01/03/2024 - Edição 525

Poder

Exército teria abraçado golpe de Bolsonaro se Trump ainda fosse presidente?

Operação da PF derruba tese de 'militares legalistas'

Publicado em 09/02/2024 9:14 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Imagem: ALAN SANTOS/PR

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A operação da Polícia Federal de quinta (8) envolveu cinco generais e um almirante por indícios de que articularam-se em uma organização criminosa golpista para manter Bolsonaro no poder. Essa articulação já é a maior ação de fardados graúdos contra a democracia desde 31 de março de 1964.

Jair apenas não consumou o golpe de Estado porque não teve apoio da maioria da cúpula das Forças Armadas. E por que ela não pulou de cabeça? Militares sabiam que a tramoia estava rolando e ninguém deu ordem de prisão aos colegas que se assanhavam contra o Estado Democrático de Direito.

Não importa se isso foi fruto de medo, insegurança ou conivência, no final do dia, esse tipo de comportamento fica registrado para a História como omissão. E quem se cala diante de um crime se lesa pátria, com ele consente.

Durante o governo passado, militares tiveram acesso facilitado a cargos e dinheiro, foram beneficiados na reforma das aposentadorias, envolveram-se sem pudor em escândalos sobre vacinas, Viagra e próteses penianas. Por que não continuar via golpe?

O mais provável é que muitos não tenham sentido que o contexto seria favorável. Não para o golpe em si (apesar do risco de ter como protagonista uma figura considerada pelos próprios generais como hipossuficiente), mas quanto ao dia seguinte, em que os golpistas teriam que se firmar como legítimos perante a sociedade e as instituições brasileiras e a comunidade das nações.

Internamente, como mostra o inquérito da PF, eles pretendiam prender geral, a começar pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes, e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, mas passando também por políticos, jornalistas, lideranças sociais. O problema é o que fazer quanto aos parceiros lá fora.

E, para a manutenção de nossa democracia, foi fundamental a derrota de Donald Trump na eleição norte-americana de 2020. Caso o herói e aliado de Bolsonaro ainda estivesse no poder, a sinalização dada pela Casa Branca não seria de contrariedade às ações golpistas no Brasil.

Vale ressaltar que o próprio Trump, insatisfeito com o resultado do pleito, incitou a invasão ao Congresso dos Estados Unidos por uma horda de seus seguidores em 6 de janeiro de 2021, inspirando Bolsonaro a fazer a mesma coisa em 8 de janeiro de 2023.

O governo do democrata Joe Biden enviou uma série de recados aos militares brasileiros de que o caminho não deveria ser, desta vez, a “virada de mesa” (para usar a expressão adotada pelo general Augusto Heleno em reunião golpista com Bolsonaro e generais em 5 de julho de 2022).

Como já foi noticiado em apuração do Financial Times, a mensagem aos generais brasileiros foi de que a Casa Branca não iria tomar partido, mas não aceitaria questionamentos ilegais ao processo de votação ou do resultado.

E, para isso, a estratégia foi demonstrar confiança no nosso sistema eleitoral, seja em reuniões durante viagens ao Brasil, em declarações à imprensa, em eventos com militares e políticos nos EUA.

Por exemplo, após a reunião com embaixadores em que Bolsonaro lançou mentiras sobre a Justiça Eleitoral, a embaixada norte-americana em Brasília divulgou à imprensa que as nossas eleições eram um modelo para o mundo e que os EUA confiam na força das instituições – um claro contraponto.

E rigorosamente após proclamado o resultado, Joe Biden enviou saudações públicas a Lula pelo resultado, em uma velocidade vista como incomum, o que foi visto também como parte do esforço antigolpe.

Ironicamente, a Casa Branca foi criticada por bolsonaristas por tentar intervir em política interna de outro país, lembrando que o governo norte-americanos apoiou uma série de golpes de Estado na América Latina ao longo do século 20, entre eles aquele que levou os fardados ao poder no Brasil há 60 anos.

Mas os militares brasileiros entenderam que teriam problemas na boa relação com os militares norte-americanos e, ato contínuo, com os da OTAN, caso embarcassem no golpismo.

Não existe o condicional “se” em História, o que aconteceu aconteceu e há tantos elementos que convergem para determinado fato que é difícil cravar que algo poderia ter sido diferente.

A cúpula militar brasileira, contudo, teria menos pudor em pular de cabeça no plano golpista bolsonarista, caso os fatores externos estivessem favoráveis. A despeito de eventuais nomes que mantiveram seus princípios, ao que tudo indica, a questão não foi de legalidade, mas de oportunidade.

Anatomia do golpe deixa mal também banda muda da tropa

No instante em que discutia a edição do decreto que seria usado como pista de aterrissagem do golpe, Bolsonaro descobriu que sua conspiração não tinha asas nem trem de pouso. Os comandantes da Aeronáutica e, sobretudo, do Exército não aderiram à trama. Exibiram um sopro de lucidez. Faltou-lhes, porém, o trombone. Impediram que o golpe voasse. Mas não denunciaram a existência do plano de voo.

Diante da adesão entusiasmada do almirante Almir Garnier, comandante da Marinha, à proposta de rasgar a Constituição, o legalismo silencioso do general Freire Gomes e do brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior foi visto apenas como um mal menor. Poderia ter sido diferente.

Com tantas fardas na fila da sentença criminal, os militares teriam um pouso mais suave no verbete da enciclopédia se o general Freire Gomes tivesse, por exemplo, ordenado a prisão do tenente-coronel Mauro Cid. Teve a oportunidade quando recebeu do faz-tudo de Bolsonaro um áudio avisando que estava pronta a versão editada do decreto do golpe.

No limite, ainda que não quisesse dar voz de prisão também a Bolsonaro e a colegas de farda como os generais Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, Freire Gomes poderia pelo menos ter levado os lábios ao trombone para avisar que havia um golpe em andamento. Marchou noutra direção.

Consumada a derrota de Bolsonaro, Freire Gomes assinou nota conjunta em que os comandantes militares trataram com dubiedade providencial os surtos antidemocráticos do bolsonarismo. A certa altura, o texto condenou “restrições a direitos” impostas por “agentes públicos”. A peça foi recebida como estímulo à manutenção dos acampamentos que pediam intervenção militar na porta dos quarteis.

Às véspera do aniversário de 60 anos do golpe de 64, é desoladora a percepção de que as Forças Armadas estão divididas entre o mal (o golpismo escancarado) e o mal menor (o legalismo envergonhado). É fácil distinguir qual dos lados é menos maléfico. O difícil é ignorar que escolher o menor de dois males é ainda escolher mal.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *