Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

20/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Especial

A COPA DA VERGONHA

Mundial é marcado pelo racismo, preconceito e submissão a Trump

Publicado em 12/06/2026 3:31 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Durante décadas, a Copa do Mundo foi vendida como a maior celebração global do esporte, um território simbólico onde fronteiras, conflitos e diferenças nacionais cediam espaço à linguagem universal do futebol. Em 2026, porém, o torneio chega cercado por questionamentos que ultrapassam em muito as disputas dentro de campo.

Entre denúncias de restrições migratórias, preços que afastam torcedores comuns, tensões geopolíticas, críticas à atuação da Fifa e a influência cada vez mais visível de Donald Trump sobre o ambiente político do evento, o Mundial se transforma em um retrato das contradições de seu tempo.

Mais do que uma competição entre seleções, a Copa passa a expor o encontro entre esporte, poder, dinheiro e diplomacia em escala global. A pergunta que atravessa esta reportagem não é apenas quem levantará o troféu em julho de 2026, mas o que a história dirá sobre o torneio que prometeu unir o mundo justamente quando as divisões pareciam mais profundas.

SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAMFACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP

A Copa do Mundo de 2026, principal evento esportivo do planeta e tradicionalmente apresentada como uma celebração da diversidade humana, será disputada majoritariamente nos Estados Unidos, país que receberá cerca de 80% das partidas do torneio. Mas a competição chega cercada por questionamentos que vão muito além do futebol. Para seus críticos, o Mundial se tornou o reflexo de um projeto político marcado pela exclusão, pela erosão de compromissos internacionais e por sucessivas acusações de violações de direitos humanos.

A escolha dos Estados Unidos como principal sede do torneio é apontada por analistas e ativistas como mais um exemplo da distância crescente entre o discurso institucional da Fifa e suas decisões práticas. A entidade, que frequentemente reivindica para si a defesa de valores universais e princípios de inclusão, é acusada de aplicar critérios distintos conforme os interesses geopolíticos envolvidos.

O contraste mais citado remete ao processo de seleção de sedes em anos recentes. Quando a Indonésia manifestou interesse em organizar uma Copa do Mundo, a recusa em assegurar a entrada de atletas israelenses levou a Fifa a agir de forma imediata, descartando a candidatura. No entanto, situações ocorridas sob a organização do Mundial de 2026 não provocaram reação semelhante da entidade.

Entre os episódios mencionados estão a negativa de visto a um árbitro, restrições envolvendo cidadãos iranianos interessados em acompanhar o torneio e relatos de procedimentos considerados constrangedores direcionados a delegações de países africanos. Apesar da repercussão dessas medidas, a Fifa não emitiu sequer uma nota formal de condenação.

A diferença de postura também é observada na relação da entidade com os países anfitriões. Nas edições realizadas na África do Sul, em 2010, e no Brasil, em 2014, a Fifa exerceu forte influência sobre legislações nacionais e exigiu adaptações institucionais para garantir suas condições de organização. Em 2026, segundo os críticos, ocorre o movimento inverso: é o governo anfitrião quem determina os limites e as regras sob as quais a competição será realizada.

O contexto internacional amplia as controvérsias. O torneio tem início em meio a um cenário de forte tensão geopolítica envolvendo os Estados Unidos. Horas antes da abertura da competição, uma nova onda de ataques com mísseis atingiu o Irã, reforçando a percepção de que o Mundial será disputado sob o impacto de conflitos que extrapolam os gramados.

As controvérsias, porém, não começaram agora. Elas remontam ao processo de transformação econômica da própria Copa do Mundo. Quando a Fifa aprovou a candidatura conjunta de Estados Unidos, México e Canadá, os dirigentes da entidade foram confrontados com uma decisão estratégica: manter o formato tradicional ou ampliar o número de participantes para 48 seleções.

Durante as discussões internas, um relatório elaborado pelos departamentos técnicos da própria Fifa foi distribuído aos dirigentes. O documento apresentava duas conclusões centrais. A primeira era direta: a expansão reduziria a qualidade técnica da competição. A segunda apontava que o novo formato poderia gerar aproximadamente US$ 1 bilhão adicional em receitas.

Diante desse dilema, a escolha foi inequívoca. A ampliação do torneio foi aprovada e consolidou uma mudança estrutural no modelo de negócios da entidade. Ao longo dos anos seguintes, a combinação entre novos contratos de patrocínio, acordos publicitários e direitos de transmissão transformou a Copa de 2026 no empreendimento mais lucrativo da história da organização.

A expectativa é de que o torneio movimente cerca de US$ 13 bilhões, cifra sem precedentes para uma competição esportiva. O crescimento das receitas, entretanto, veio acompanhado de uma transformação profunda no perfil do público que consegue acessar os estádios.

Se as últimas edições já apontavam para uma crescente elitização do evento, a Copa de 2026 elevou esse processo a um novo patamar. O aumento dos preços dos ingressos tornou a principal competição do esporte mais popular do mundo financeiramente inacessível para bilhões de torcedores.

As críticas ganharam força no mês passado, quando a organização Football Supporters Europe apresentou uma queixa formal à Comissão Europeia. Segundo o grupo, um torcedor que deseje acompanhar sua seleção desde a fase inicial até a final precisará desembolsar, apenas em ingressos, pelo menos US$ 6.900 — valor aproximadamente cinco vezes superior ao registrado na Copa do Catar.

Os números da decisão também ilustram essa escalada de preços. Para a final marcada para 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, o ingresso mais caro foi anunciado por US$ 10.990, quase sete vezes acima do valor máximo cobrado na final de 2022. Em resposta às críticas, a Fifa argumenta que mais de mil entradas para a partida decisiva foram comercializadas por cerca de US$ 60.

Nesse contexto, a competição é descrita por seus opositores como uma “anti-Copa”: um evento marcado simultaneamente pela exclusão econômica e pela instrumentalização política. Para milhões de torcedores, a experiência do Mundial ficará restrita às transmissões televisivas, enquanto a presença física nos estádios se converte em privilégio de uma parcela reduzida da população global.

No centro desse processo está o presidente da Fifa, Gianni Infantino. Seus críticos afirmam que o dirigente adotou uma estratégia de acomodação política para proteger os interesses financeiros do torneio. Em nome da estabilidade comercial e da preservação de receitas bilionárias, ele teria flexibilizado princípios que a própria entidade costumava apresentar como inegociáveis.

A relação com Donald Trump tornou-se um dos símbolos dessa postura. Para os opositores da atual direção da Fifa, a entidade abriu mão de sua independência institucional e de seus compromissos éticos em troca de segurança política e garantias econômicas para a realização do evento.

Na entrevista coletiva que antecede tradicionalmente a abertura de uma Copa do Mundo, uma declaração de Infantino sintetizou essa postura e provocou reações imediatas. “Talvez às vezes seja melhor simplesmente relaxar”, afirmou o dirigente.

A frase passou a ser interpretada como um retrato da disposição da entidade em ignorar controvérsias políticas e denúncias envolvendo o país anfitrião para preservar a normalidade do espetáculo esportivo.

Ainda assim, a história do futebol demonstra que grandes eventos frequentemente escapam ao controle de seus organizadores. O esporte, por sua natureza imprevisível, costuma desafiar narrativas oficiais e produzir símbolos inesperados. A lembrança de Jesse Owens frustrando os planos propagandísticos de Adolf Hitler nos Jogos Olímpicos de Berlim permanece como uma das referências mais evocadas quando se discute a capacidade do esporte de contrariar projetos de poder.

Independentemente do que acontecer dentro de campo, permanece uma questão que provavelmente acompanhará a memória histórica do torneio: como uma geração reagiu diante das acusações, denúncias e controvérsias associadas ao contexto político da Copa de 2026? E até que ponto a celebração dos gols e das vitórias serviu para obscurecer debates mais amplos sobre direitos, democracia e responsabilidade institucional?

Ao escolher realizar seu Mundial mais lucrativo nos Estados Unidos e ao adotar uma postura de acomodação diante das controvérsias que cercam o país anfitrião, a Fifa acrescenta mais um capítulo a uma trajetória frequentemente marcada por disputas, contradições e questionamentos sobre os limites entre o futebol, o poder político e os interesses econômicos.

Restrições migratórias e silêncio institucional

A realização da Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos reacendeu um debate antigo sobre a distância entre o discurso institucional da Fifa e as condições concretas sob as quais seus torneios são organizados. Embora a entidade se apresente como promotora da inclusão e da integração entre povos, sua trajetória recente demonstra uma disposição recorrente para acomodar interesses políticos e econômicos mesmo diante de denúncias relacionadas a direitos civis, trabalhistas e humanos.

A contradição não surgiu agora. Se a defesa desses princípios fosse um critério determinante para a escolha de sedes, a Copa de 2018 não teria sido disputada na Rússia sob o governo de Vladimir Putin. Tampouco a edição de 2022 teria sido realizada no Catar, país que enfrentou intensa pressão internacional em razão das condições de trabalho de migrantes envolvidos na construção da infraestrutura do torneio.

Ao longo das últimas décadas, a organização de uma Copa do Mundo tornou-se um empreendimento cada vez mais complexo e oneroso. Desde o Mundial realizado conjuntamente por Coreia do Sul e Japão, em 2002, os padrões de infraestrutura exigidos pela Fifa cresceram de forma exponencial. As demandas por novos estádios, obras urbanas, redes de transporte e estruturas de apoio elevaram os custos a níveis que afastaram muitos governos democráticos, submetidos a mecanismos de fiscalização pública, controle orçamentário e pressão social.

Em contrapartida, países dispostos a flexibilizar exigências ambientais, trabalhistas e sociais passaram a encontrar menos obstáculos para atender às condições impostas pela entidade. A experiência brasileira, marcada por forte escrutínio institucional e por grandes mobilizações populares questionando os gastos públicos relacionados ao Mundial de 2014, tornou-se uma referência desse conflito.

Desde então, os principais torneios organizados pela Fifa ocorreram em contextos políticos nos quais a resistência social ou institucional às exigências da entidade foi significativamente menor. A sequência formada por Rússia, Catar e, agora, Estados Unidos alimenta críticas de que a escolha das sedes passou a privilegiar governos capazes de garantir a execução do evento sem maiores questionamentos.

Embora Canadá e México também integrem a organização da Copa de 2026, sua participação é proporcionalmente reduzida. Os canadenses receberão partidas em apenas duas cidades, enquanto os mexicanos contarão com três sedes. Os Estados Unidos, por sua vez, concentrarão onze cidades anfitriãs e a maior parte absoluta dos jogos, consolidando seu papel como eixo central da competição.

Ainda assim, a realização do torneio não eliminou as manifestações sociais. No México, por exemplo, grandes protestos de professores ocorreram paralelamente à preparação do Mundial, demonstrando que a presença da competição não suspende os conflitos políticos e sociais existentes na região.

As tensões mais visíveis, entretanto, concentram-se na política migratória norte-americana. Casos envolvendo árbitros, jogadores, membros de delegações e torcedores transformaram o tema em uma das principais controvérsias da competição.

Um dos episódios mais emblemáticos envolveu Omar Artan. Considerado um dos principais árbitros do continente africano, ele poderia se tornar o primeiro somaliano a atuar em uma Copa do Mundo. Apesar de possuir documentação regular, foi impedido de ingressar nos Estados Unidos pelas autoridades migratórias, encerrando prematuramente uma trajetória que tinha potencial para se tornar histórica.

A reação da Fifa foi limitada. Em nota oficial, a entidade afirmou não interferir nos procedimentos migratórios estabelecidos pelos países-sede. A resposta foi interpretada por críticos como mais uma demonstração da disposição da organização em se afastar de questões consideradas politicamente sensíveis, mesmo quando afetam diretamente participantes do torneio.

Outros integrantes do Mundial enfrentaram dificuldades semelhantes. O atacante Aymen Hussein, principal referência técnica da seleção do Iraque, permaneceu retido por sete horas antes de receber autorização para entrar no país. O episódio gerou repercussão internacional e levantou questionamentos sobre os critérios utilizados pelas autoridades de imigração.

O meia haitiano Woodensky Pierre também enfrentou obstáculos para obter a documentação necessária para se juntar à sua equipe. Sua chegada aos Estados Unidos tornou-se notícia não pelo desempenho esportivo, mas pela longa batalha burocrática necessária para garantir sua participação no torneio.

A situação da seleção iraniana evidencia outro aspecto das restrições. Impedida de estabelecer sua base em território norte-americano, a equipe foi obrigada a instalar seu centro de operações em Tijuana, no México, realizando deslocamentos transfronteiriços para disputar suas partidas e retornando ao país vizinho após os jogos.

Segundo as regras atualmente aplicadas pelas autoridades americanas, ao menos sete seleções classificadas para a Copa enfrentam algum tipo de limitação migratória. Em determinados casos, como os de Irã e Haiti, as restrições são ainda mais severas, refletindo políticas que associam determinadas nacionalidades a níveis mais elevados de vigilância e controle.

O impacto dessas medidas ultrapassa as delegações esportivas. Jornalistas, profissionais de apoio e torcedores também passaram a avaliar riscos adicionais antes de viajar para acompanhar a competição. Além dos custos relacionados a passagens aéreas, hospedagem e ingressos, surgiram preocupações envolvendo procedimentos migratórios, retenções em aeroportos e eventuais dificuldades de permanência no país durante o evento.

As apreensões aumentaram após declarações e posicionamentos ligados às operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE), agência responsável pela fiscalização migratória nos Estados Unidos. Organizações de defesa dos direitos civis alertaram para a possibilidade de abordagens e detenções envolvendo estrangeiros durante o período do Mundial, cenário que ampliou a insegurança entre visitantes de diversas nacionalidades.

Paralelamente, a proximidade política entre a direção da Fifa e a Casa Branca tornou-se alvo de críticas crescentes. Gestos de deferência institucional ao governo norte-americano foram interpretados por opositores como sinais de uma relação excessivamente complacente diante de políticas consideradas discriminatórias por organizações internacionais e movimentos de direitos humanos.

Nesse contexto, o debate em torno da Copa de 2026 deixa de se limitar ao futebol. A competição passou a funcionar como uma vitrine das contradições que cercam a governança do esporte global, especialmente quando princípios frequentemente exaltados em campanhas institucionais entram em choque com decisões políticas adotadas pelos países anfitriões.

Enquanto seleções entram em campo e os estádios recebem seus primeiros jogos, permanece a percepção de que parte importante da disputa ocorre fora das quatro linhas. Ali, longe dos refletores voltados para os gramados, seguem em curso discussões sobre mobilidade, discriminação, acesso e os limites da responsabilidade de uma entidade que se apresenta como representante universal do futebol, mas que continua sendo cobrada por sua dificuldade em confrontar governos quando interesses estratégicos estão em jogo.

Debate explode nas redes brasileiras

A controvérsia envolvendo as políticas migratórias adotadas pelos Estados Unidos deixou de ser um tema restrito à diplomacia, às autoridades esportivas e às delegações nacionais. O assunto passou a ocupar espaço crescente no debate público brasileiro, impulsionado por relatos de dificuldades de entrada no país anfitrião e por questionamentos sobre a capacidade do torneio de garantir acesso igualitário a participantes e visitantes.

Um levantamento realizado pela Nexus revela a dimensão desse movimento. Entre os dias 6 e 9 de junho, o volume de publicações em português relacionadas ao tema registrou aumento de 1.166% nas plataformas X, Instagram e Facebook. O salto indica que a discussão ultrapassou os círculos especializados e alcançou um público mais amplo, transformando-se em um dos assuntos mais comentados da preparação para o Mundial.

A análise das interações mostra que a repercussão não se limita ao futebol. Os conteúdos compartilhados conectam aspectos esportivos, diplomáticos e institucionais, ampliando o alcance da controvérsia. Na nuvem de termos produzida pela Nexus, expressões como “presidente da FIFA”, “sediar a Copa do Mundo”, “interrogado por 7” e “Seleção iraniana” figuram entre os temas de maior relevância, evidenciando a convergência entre debates sobre política internacional, governança esportiva e mobilidade global.

O comportamento das redes sugere que episódios inicialmente tratados como ocorrências isoladas passaram a ser interpretados como parte de uma discussão mais ampla sobre o ambiente em que a competição será realizada. A circulação intensa dessas informações transformou casos específicos em símbolos de um debate que envolve acesso, tratamento diferenciado a determinadas nacionalidades e a responsabilidade das instituições esportivas diante de decisões soberanas dos países anfitriões.

O episódio que gerou maior repercussão foi o envolvendo o árbitro somaliano Omar Artan. Considerado um dos principais nomes da arbitragem africana, ele foi impedido de ingressar nos Estados Unidos apesar de possuir visto válido e credenciamento oficial emitido pela Fifa. Após a repercussão negativa do caso, autoridades norte-americanas alegaram supostas ligações com grupos terroristas, mas não apresentaram publicamente evidências que sustentassem a acusação.

A resposta da entidade máxima do futebol também se tornou parte do debate digital. Ao declarar que não interfere nos procedimentos migratórios adotados pelos países-sede, a Fifa passou a ser alvo de críticas de usuários que questionam a capacidade da organização de assegurar condições equitativas para todos os participantes do torneio.

A discussão ganhou ainda mais força à medida que vieram à tona relatos envolvendo integrantes de seleções, membros de delegações e profissionais ligados ao evento. Casos de longas retenções em aeroportos, atrasos em processos de autorização de entrada e dificuldades na obtenção de vistos passaram a circular amplamente nas redes, ampliando a percepção de que o problema não se restringe a situações excepcionais.

O impacto alcançou também o universo dos torcedores. Nas publicações analisadas pela Nexus, diversos usuários relatam preocupação não apenas com os elevados custos financeiros associados à viagem para a Copa, mas também com a imprevisibilidade dos procedimentos migratórios. Para muitos, a possibilidade de enfrentar obstáculos na entrada do país tornou-se um fator adicional na decisão de acompanhar ou não a competição presencialmente.

Esse sentimento foi reforçado por declarações relacionadas às operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE), órgão responsável pela fiscalização migratória nos Estados Unidos. A possibilidade de abordagens e detenções durante o período do torneio ampliou o debate sobre segurança jurídica para visitantes estrangeiros, especialmente aqueles provenientes de países submetidos a controles mais rigorosos.

Nas plataformas monitoradas, uma parcela significativa das manifestações associa essas restrições a uma contradição entre a prática observada e os valores tradicionalmente promovidos pelo futebol internacional. Comentários e análises compartilhados pelos usuários destacam que a Copa costuma ser apresentada como um espaço de encontro entre culturas, nacionalidades e povos distintos, característica que, segundo esses críticos, entra em tensão com políticas que dificultam a circulação de determinados grupos.

A percepção de exclusão aparece de forma recorrente nas conversas digitais. Muitos participantes do debate classificam a edição de 2026 como uma das mais restritivas já realizadas, argumentando que as barreiras não afetam apenas turistas e torcedores, mas alcançam profissionais diretamente envolvidos na organização e na disputa do torneio.

A estrutura inédita da competição contribui para ampliar a relevância do tema. Embora o Mundial seja oficialmente organizado por três países, a distribuição das sedes concentra o núcleo operacional da competição nos Estados Unidos. Das dezesseis cidades anfitriãs, onze estão em território norte-americano, enquanto México e Canadá participam com três e duas sedes, respectivamente.

Essa configuração confere às decisões migratórias dos Estados Unidos um impacto que ultrapassa suas fronteiras nacionais. Como dezenas de seleções, equipes técnicas, jornalistas e milhares de torcedores precisarão circular entre diferentes países durante o evento, eventuais restrições adotadas pelo principal anfitrião influenciam diretamente a experiência global da Copa.

O crescimento exponencial das menções nas redes brasileiras sugere que essa questão já deixou de ser percebida apenas como um problema administrativo ou diplomático. Para uma parcela crescente da opinião pública, ela passou a integrar o próprio debate sobre o significado político, social e institucional da Copa do Mundo de 2026, transformando as fronteiras do país-sede em um dos temas centrais da competição antes mesmo do apito inicial.

Trump transforma a Copa em palco de sua própria narrativa

Um fenômeno incomum passa a moldar a percepção do torneio: a figura do presidente Donald Trump tornou-se um dos personagens centrais de um evento que, em tese, deveria ser protagonizado por jogadores, seleções e torcedores.

Mais do que anfitrião indireto da competição, Trump passou a ocupar um espaço simbólico que transcende as funções institucionais de um chefe de Estado. Para seus críticos, o presidente norte-americano converteu-se em uma espécie de árbitro político do Mundial, influenciando quem entra, quem participa e sob quais condições o espetáculo será realizado.

A percepção ganhou força à medida que decisões do governo passaram a interferir em aspectos tradicionalmente associados ao caráter universal da Copa. A promessa de integração internacional que acompanhou a candidatura conjunta de Estados Unidos, México e Canadá acabou sendo confrontada por medidas que, segundo opositores, reforçam divisões políticas e nacionais justamente em um evento concebido para aproximar povos e culturas.

Nesse cenário, as fronteiras assumem uma importância tão grande quanto os estádios. O torneio deixa de ser apenas uma competição esportiva para se tornar também um espaço de demonstração de poder político, onde as regras não são definidas exclusivamente pelas entidades do futebol ou pelas dinâmicas do jogo.

A retórica adotada por Trump em relação aos próprios parceiros da organização do Mundial contribui para essa interpretação. Ao longo dos últimos anos, o Canadá foi repetidamente alvo de declarações que colocavam em dúvida sua autonomia política diante dos Estados Unidos, enquanto o México continuou sendo retratado sob uma ótica marcada por conflitos migratórios, disputas comerciais e estereótipos amplamente criticados por analistas e organizações civis.

Essa linguagem acaba produzindo um contraste evidente com a imagem que a Copa historicamente busca projetar. Em vez de enfatizar cooperação, intercâmbio e convivência internacional, o debate político em torno do torneio frequentemente gira em torno de disputas de soberania, segurança nacional e controle de fronteiras.

O resultado é uma inversão de protagonismo. Antes mesmo do início das partidas, grande parte da atenção pública passou a se concentrar em decisões governamentais, embates diplomáticos e declarações presidenciais. O noticiário político disputa espaço com a cobertura esportiva, enquanto temas externos às quatro linhas influenciam a forma como o evento é percebido em diferentes partes do mundo.

Essa realidade impõe um desafio adicional à própria competição. Para muitos observadores, apenas o futebol será capaz de deslocar novamente o centro das atenções. Grandes atuações, gols memoráveis, histórias improváveis e campanhas surpreendentes surgem como os únicos elementos capazes de romper a centralidade adquirida pela política na narrativa do Mundial.

Nada disso elimina as controvérsias que cercam a edição de 2026. Tampouco apaga as críticas dirigidas à relação entre a Fifa e o governo norte-americano durante a preparação do torneio. No entanto, a história das Copas demonstra que acontecimentos dentro de campo frequentemente desafiam previsões e reconfiguram a memória coletiva dos eventos.

Quando a distância do tempo substituir as disputas imediatas, é possível que as lembranças mais duradouras não sejam necessariamente as tensões diplomáticas ou os confrontos políticos que antecederam a competição. O futebol possui uma capacidade singular de produzir imagens que sobrevivem às circunstâncias que as cercam.

A questão que permanece em aberto é qual narrativa prevalecerá quando a Copa de 2026 for analisada pelas próximas gerações. Se, de um lado, o torneio já carrega o peso de controvérsias políticas sem precedentes para uma edição realizada na América do Norte, de outro, existe a possibilidade de que os momentos criados pelos atletas recuperem parte do protagonismo perdido ao longo da preparação.

Até lá, permanece a sensação de que a disputa mais visível da Copa começou antes mesmo do primeiro apito. E, por enquanto, ela ocorre fora dos gramados.

E então?

A Copa do Mundo de 2026 talvez seja lembrada no futuro por seus gols espetaculares, por uma seleção improvável ou por alguma final inesquecível. O futebol tem essa capacidade singular de produzir narrativas que sobrevivem aos seus próprios organizadores. Mas, antes que a memória esportiva faça seu trabalho, permanecerá o registro de um torneio que começou cercado por denúncias de discriminação, restrições migratórias, exclusão econômica e complacência institucional.

Ao aceitar que barreiras políticas interferissem no caráter universal da competição e ao optar pelo silêncio diante de episódios que atingiram árbitros, atletas, jornalistas e torcedores, a Fifa colocou em xeque os valores que há décadas utiliza para promover o esporte. A questão que ficará para a história não é apenas quem venceu dentro de campo, mas como o maior evento esportivo do planeta reagiu quando confrontado com práticas que contradiziam seu próprio discurso.

Se o futebol costuma ser apresentado como uma ferramenta de aproximação entre povos, a Copa de 2026 será lembrada como o momento em que essa promessa foi submetida ao teste mais duro de sua história recente. E a resposta dada por seus dirigentes, para muitos críticos, revelou que entre princípios e conveniências, o espetáculo escolheu o lado do poder.

SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON

CORTINA TARIFÁRIA


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *