22/02/2024 - Edição 525

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‘Mundo não pode abandonar Gaza’, apelam líderes de órgãos internacionais

Confederação Israelita quer prisão de quem critica massacre perpetrado por Israel contra palestinos

Publicado em 31/01/2024 12:43 - Jamil Chade (UOL), ICL Notícias – Edição Semana On

Divulgação Trabalhadores da UNRWA em Khan Yunis, sul da Faixa de Gaza Imagem: MAHMUD HAMS

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Numa rara declaração conjunta, os chefes das principais entidades internacionais fizeram um apelo na noite de terça-feira (30) para que os governos desistam da ideia de suspender recursos para a agência da ONU para os refugiados palestinos, a UNRWA. A iniciativa ocorre no mesmo dia em que o maior doador, o governo dos EUA, anunciou que vai exigir uma reforma completa da entidade, antes de voltar a dar recursos. Já Israel chama a agência da ONU de “fachada para o Hamas”.

Em Nova Iorque, uma reunião de emergência foi realizada entre a entidade e seus principais doadores, depois dos escândalos envolvendo a suspeita de que doze dos 13 mil funcionários da agência teriam participado dos ataques do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023. Israel ainda acusa 190 funcionários da agência da ONU de serem agentes duplos do Hamas.

Como resultado, 17 países anunciaram que estão suspendendo os repasses para o organismo em Gaza, responsável por atender a 2,2 milhões de pessoas. Juntos, esses doadores representam mais de 50% do orçamento da entidade que já avisou que deixará de operar ao final de fevereiro se os recursos não forem restabelecidos.

“As alegações de envolvimento de vários funcionários da UNRWA nos hediondos ataques a Israel em 7 de outubro são horríveis”, afirmam os diretores das principais agências internacionais e da ONU. “Como disse o secretário-geral (António Guterres), qualquer funcionário da ONU envolvido em atos de terror será responsabilizado”, alertaram.

Mas eles apontam que não é hora de deixar Gaza sem dinheiro.

“Não devemos impedir que uma organização inteira cumpra seu mandato de atender pessoas com necessidades desesperadas”, afirmam.

“Os eventos angustiantes que vêm ocorrendo em Gaza desde 7 de outubro deixaram centenas de milhares de pessoas desabrigadas e à beira da fome. A UNRWA, como a maior organização humanitária em Gaza, tem fornecido alimentos, abrigo e proteção, mesmo quando seus próprios funcionários estão sendo deslocados e mortos”, explicam.

“As decisões de vários Estados-Membros de suspender os fundos da UNRWA terão consequências catastróficas para a população de Gaza. Nenhuma outra entidade tem a capacidade de fornecer a escala e a amplitude da assistência de que 2,2 milhões de pessoas em Gaza precisam com urgência”, alertam.

“Apelamos para que essas decisões sejam reconsideradas”, pedem.

Segundo eles, a UNRWA anunciou uma revisão completa e independente da organização, e o Escritório de Serviços de Supervisão Interna da ONU foi ativado.

“A retirada de fundos da UNRWA é perigosa e resultaria no colapso do sistema humanitário em Gaza, com consequências humanitárias e de direitos humanos de longo alcance no território palestino ocupado e em toda a região”, insistem.

“O mundo não pode abandonar o povo de Gaza”, completam.

Assinam a declaração:

  • Martin Griffiths, Coordenador de Ajuda de Emergência e Subsecretário Geral para Assuntos Humanitários (OCHA)
  • Jane Backhurst, Presidente do ICVA (Christian Aid)
  • Jamie Munn, Diretor Executivo, Conselho Internacional de Agências Voluntárias (ICVA)
  • Amy E. Pope, Diretora Geral, Organização Internacional para Migração (IOM)
  • Volker Türk, Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR)
  • Paula Gaviria Betancur, Relatora Especial das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos das Pessoas Deslocadas Internamente
  • Achim Steiner, Administrador, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
  • Natalia Kanem, Diretora Executiva do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA)
  • Filippo Grandi, Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (UNHCR)
  • Michal Mlynár, Diretor Executivo do Programa de Assentamento Humano das Nações Unidas (UN-Habitat)
  • Catherine Russell, Diretora Executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF)
  • Sima Bahous, subsecretária-geral e diretora executiva da ONU Mulheres
  • Cindy McCain, diretora executiva do Programa Mundial de Alimentos (WFP)
  • Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS)

EUA fazem exigências; Israel denuncia 1,2 mil envolvidos

O governo de Joe Biden, porém, deixa claro que a retomada dos repasses não será simples. A diplomacia dos EUA nas Nações Unidas disse na terça-feira que Washington precisa ver “mudanças fundamentais” antes que seu financiamento possa ser retomado.

Linda Thomas-Greenfield, embaixadora dos EUA na ONU, indicou que é hora de “analisar a organização, como ela opera em Gaza, como gerencia sua equipe e garantir que as pessoas que cometem atos criminosos, como esses 12 indivíduos, sejam responsabilizadas imediatamente para que a UNRWA possa continuar o trabalho essencial que está fazendo”.

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Matt Miller, disse na terça-feira que cerca de US$ 300.000 destinados à UNRWA foram retidos após a decisão do governo Biden de suspender o financiamento. Mas o governo americano tinha plano de enviar US$ 300 milhões em 2024 para a agência.

Enquanto isso, as autoridades de Israel ampliaram as acusações contra a ONU. Segundo a inteligência israelense, 1.200 funcionários da UNRWA supostamente teriam vínculos com o Hamas. O governo ainda acusou a agência internacional de permitir que o Hamas use sua infraestrutura para atividades terroristas.

“A UNRWA é uma fachada para o Hamas”, disse o porta-voz do governo, Eylon Levy. “Ela foi fundamentalmente comprometida de três maneiras principais: contratando terroristas em grande escala, permitindo que sua infraestrutura seja usada para atividades militares do Hamas e confiando no Hamas para a distribuição de ajuda na Faixa de Gaza”, denunciou.

OMS: acusação de Israel contra ONU é ‘distração’ para não falar de bombas

A OMS (Organização Mundial da Saúde) acusa a crise aberta por Israel contra a ONU de ser uma “distração” em relação às mortes e ataques contra Gaza.

Numa entrevista coletiva na terça-feira, em Genebra, a agência internacional condenou os ataques do Hamas e disse que os envolvidos precisam ser punidos. Mas alerta que o caso serve para tirar a atenção da crise que afeta 2,2 milhões de palestinos.

Para a OMS, o risco é de que o debate retire o foco das vítimas. “Essa discussão é uma distração do que está ocorrendo todos os dias. É uma distração sobre 27 mil mortes, dos quais 70% são mulheres e crianças”, disse Christian Lindmeier, porta-voz da OMS.

A declaração é mais um capítulo de uma relação cada vez mais tensa entre os organismos internacionais e o governo de Israel, que chegou a pedir a demissão de Guterres e mesmo do chefe da agência em Gaza, Philippe Lazzarini.

Na semana passada, Israel ainda criticou o direção da OMS. A embaixadora israelense Meirav Eilon Shahar afirmou que, “em cada um dos hospitais que as forças israelenses revistaram em Gaza, foram encontradas evidências do uso militar do Hamas”. “Esses são fatos inegáveis que a OMS opta por ignorar repetidamente. Isso não é incompetência; é conluio”, disse.

O chefe da entidade, Tedros Ghebreyesus, rebateu. “A OMS refuta a acusação de Israel de que a OMS está em ‘conluio’ com o Hamas e está ‘fechando os olhos’ para o sofrimento dos reféns mantidos em Gaza”, disse. “Essas falsas alegações são prejudiciais e podem colocar em perigo nossa equipe que está arriscando suas vidas para servir os vulneráveis”, alertou.

Agora, nesta terça-feira, a agência voltou a criticar o Ocidente e Israel por seu comportamento em Gaza. “Isso é uma distração diante do debate sobre o acesso à água e eletricidade. Essa é uma distração em relação ao continuo bombardeio contra população”, completou o representante da OMS.

Para ele, a suspeita dos envolvimentos dos funcionários da ONU é uma “importante questão criminosa”. “Mas não vamos esquecer quais são os reais temas”, alertou.

Segundo a OMS, desde que a Corte em Haia decidiu que Israel deve tomar medidas para evitar um genocídio em Gaza, a situação “apenas piorou”.

Confederação Israelita sugere à Justiça que jornalista Breno Altman seja preso

O jornalista Breno Altman está sendo alvo de uma nova ação na Justiça apresentada pela Confederação Israelita do Brasil (Conib). Agora, a entidade chega a sugerir que o profissional seja preso caso participe de lives e/ ou se expresse nas redes sociais.

Altman, que faz participações no ICL Notícias, é judeu e tem sido alvo de uma perseguição pela Conib por críticas e denúncias que faz ao sionismo de Israel.

O jornalista tem criticado o massacre em Gaza e em outros territórios palestinos. A informação sobre o pedido de prisão de Altman foi adiantada na coluna de Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, e confirmada pelo advogado do jornalista ao ICL Notícias.

Segundo a publicação, a confederação apresentou pedido ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região acusando Altman de “incitar uma caçada aos judeus” depois que o jornalista apoiou uma fala do ex-deputado José Genoíno (PT).

Genoíno, por sua vez, é acusado de antissemitismo pela entidade por sugerir boicote a empresas isralenses.

“José Genoíno está coberto de razão. O Estado colonial e racista de Israel deve ser submetido a boicote, desinvestimento e sanções, como a África do Sul durante o apartheid. Empresas apoiadoras desse regime criminoso, incluindo as brasileiras, devem receber a mesma punição”, disse Breno Altman.

O advogado de Breno Altman, Pedro Serrano, afirmou que as ações da Conib contra o jornalista configuram tentativa de censura.

“Trata-se de uma tentativa de censurar opiniões políticas do Breno, que nada têm de antissemitismo. O que ele tem é um antissionismo, ou seja, ele é crítico ao sionismo, que é uma posição política. O Breno é judeu, teve antepassados mortos em campos de concentração. Não tem nenhum sentido ele ser contra ele mesmo, contra a própria família”, disse Serrano ao jornal Folha de São Paulo.


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