Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Intervenção do presidente dos Estados Unidos na suspensão de Balogun é ápice da Copa mais “política” da história
Publicado em 06/07/2026 1:10 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Quando um presidente da República admite publicamente ter telefonado ao presidente da maior entidade do futebol mundial para pedir a revisão de uma decisão disciplinar, e a punição acaba efetivamente revertida, a discussão deixa de ser apenas esportiva. Ela passa a envolver princípios fundamentais da governança internacional, da autonomia institucional, da igualdade entre competidores e da própria credibilidade das regras que sustentam o esporte mais popular do planeta.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP
O episódio envolvendo Donald Trump, Gianni Infantino e o atacante americano Folarin Balogun transformou uma decisão disciplinar da Copa do Mundo em um caso de repercussão global, cujos efeitos extrapolam as quatro linhas e colocam a Fifa diante de um dos maiores testes de sua legitimidade nos últimos anos.
A controvérsia começou após a expulsão de Folarin Balogun, atacante da seleção dos Estados Unidos, durante a vitória por 2 a 0 sobre a Bósnia-Herzegovina. O árbitro brasileiro Raphael Claus aplicou cartão vermelho direto ao jogador depois de revisão do lance pelo VAR, ao entender que Balogun atingiu com a sola da chuteira o tornozelo do zagueiro Tarik Muharemovic.
Pelas regras da Copa do Mundo, a consequência parecia automática: suspensão para a partida seguinte, válida pelas oitavas de final contra a Bélgica. O caso, contudo, tomou um rumo inédito.
No domingo (5), a Fifa anunciou que utilizaria o artigo 27 de seu Código Disciplinar para suspender a execução da punição por um período probatório de doze meses. Na prática, Balogun foi liberado para atuar contra a Bélgica, enquanto a eventual suspensão somente será aplicada caso o atleta cometa infração semelhante durante esse período.
Poucas horas depois, Donald Trump confirmou que havia pedido pessoalmente ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, que a decisão fosse revista.
“Pedi uma revisão porque não achei que foi uma falta. Tudo o que fiz foi pedir uma revisão”, declarou o presidente americano na Casa Branca, acrescentando que não teria ordenado qualquer medida à entidade.
Trump voltou ao tema no dia seguinte, afirmando que a punição deixaria “uma grande mancha” na Copa do Mundo e classificando a expulsão determinada por Raphael Claus como “horrível”, chegando a afirmar que o árbitro brasileiro era “um pouco suspeito”.
Em seguida, agradeceu publicamente à Fifa por “reverter uma grande injustiça”, enquanto a própria Casa Branca comemorou a decisão nas redes sociais com a mensagem: “USA-USA-USA”.
Embora Trump sustente que apenas solicitou uma revisão, o episódio imediatamente levantou questionamentos sobre a independência da Fifa diante da pressão política exercida por um dos países-sede do torneio e pela maior potência econômica do planeta.
A própria cronologia dos acontecimentos alimentou as suspeitas.
Segundo informações divulgadas por Reuters, Associated Press e Agence France-Presse, Trump conversou diretamente com Gianni Infantino logo após a expulsão de Balogun. Paralelamente, Andrew Giuliani, diretor-executivo da força-tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo, e o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, também mantiveram contatos com dirigentes da Fifa.
A entidade jamais explicou se essas conversas tiveram qualquer influência sobre a decisão do Comitê Disciplinar.
Limitou-se a citar genericamente o artigo 27 do Código Disciplinar, dispositivo que autoriza a suspensão total ou parcial da aplicação de uma sanção, sem apresentar qualquer fundamentação específica para um caso que rompeu uma tradição histórica da Copa do Mundo.
Essa ausência de justificativa tornou-se um dos principais focos da crise.
Segundo o próprio Código Disciplinar da Fifa, uma jogada considerada “seriamente desleal” pode resultar em suspensão mínima de duas partidas. Balogun recebeu apenas um jogo de suspensão — posteriormente suspenso — sem que a entidade explicasse por que deixou de aplicar a própria regra.
Além disso, o regulamento específico da Copa estabelece que cartões vermelhos não são passíveis de recurso pelas seleções participantes.
A decisão, portanto, criou uma situação excepcional cuja fundamentação nunca foi esclarecida.
Foi justamente essa excepcionalidade que desencadeou reações contundentes.
A Real Associação Belga de Futebol declarou-se “espantada” com a decisão e afirmou que ela contradiz frontalmente o regulamento da competição, que prevê suspensão automática após expulsão.
Em nota, a entidade informou que avaliaria todas as medidas cabíveis para defender “os princípios fundamentais da ética, da competição justa e dos interesses do futebol”.
O técnico belga Rudi Garcia resumiu a perplexidade com ironia.
“Eu não sabia que, na Copa do Mundo da Fifa, 5 de julho agora é 1º de abril, o Dia dos Tolos”, afirmou durante entrevista coletiva.
Mais incisiva ainda foi a reação da Uefa.
A entidade que administra o futebol europeu afirmou que a Fifa “cruzou uma linha vermelha”, classificando a decisão como “incompreensível e injustificável”.
Em comunicado oficial, ressaltou que “o futebol, como qualquer outro esporte, depende de regras, que são a base para uma competição justa, honesta e transparente”.
A preocupação extrapolou a Bélgica.
O técnico da Inglaterra, Thomas Tuchel, embora tenha afirmado que considerava rigorosa a expulsão de Balogun, questionou o precedente criado.
“Onde isso começa e onde termina?”, perguntou.
“Devemos recorrer sempre que houver um cartão vermelho? Quem decidirá quando uma punição pode ou não ser suspensa?”
As perguntas de Tuchel refletem uma inquietação que passou a dominar dirigentes, árbitros e especialistas: se uma suspensão automática pode ser flexibilizada por critérios excepcionais, deixa de existir a previsibilidade que sustenta qualquer sistema disciplinar.
O comentarista da BBC e ex-zagueiro da seleção inglesa Micah Richards foi ainda mais duro.
“Postergar a suspensão por um ano é um desrespeito ao torneio como um todo. É para manter os grandes astros na competição. Como isso pode acontecer?”
A declaração sintetiza uma suspeita compartilhada por parte da opinião pública: teria a Fifa adotado critérios distintos porque Balogun atua por um dos países anfitriões e porque sua permanência interessa comercialmente ao torneio?
A entidade nunca respondeu de forma objetiva a essa pergunta.
Historicamente, o caso possui pouquíssimos precedentes.
A lembrança inevitável remete ao Brasil de 1962.
Na semifinal daquela Copa, Garrincha foi expulso diante do Chile, país anfitrião. Mesmo assim, disputou a decisão contra a então Checoslováquia, na vitória brasileira por 3 a 1 que garantiu o bicampeonato mundial.
Na época, entretanto, ainda não existia o sistema atual de suspensões automáticas.
A decisão foi tomada pelo Comitê Disciplinar da Fifa e acabou cercada por acusações de interferência política e diplomática, tornando-se um dos episódios mais controversos da história das Copas.
Mais de seis décadas depois, Balogun passa a integrar uma lista extremamente curta de exceções.
A diferença é que, desta vez, o regulamento prevê claramente a suspensão automática.
Também chama atenção o fato de que outros jogadores não receberam tratamento semelhante.
Até então, onze atletas haviam sido expulsos na atual Copa e todos cumpriram normalmente suas suspensões.
O caso do catariano Assim Madibo ilustra essa disparidade.
Mesmo havendo argumentos de que a grave lesão sofrida pelo canadense Ismael Koné decorreu de um acidente de jogo, Madibo recebeu punição ainda mais severa: cinco partidas de suspensão.
Por que Balogun foi tratado de maneira diferente?
Essa pergunta permanece sem resposta oficial.
O contexto político amplia ainda mais a dimensão da controvérsia.
Desde sua chegada à presidência da Fifa, Gianni Infantino estreitou relações com diversos chefes de Estado, especialmente Donald Trump.
A proximidade entre ambos tornou-se pública em diferentes eventos oficiais e voltou a ser alvo de críticas recentemente, quando o Comitê de Ética da Fifa recebeu pedido para investigar Infantino por suposta violação do dever de neutralidade política ao conceder a Trump o chamado Prêmio da Paz da Fifa.
Os próprios Estatutos da entidade estabelecem, em diferentes dispositivos, que a Fifa deve preservar sua independência diante de governos e impedir interferências políticas nas decisões esportivas.
O princípio da autonomia esportiva constitui um dos pilares da governança internacional do esporte.
Essa diretriz está presente não apenas na Fifa, mas também no Comitê Olímpico Internacional e em diversas federações internacionais, justamente para impedir que interesses governamentais alterem resultados, regulamentos ou decisões disciplinares.
O cientista político norte-americano Joseph S. Nye Jr., criador do conceito de soft power, observa que o esporte integra um dos instrumentos mais poderosos de influência internacional de um Estado, justamente por produzir prestígio, legitimidade e projeção global. Como escreveu Nye em Soft Power: The Means to Success in World Politics (PublicAffairs, 2004), a capacidade de influenciar “pela atração, e não pela coerção”, tornou-se elemento central das relações internacionais. O episódio envolvendo Trump e a Fifa ilustra como essa fronteira entre diplomacia, imagem internacional e competição esportiva pode tornar-se extremamente tênue.
Também dialoga com a conhecida reflexão do sociólogo francês Pierre Bourdieu, para quem o esporte nunca constitui um espaço isolado da sociedade, mas reproduz relações de poder, disputas simbólicas e interesses políticos presentes no mundo social. Em seu ensaio Como é possível ser esportivo? (Questions de sociologie, 1980), Bourdieu demonstra que as instituições esportivas refletem conflitos muito além das competições.
A discussão, portanto, vai muito além de um cartão vermelho.
O verdadeiro impacto está na erosão da previsibilidade institucional.
As regras existem justamente para impedir que circunstâncias extraordinárias, pressões externas ou interesses conjunturais alterem sua aplicação.
Quando uma exceção não vem acompanhada de fundamentação transparente, abre-se espaço para dúvidas permanentes.
A partir deste episódio, qualquer futura expulsão em uma Copa do Mundo poderá gerar pedidos de tratamento semelhante.
Técnicos, dirigentes e federações passarão a invocar o precedente Balogun sempre que entenderem haver rigor excessivo da arbitragem.
O risco é transformar exceções em instrumentos de pressão política e jurídica sobre a própria Fifa.
Não por acaso, Thomas Tuchel resumiu o dilema com uma pergunta aparentemente simples, mas institucionalmente profunda: “Onde isso começa e onde termina?”
Essa talvez seja a principal questão deixada pelo caso.
Independentemente da correção ou não da expulsão de Balogun, o debate central deslocou-se para a confiança nas instituições.
No futebol, como em qualquer democracia consolidada, a legitimidade não depende apenas do resultado final das decisões, mas da transparência dos procedimentos, da igualdade de tratamento e da previsibilidade das regras.
São esses princípios que conferem autoridade às instituições.
Ao optar por um caminho excepcional sem apresentar justificativas claras, a Fifa acabou transferindo para si um protagonismo que normalmente pertence ao campo de jogo.
E, ao fazê-lo, abriu uma discussão que dificilmente terminará com o apito final desta Copa do Mundo.
SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON
Deixe um comentário