22/04/2024 - Edição 540

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Morte de civis em Gaza gera onda de repúdio internacional: Brasil sobe tom, França e Alemanha cobram “explicações”

Exército israelense atira em multidão de palestinos famintos, mata mais de 100 e fere 750

Publicado em 01/03/2024 12:43 - Leonardo Sakamoto e Jamil Chade (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles), DW, ICL Notícias - Edição Semana On

Divulgação Mohammed Dahman/Flickr

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Mais de 100 pessoas foram mortas e mais de 750 feridas por tiros, pisoteio ou atropelamento após militares israelenses dispararem, na quinta (29), contra uma multidão que se reunia em torno de caminhões que levavam ajuda humanitária a Gaza. As Forças de Defesa de Israel retrucam, dizendo que teriam matado um grupo menor, cerca de uma dezena, sendo que a maioria das vítimas fatais foi pisoteada ou atropelada ao tentar pegar mantimentos.

A disputa de narrativas de guerra esconde o fato desesperador: dezenas de palestinos famintos morreram ao tentar alcançar comida para eles e seus filhos. O horror, o horror.

Essas pessoas não teriam razão para cercar caminhões um ano atrás, por mais que a vida em Gaza fosse uma merda devido aos limites impostos por Tel Aviv, que tratava o território como uma prisão a céu aberto e nega o direito da Palestina a ter um Estado próprio.

Mas após o ataque terrorista do Hamas, que matou mais de 1.100 em Israel, e a vingança israelense, que matou mais de 30 mil em Gaza, transformou o território em escombros e restringiu a entrada de alimentos, combustível, água, eletricidade e remédios, esse tipo de tragédia se tornou o novo normal.

Óbvio que o que o Hamas fez foi inominável. Mas sobram palavras no vocabulário para descrever as atitudes do governo Benjamin Netanyahu, que parece menos preocupado em resolver o retorno dos reféns israelenses em segurança para casa (o que passaria por um cessar-fogo) do que se manter no poder através de uma campanha de destruição total para que todos esqueçam seu fracasso em prevenir o 7 de outubro.

Enquanto isso, o resto do mundo gasta mais tempo discutindo se podemos ou não usar palavras como massacre, genocídio, crime contra a humanidade, holocausto e limpeza étnica do que pressionando o governo Netanyahu a interromper essa sandice.

Agora, perdendo votos de progressistas e árabes, horrorizados com o morticínio em Gaza, é que o governo Joe Biden faz alguma pressão – mas não aceita a aprovação de uma resolução no Conselho de Segurança nesse sentido.

Com todas essas atrocidades, a única certeza é que, independente do que aconteça, o Hamas não será erradicado. Israel está apenas plantando sementes de uma nova intifada através dos milhares de órfãos que sobreviverem e dos sangue de civis que serão chamados de mártires por aqueles que querem ver a roda girar.

E a roda da morte vai seguir girando. Mas, até lá, os artífices desta guerra estarão mortos, muito provavelmente sem que tenhamos a chance de julgá-los corretamente. Ressinto-me de não acreditar em inferno, pois seria um bom destino para eles. Mas eu gostaria mesmo do conforto de acreditar que, depois daqui, há um paraíso. Para que as crianças que morreram cedo demais nesse conflito – de bala, de bomba, de faca, de fome – pudessem ter uma segunda chance.

Brasil sobe tom e acusa Israel de não ter ‘limite ético’ em ataque em Gaza

O governo brasileiro acusa as autoridades de Israel de não terem “qualquer limite ético ou legal” em sua ofensiva militar em Gaza e cobra da comunidade internacional uma resposta.

Num comunicado emitido na manhã de hoje (1º), o governo afirmou que tomou conhecimento “com profunda consternação, dos disparos por arma de fogo, por forças israelenses, ocorridos no dia de ontem, no norte da Faixa de Gaza, em local em que palestinos aguardavam o recebimento de ajuda humanitária”.

De acordo com o governo Lula, as aglomerações em torno dos caminhões que transportavam a ajuda humanitária “demonstram a situação desesperadora a que está submetida a população civil da Faixa de Gaza e as dificuldades para obtenção de alimentos no território”.

As cenas também foram denunciadas pela ONU e geraram amplas críticas por parte de especialistas em direitos humanos. Os governos da Alemanha e da França cobraram de Israel “explicações” sobre o que ocorreu.

Para Brasil, trata-se de uma “situação intolerável, que vai muito além da necessária apuração de responsabilidades pelos mortos e feridos de ontem”.

Críticas ao governo Netanyahu

Na nota, o governo ataca abertamente o comportamento das autoridades de Israel, inclusive por conta de comentários feitos após os incidentes.

“Declarações cínicas e ofensivas às vítimas do incidente, feitas horas depois por alta autoridade do governo Netanyahu, devem ser a gota d’água para qualquer um que realmente acredite no valor da vida humana”, diz.

“O governo Netanyahu volta a mostrar, por ações e declarações, que a ação militar em Gaza não tem qualquer limite ético ou legal”, disse o Governo Lula.

Crise diplomática

A nota foi emitida dias depois de uma crise diplomática instalada entre os governo de Lula e de Netanyahu, depois que o brasileiro citou a Alemanha nazista numa fala sobre Gaza e qualificou a ação militar de Israel como “genocídio”.

Na ONU, a diplomacia brasileira ajustou o tom, dizendo que “o mundo poderia estar testemunhando crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes de genocídio”.

Lula foi cobrado por Israel a se desculpar, o que jamais fez. Como resultado, o brasileiro foi declarado como “persona non grata” em Israel. O Itamaraty retirou por enquanto o embaixador do país em Tel Aviv, como protesto.

Cobranças à comunidade internacional

Agora, a cobrança brasileira também é direcionada à comunidade internacional e às potências. “Cabe à comunidade internacional dar um basta para, somente assim, evitar novas atrocidades. A cada dia de hesitação, mais inocentes morrerão”, insiste o governo brasileiro.

“Autoridades da ONU e especialistas em ajuda humanitária e assistência de saúde de diferentes organismos e entidades vêm denunciando há meses a sistemática retenção de caminhões nas fronteiras com Gaza e a situação crescente de fome, sede e desespero da população civil. Ainda assim, a inação da comunidade internacional diante dessa tragédia humanitária continua a servir como velado incentivo para que o governo Netanyahu continue a atingir civis inocentes e a ignorar regras básicas do direito humanitário internacional”, destaca.

Para o governo, a “humanidade está falhando com os civis de Gaza. E é hora de evitar novos massacres”.

O Brasil ainda reafirma seu firme repúdio a toda e qualquer ação militar contra alvos civis, sobretudo aqueles ligados à prestação de ajuda humanitária e de assistência médica.

Segundo o governo, o massacre de hoje vem se somar às mais de 30 mil mortes de civis palestinos, das quais mais de 12 mil são crianças, registradas desde o início do conflito, além dos mais de 1,7 milhão de palestinos vítimas de deslocamento forçado.

“O Brasil reitera a absoluta urgência de um cessar-fogo e do efetivo ingresso em Gaza de ajuda humanitária em quantidades adequadas, bem como a libertação de todos os reféns”, diz a nota.

Por fim, o governo ainda cobra de Israel que cumpra as medidas cautelares emitidas pela Corte Internacional de Justiça, em 26 de janeiro corrente, que demandam que Israel tome todas as medidas ao seu alcance para impedir a prática de todos os atos considerados como genocídio, de acordo com o Artigo II da Convenção para a Prevenção e a Repressão e Punição do Crime de Genocídio”.

Israelenses mortos na Cisjordânia

Também nesta quinta-feira, um atirador abriu fogo em um posto de combustíveis em Eli, na Cisjordânia ocupada, matando dois israelenses, segundo informou o Exército de Israel. Os militares disseram que um terrorista chegou até o local e atirou contra os dois homens, sendo eliminado logo em seguida.

O ataque ocorreu no mesmo posto de gasolina onde quatro israelenses foram mortos por três palestinos em junho do ano passado. Há poucos dias, três palestinos mataram um israelense e deixaram vários outros feridos, incluindo uma mulher grávida, próximo ao assentamento judaico Maale Adumim.

Desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, a violência vem aumentando na Cisjordânia, com 403 mortes de palestinos por soldados israelenses ou colonos judaicos. Segundo o governo de Israel, ao menos 17 israelenses morreram no território.

Morte de civis em Gaza gera onda de repúdio internacional

O incidente gerou uma onda de condenações por parte dos países árabes, de Estados-membros da União Europeia (UE) e dos Estados Unidos.

O Egito e a Jordânia condenaram o que chamaram de “crime vergonhoso” e “atentado brutal” contra as vidas de civis. Juntamente com a Arábia Saudita, as duas nações da região acusaram Israel de atacarem civis.

O secretário-geral da ONU também condenou o episódio, afirmou seu porta-voz nesta quinta-feira. “Não sabemos exatamente o que aconteceu. Mas, se essas pessoas morreram por fogo israelense, se foram esmagadas por multidões ou atropeladas por caminhões, são atos de violência, de certo modo, vinculados ao conflito”, disse Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral, António Guterres.

“Consideramos que transformar em alvo os civis pacíficos que correm para coletar suas parcelas de ajuda é um crime vergonhoso e uma flagrante violação das leis internacionais”, disse o governo egípcio.

As três nações fizeram uma apelo à comunidade internacional para que ações decisivas sejam tomadas de modo a pressionar Israel a agir dentro das leis internacionais e trabalhar para um cessar-fogo imediato.

O Egito e o Catar negociam uma trégua entre Israel e o Hamas, assim como a libertação dos reféns mantidos pelo grupo palestino. O objetivo é chegar a um acordo antes do Ramadã, o mês sagrado muçulmano, que se inicia em 10 de março.

O diretor do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, Martin Griffiths, considerou terrível o incidente e lamentou as mais de 30 mil mortes ocorridas no enclave desde o início do conflito. “A vida está se esvaindo de Gaza em uma velocidade terrível.”

Ministro israelense elogia ação

Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, chamou de “loucura” o envio de itens básicos ao território. “Deve ser dado apoio total aos nossos heroicos combatentes que operam em Gaza, que agiram de forma excelente contra uma multidão que tentou prejudicá-los”, escreveu Ben-Gvir no antigo Twitter.

Ele reiterou uma posição defendida por ele desde os ataques do grupo terrorista Hamas, em 7 de outubro do ano passado, e que deixaram 1,2 mil mortos: a de que Israel deveria bloquear todos os envios de ajuda humanitária a Gaza até que o Hamas fosse derrotado e até que os mais de 200 reféns voltassem para casa.

“Hoje ficou provado que a transferência de ajuda humanitária para Gaza não é apenas uma loucura enquanto os nossos raptados estão detidos na Faixa em condições precárias, mas também põe em perigo os soldados das FDI (Forças de Defesa de Israel, como são chamadas localmente as Forças Armadas do país). Esta é outra razão clara pela qual devemos parar de transferir esta ajuda, que é na verdade uma ajuda para prejudicar os soldados das FDI e dar oxigênio para o Hamas”, escreveu Ben-Gvir.

Itamar Ben-Gvir é conhecido por ter feito parte do hoje banido partido Kach, considerado terrorista pelos EUA até 2022 por sua defesa dos colonos na Cisjordânia e, mais recentemente, por apresentar planos para a reocupação israelense de Gaza. Em artigo de 2022, o jornal americano The New York Times o definiu como um “extremista perigoso”.

Ben-Gvir virou ministro em 2022, quando Netanyahu montou um gabinete de extrema-direita como o país nunca tinha visto. Bezalel Smotrich, das Finanças, também defende a expulsão dos palestinos de Gaza.

Além disso, Ben-Gvir pretende limitar a entrada de árabes-israelenses e vetar todos os palestinos moradores da Cisjordânia na Esplanada das Mesquitas, um dos locais mais sagrados para o islamismo, durante o mês sagrado do Ramadã, que começa no dia 10 de março.

EUA afirmam que Israel matou mais de 25 mil mulheres e crianças

O cálculo de civis palestinos assassinados pelas forças de Israel em Gaza feito pelo governo dos Estados Unidos é ainda mais trágico que os números que vinham sendo divulgados pelo Ministério da Saúde local, dominado pelo Hamas.

Em uma audiência realizada na quinta-feira (29) no Congresso, o secretário de Defesa norte-americano, Lloyd Austin, afirmou que o governo israelense matou mais de 25 mil mulheres e crianças palestinas na região desde o último dia 7 de outubro.

A afirmação surpreende, já que os Estados Unidos são o principal aliado do governo de Benjamin Netanyahu. Até então, boa parte da imprensa brasileira lançava comentários que colocavam em dúvida a contagem de mortos feita pelo Ministério da Saúde local, por ser controlado pelo Hamas.

Pouco depois de Austin fazer a afirmação, o governo norte-americano tentou voltar atrás. “Não podemos verificar de forma independente o número de vítimas em Gaza”, afirmou em comunicado Sabrina Singh, porta-voz do Pentágono.

Ela alegou que a cifra divulgada se referia ao total de palestinos mortos, não apenas de mulheres e crianças, e que o dado, segundo ela, viria do Ministério da Saúde de Gaza.

O ministério, no entanto, divulgou algumas horas antes que o número total de mortos em Gaza é 30 mil. Ou seja: a informação do Pentágono não procede.

Pelos cálculos das autoridades de Saúde de Gaza, 70% dos mortos seriam mulheres e crianças — o que corresponde a 21 mil vítimas, número menor que o divulgado pelo secretário de Defesa no Congresso.

Lloyd Austin também informou que milhares munições guiadas de precisão foram fornecidas a Israel desde o início do atual conflito.

Análise

Palestinos famintos de Gaza foram os culpados pela morte de mais de 100 deles, soube ontem à noite pelo Jornal Nacional. Foi assim, segundo um porta-voz militar do governo de Israel: uma multidão atacou caminhões com comida que davam entrada na Faixa de Gaza, e muitas pessoas acabaram atropeladas, feridas e mortas.

Eram pessoas famintas, que sobrevivem a duras penas comendo cactos e vendo os filhos desnutridos. Em mais de quatro meses de guerra, chegaram a entrar em Gaza cerca de 500 caminhões por dia com comida, água, remédios e combustível. Ultimamente, o número caiu para 50, e há dias que Israel os impede de entrar.

Instalada a confusão, o que o Exército de Israel fez para restabelecer um mínimo de ordem? Primeiro, tanques e drones atiraram para o alto em sinal de advertência. Veja só: não adiantou. Ou porque os palestinos estão com muita fome a ponto de não se assustarem com tiros, ou porque são indisciplinados.

Aí, com todo o cuidado, os soldados de Israel atiraram na direção dos pés dos palestinos, com a preocupação de não provocar uma tragédia, contou o porta-voz do governo de extrema-direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Mas, acredite e veja como são os palestinos: continuaram avançando sobre os caminhões.

Quem seria capaz de ignorar os tiros de advertência do mais poderoso Exército do Oriente Médio, primeiro para o alto, depois na direção dos pés sem os quais, ou com eles feridos, qualquer pessoa para de andar e cai? Vai ver que só palestinos são capazes de uma proeza como essa. Foi, porém, o que aconteceu. O que fazer?

Então os soldados de Israel, segundo a versão oficial do governo de Israel, naturalmente sentiram-se ameaçados. Quem não se sentiria? Afinal, o alvo da multidão poderia não ser só os caminhões, mas também os tanques e os soldados que os cercavam. Os drones, não, porque seria impossível derrubá-los, a não ser com armas.

Ali, no cenário do conflito, fora as tropas de Israel, ninguém tinha armas. Essa é uma característica desta guerra: de um lado, um exército armado até os dentes, dispondo das mais modernas armas do arsenal dos Estados Unidos e de países europeus; do outro… Bem, o outro lado não tem Exército, a não ser um grupo de terroristas em fuga.

Se os tiros para o alto, e depois para os pés, não detiveram a multidão, os soldados de Israel atiraram na multidão. Correr o risco de serem mortos por uma multidão desarmada? E se parte dela escondesse armas? Mata-se também com as mãos. Portanto, é o que concluo, foi um ato de legítima defesa dos soldados de Israel, e ponto final.

Ponto final, ainda não, porque o presidente da França, Emmanuel Macron, saiu logo a escrever no X, ex-Twitter: “Expresso a minha mais veemente condenação destes tiroteios e apelo à verdade, à justiça e ao respeito pelo direito internacional”.

De todo modo, Macron foi prudente. Ele falou em tiroteios, mas não apontou culpados. Até Israel admite que atirou na multidão. Mas, se mais tarde ficar provado que Israel acertou ao atirar? Acertou no sentido de que não lhe restava outra coisa a fazer, não no sentido de acertar nos palestinos? Como se vê, Macron é um estadista.

Joe Biden ainda foi mais prudente do que Macron. Agências de notícias informaram de imediato: “Biden diz que ataque de Israel a palestinos dificulta cessar-fogo”.

Que mais ele poderia ter dito no calor da hora? Momentos antes, seu principal assessor para assuntos militares, em depoimento a uma comissão do Congresso, admitiu a morte de 25 mil mulheres palestinas. A fala dele foi gravada, embora a Casa Branca tenha, mais tarde, tentado corrigi-la, mas sem sucesso.

Israel é o grande porta-aviões dos Estados Unidos no Oriente Médio, afirmou Biden à época em que era senador. Não só por isso, mas também por isso, Israel dita parte da política externa americana. Os Estados Unidos acabam fazendo o que Israel quer. Não há sinais de que isso mudará um dia. A matança em Gaza não cessará tão cedo.


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