nunca ganhou um mundial jogando em casa. O mundo espera ver o Brasil vencer com estilo, jogando bonito. Muita pressão. Mais pressão ainda tem vindo das ruas, canalizando nos jogadores as frustrações com os gastos públicos excessivos com o torneio.

Na manhã da última terça-feira (3), horas antes do amistoso da seleção contra o Panamá, em Goiânia, manifestantes foram retirados à força da frente do hotel onde estava o time. Eles cobravam mais investimentos em educação. O protesto continuou horas depois, em frente ao estádio Serra Dourada.

No início da semana passada, a seleção se apresentou em meio a um clima de tumulto e protestos no Rio de Janeiro. Ao contrário de Copas anteriores, quando os jogadores eram recepcionados por torcedores eufóricos, o que se via em frente ao aeroporto internacional do Galeão eram faixas pedindo mais investimentos em serviços públicos.

Para o jornalista Juca Kfouri, o Brasil terá duas Copas do Mundo. "Uma dentro dos estádios e que será uma grande festa. E a Copa das ruas, que será tensa. O governo deverá estar mais preparado para controlar as manifestações do que há um ano, quando foi pego de surpresa. Mas, de qualquer jeito, vai ter protesto", avalia.

Para o jornalista Juca Kfouri, o Brasil terá duas Copas do Mundo. "Uma dentro dos estádios e que será uma grande festa.

Ainda para Kfouri, as manifestações populares revelam uma mudança no comportamento do brasileiro, tradicionalmente mais apegado ao futebol do que à política. "Brasileiros reclamam muito mais sobre seus times do que sobre seus políticos. E esta foi a grande revelação da Copa das Confederações, quando os manifestantes tomaram as ruas. Os protestos simbolizam um despertar de consciência que estava enterrado por causa dos anos de ditadura", afirma.

Mas a até que ponto o clima tenso das ruas pode aumentar ainda mais a cobrança sobre os jogadores e afetar seu desempenho dentro de campo?

Para Tim Vickery, especialista da BBC em futebol da América do Sul, a resposta pode estar no que aconteceu durante a Copa das Confederações, quando temia-se que os torcedores ficariam contra o time. "Ao contrário, o que vimos foi um laço muito forte entre jogadores e torcedores. Aquele momento (na final contra a Espanha) quando os torcedores continuaram cantando o hino à capela e os jogadores acompanharam até o final foi muito forte", relembra.

Ficamos mais fortes

O zagueiro da seleção David Luiz define aqueles dias como um momento que aproximou o jogadores do povo. "Ficamos mais fortes", disse ele.

O jogador descarta que os protestos contra a Copa vão afetar a preparação psicológica da Seleção e faz elogios à forma como o técnico Luiz Felipe Scolari trabalha o emocional dos jogadores. "Ele é muito transparente, sabe como falar com a gente e cria um clima bom na equipe, o melhor que eu já vivi como jogador", diz Luiz. "Mas é claro que tem pressão, mas é uma pressão boa, aquela que faz a gente se sentir vivo."

Para Kfouri, Felipão é um "líder-psicólogo" com habilidades que ajudam o time a lidar com cobranças de todos os lados. Exemplo disso, diz ele, é o apelido do time: "Família Scolari".

"Ele faz os jogadores morrerem por ele em uma partida. E, para isso, é capaz de sacrificar talentos, como fez com Romário em 2002, porque ele não seguia isso. Romário era o diferente, e Scolari não queria alguém diferente. Queria um grupo homogêneo capaz de morrer por ele".

Scolari, que conta com o aconselhamento da psicóloga esportiva Regina Brandão desde a Copa de 2002, promove palestras de motivação para os jogadores.

Oscar, camisa 11 da seleção e meia do Chelsea, contou à BBC que, durante as Confederações, o técnico trouxe ex-jogadores e ex-técnicos – entre os quais Evaristo de Macedo e Ricardo Rocha – para conversar com a Seleção. "Eles nos diziam que a gente não era alvo dos protestos e que a paixão pelo futebol unia todos para torcer pela Seleção", relembra.

Fardo da beleza

Para o antropólogo e escritor Roberto DaMatta, o "fardo sobre os jogadores é incrível" porque eles carregam o Brasil nas costas, com todas suas esperanças e expectativas. "O futebol se tornou um símbolo dos conflitos cotidianos que os brasileiros enfrentam na vida. O campo de futebol é um palco de muitos dramas", compara DaMatta.

Segundo ele, o futebol é o esporte que mais une a nação, porque, apesar de ter sido "roubado" dos ingleses, os brasileiros são os "mestres" do esporte. E essa sensação de estar no topo faz os brasileiros se sentirem como parte do "Primeiro Mundo", algo que eleva a autoestima do povo.

O jornalista e historiador Celso Unzelte concorda. Para ele, o futebol simboliza a única atividade em que os brasileiros realmente se sentem capazes de vencer.

E mais do que isso: de vencer dando um espetáculo em campo. "Somos cobrados por isso como nenhum outro país", afirma Unzelte, enquanto guia a equipe de reportagem em uma visita ao Museu do Futebol, em São Paulo.

Mas, para ele, o futebol atual oferece cada vez menos espaço para o jogo bonito, o que aumenta ainda mais a cobrança sobre a Seleção atual. "A pressão é enorme, mas é a pressão sobre o único país do mundo que ganhou jogando futebol-arte várias vezes", diz. "É o fardo da beleza, de ter tido jogadores como Pelé, Seleções como as de 58 e 70 e de quase ter atingido a perfeição. Agora, sentimos a obrigação de buscá-la indefinidamente."


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