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Mundo
No quinto dia de buscas, socorristas mantém esperanças por sobreviventes, mas crise humanitária se agrava
Publicado em 29/06/2026 1:54 - Semana On
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Equipes de resgate da Venezuela e de diversos países mantiveram, nesta segunda-feira (29), uma corrida contra o tempo para localizar sobreviventes soterrados pelos terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o país na última quarta-feira. Cinco dias após os abalos, o número de mortos chegou a pelo menos 1.450, enquanto aproximadamente 50 mil pessoas continuam desaparecidas, segundo estimativas das Nações Unidas.
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Embora a possibilidade de encontrar vítimas com vida diminua significativamente com o passar das horas, os trabalhos seguem produzindo resultados. De acordo com o governo venezuelano, 33 pessoas foram resgatadas com vida apenas no domingo. Especialistas ressaltam que as primeiras 48 a 72 horas após um desastre dessa magnitude representam o período decisivo para localizar sobreviventes. Superada essa janela, as operações costumam migrar gradualmente da busca por vidas para a recuperação de corpos.
Mesmo diante desse cenário, socorristas continuam vasculhando manualmente montanhas de concreto e ferragens, enfrentando temperaturas elevadas e condições extremamente adversas. Relatos das equipes indicam que o odor provocado pela decomposição de corpos se torna cada vez mais intenso, evidenciando a dimensão da tragédia.
O estado de La Guaira, vizinho à capital Caracas, concentra a maior parte da devastação e tornou-se o principal foco das operações. Após dias marcados por críticas de moradores à lentidão da resposta oficial — período em que grande parte dos primeiros socorros foi organizada por civis e voluntários —, missões internacionais de resgate chegaram em grande número no domingo para reforçar os trabalhos.
A presidente interina, Delcy Rodríguez, determinou a continuidade ininterrupta das buscas e anunciou a criação de uma comissão encarregada de avaliar os danos estruturais nas áreas afetadas. O grupo deverá identificar quais imóveis ainda oferecem condições de segurança para o retorno dos moradores e elaborar um plano de atendimento às famílias que perderam suas residências.
Segundo dados oficiais, mais de 770 edificações sofreram colapso total ou parcial, entre elas prédios residenciais, estabelecimentos comerciais e dezenas de hospitais.
As Nações Unidas calculam que cerca de 6,8 milhões de pessoas — praticamente um quarto da população venezuelana, estimada em pouco menos de 30 milhões de habitantes — foram diretamente afetadas pelos terremotos. O cenário permanece instável devido à sequência de réplicas registradas desde quarta-feira. Somente na manhã de domingo ocorreram novos tremores de magnitudes 4,2 e 4,5, mantendo elevado o risco de novos desabamentos.
Resgates alimentam esperança em meio à devastação
Entre os episódios que marcaram as operações de domingo está o resgate de um homem e de seu filho em La Guaira. Cercados por uma multidão, bombeiros e especialistas dos Estados Unidos, da França e da Venezuela conseguiram retirar as duas vítimas de uma estreita abertura sob uma enorme massa de concreto.
Cobertos de poeira e praticamente sem forças, pai e filho foram colocados sobre uma lona e transportados cuidadosamente até uma ambulância, onde receberam hidratação intravenosa. O resgate foi acompanhado por aplausos e manifestações de alívio dos moradores, enquanto as equipes retomavam imediatamente as buscas por outras vítimas.
Também em La Guaira, outra história mobiliza voluntários e familiares. Helen Guedez e sua mãe permanecem tentando retirar dos escombros o pai, Jesús, preso no apartamento onde vivia.
Conforme relatado pela agência Associated Press (AP), equipes americanas localizaram o homem com vida utilizando equipamentos especializados. No entanto, concluíram que a estrutura apresentava risco elevado de colapso, tornando impossível uma operação segura.
Após a retirada dos socorristas internacionais, Helen afirmou que não abandonaria o local. Segundo ela, voluntários civis e mineradores da região decidiram assumir a tentativa de resgate.
“Não vamos desistir”, declarou à AP. “O restante da equipe está disposto a continuar. Eles sabem que há outra maneira de retirá-lo e disseram que vão continuar trabalhando até o fim.”
Enquanto as buscas prosseguem, o governo mobilizou mais de 14 mil militares e policiais para patrulhar La Guaira. O acesso ao estado permanece restrito e depende de autorização especial.
Saques e demora na assistência ampliam tensão
Além da destruição provocada pelos terremotos, moradores enfrentam problemas de segurança e escassez de assistência.
Diversos relatos apontam que farmácias, supermercados e outros estabelecimentos comerciais foram saqueados nos últimos dias. Habitantes da região também voltaram a criticar a lentidão da chegada de ajuda humanitária e a insuficiência da resposta governamental diante da magnitude da tragédia.
As dificuldades operacionais reforçam a percepção de que o desastre encontrou um país já profundamente fragilizado por anos de crise econômica e deterioração dos serviços públicos.
Tragédia amplia pressão política sobre governo interino
Há quase seis meses no comando da Venezuela, após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em janeiro, Delcy Rodríguez enfrenta agora seu maior teste político.
Ao reafirmar que os trabalhos de busca “não se suspendem”, a presidente interina agradeceu a atuação das equipes internacionais, afirmando que sua presença devolveu esperança às comunidades atingidas.
Entretanto, analistas avaliam que a tragédia amplia os desafios de um governo que já administra um país marcado por grave instabilidade econômica e crescente influência norte-americana nos rumos políticos venezuelanos.
Para Ronal Rodríguez, pesquisador do Observatório Venezuelano da Universidade do Rosário, o terremoto agravou uma conjuntura já extremamente delicada.
“O país enfrenta agora uma situação ainda mais difícil. Há interferência política dos Estados Unidos, a incompetência operacional de um governo que levou o país a uma crise humanitária complexa e, de repente, um terremoto em um lugar que carece de capital humano e recursos imediatos para lidar com a situação”, afirmou à AP.
Os terremotos — considerados os mais destrutivos registrados na Venezuela em mais de um século — atingiram um país que convive há mais de dez anos com o colapso econômico, apesar de possuir uma das maiores reservas de petróleo do mundo. A prolongada crise comprometeu hospitais, infraestrutura e serviços públicos, além de provocar a migração de milhões de venezuelanos.
As Nações Unidas estimam que os prejuízos materiais provocados pelo desastre alcancem cerca de US$ 6,7 bilhões, valor equivalente a aproximadamente 6% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
A diretora-geral da Organização Internacional para Migrações (OIM), Amy Pope, alertou que a nova tragédia deverá ampliar o fluxo migratório venezuelano. Segundo ela, cerca de 8 milhões de pessoas já deixaram o país ao longo da última década em consequência da crise econômica e humanitária, tendência que pode se intensificar diante da destruição causada pelos terremotos.
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