22/05/2024 - Edição 540

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Facebook derruba rede de fake news usada pelo MBL

Publicado em 27/07/2018 12:00 -

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O Facebook retirou do ar uma série de páginas e usuários que eram usados pelo movimento Movimento Brasil Livre (MBL) para disseminar conteúdo que incluia notícias falsas, como os perfis Jornalivre, Brasil 200 e O Diário Nacional. De acordo com a empresa, 196 páginas e 87 contas foram removidas com base no código de autenticidade da rede, porque "escondiam das pessoas a natureza e origem de seu conteúdo" e tinham o propósito de gerar "divisão e espalhar desinformação".

Essa não é a primeira ação da rede contra o MBL. O Facebook já havia derrubado um aplicativo utilizado pelo movimento para disparar conteúdo automaticamente em centenas de páginas, mas essa foi a primeira vez que uma ação desse tamanho ocorreu no Brasil.

De com acordo com o Facebook a ação é parte de uma série de esforços da empresa para reprimir perfis enganosos antes das eleições de outubro. Como revelado pela Reuters, a rede de páginas era administrada por membros importantes do MBL, movimento que ganhou destaque por liderar protestos em 2016 a favor do impeachment da então presidente Dilma Rousseff com um estilo agressivo de política online que ajudou a polarizar o debate no Brasil.

“A minha hipótese é que, diferente de 2014, o ecossistema de páginas com viés político partidário hoje é muito maior. Será uma eleição em que as páginas também têm como característica não só o discurso ideológico, o que não é um problema em si, mas também uma pretensão noticiosa travestida em linguagem jornalística. Parte dessa estrutura foi desmantelada com a ação do Facebook, que demonstra que elas serão alvo da rede”, explica Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

Entre os membros do MBL que tiveram páginas derrubadas estão Renato Battista, coordenador do movimento, Thomaz Barbosa, coordenador do MBL no Vale do Paraíba, e Renan Santos, um dos fundadores do grupo.

As páginas desativadas, algumas com meio milhão de seguidores, variavam de notícias sensacionalistas a temas políticos, com uma abordagem conservadora, com nomes como Jornalivre, Movimento Espartano, Canal Mais Vistas e O Diário Nacional. A página do movimento Brasil 200, idealizado pelo empresário e político Flavio Rocha, também foi derrubada.

“Uma ação desse tamanho não existia antes e é surpreendente. Não se sabia dessa movimentação. Nós só tinhamos conhecimento de cerca de 20 delas. Ao que tudo indica, se tratou de uma ação coordenada do Facebook para cortar essas páginas, que muito provavelmente estavam sendo criadas para as eleições”, explica Pablo Ortellado, professor e pesquisador do Monitor do Debate Público no Meio Digital da USP.

O esquema era feito através de perfis verdadeiros, que por sua vez eram utilizados para criar uma série de usuários falsos. Esses usuários, então, criavam e administravam as páginas que foram derrubadas.

Em suas diretrizes de autenticidade, o Facebook diz que é proibido "comportamento não autêntico", que inclui criar, gerenciar ou perpetuar contas falsas ou contas com nomes falsos. Além disso, também é proibido o uso de contas que "participam de comportamentos não autênticos coordenados, ou seja, em que múltiplas contas trabalham em conjunto com a finalidade de enganar as pessoas sobre a origem do conteúdo"; "enganar as pessoas sobre o destino dos links externos"; "enganar as pessoas na tentativa de incentivar compartilhamentos, curtidas ou cliques"; "enganar as pessoas para ocultar ou permitir a violação de outras políticas de acordo com os Padrões da Comunidade".

“Se trata de um ecossistema. Esse conteúdo falso ou de ódio não é compartilhado apenas pelo MBL. É feita uma rede de páginas, pensada como engenharia da informação, que gera alcance em diferentes públicos. Isso faz com que surja um "clima de opinião favorável" às pautas dessas páginas, o que é uma força muito poderosa nas decisões democráticas. Seja com posts pagos ou orgânicos, essa rede consegue afetar parte da opinião pública com informações parciais ou até mentirosas. E isso se dá em todos os espectros políticos”, explica Malini.

Portanto, páginas associadas a esse tipo de conteúdo e páginas e perfis que os promovem, também estão sujeitas ao banimento.

Essas ações são a parceria com agência de checagem, como as agências Lupa e Aos Fatos, que avaliam a veracidade de uma notícia. Se ela for comprovadamente falsa, a rede reduz o alcance que seus compartilhamentos terão. A segunda atitude é a de derrubar páginas que são operadas por perfis falsos, o caso desta quarta-feira. Ou seja, as que ferem as "diretrizes de autenticidade" da rede.

O MBL já se utilizava de práticas similares para propagar conteúdo nas redes sociais. Mais especificamente, de um aplicativo chamado "Voxer", que permitia o compartilhamento automático de mensagens e postagens em contas de outros usuários. Na época, a apuração apontou 368 perfis que foram usados pelo MBL, que reproduziram 16 mensagens iguais em um período de duas semanas.

O Facebook desativou o “Voxer”, após ter sido procurado pelo GLOBO durante a apuração de uma reportagem sobre a estratégia digital do MBL.

Segundo Diogo Rais, professor de direito eleitoral do Mackenzie e da FGV e coautor do livro "Direito Eleitoral Digital", se os perfis removidos estavam ligadas a páginas que violavam regras da empresa, há uma razão lógica que justifica a atitude. 

"O Facebook está na esfera privada, mas com reflexos na esfera pública. Por essa questão, a empresa deveria, de alguma maneira, explicar essa decisão", disse Rais. "O que ela não pode é reagir assim só com a direita ou a esquerda." 

Caio César Carvalho Lima, sócio do escritório Opice Blum, diz que perfis que atuem de forma ilícita têm de ser retirados do ar, mas que isso não deveria ocorrer apenas em razão de determinada posição política. "A livre manifestação de preferência política não deve ser banida", afirma. 

Segundo Lima, a decisão de retirada de conteúdo e de perfis pessoais do ar, entretanto, não precisa ser justificada com exemplos, como pede o MBL. "Se, de alguma forma, houver violação dos termos de uso ou da política de privacidade da plataforma, eles podem agir livremente para remover esses perfis", diz Lima. 

Procurado, o MBL não respondeu a reportagem. Em suas redes sociais, porém, o movimento disse em nota que considerou a ação "censura" e que irá "utilizar todos os recursos midiáticos, legais e políticos que a democracia nos oferece para recuperar as páginas derrubadas e reverter a perseguição sofrida, com consequências exemplares para a empresa".


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