29/05/2024 - Edição 540

Mundo

Israel ataca refugiados em Gaza enquanto mundo olha para conflito com Irã

No Oriente Médio, uma loucura vai sendo encoberta pela outra

Publicado em 15/04/2024 4:21 - Leonardo Sakamoto, Josias de Souza e Jamil Chade(UOL) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O condenável ataque do Irã ao território de Israel com drones e mísseis não alterou a dinâmica de morte do governo Benjamin Netanyahu em Gaza. Neste domingo (14), milhares de refugiados palestinos foram atingidos pelo exército invasor quando tentavam voltar às suas casas no norte do território.

Vídeos que circulam pelas redes, bem como relatos de redes como a CNN, NBC e a Al Jazeera, mostram um multidão de homens, mulheres, crianças e idosos caminhando em uma estrada à beira do Mediterrâneo. Após seres bloqueados por tanques, tiros e bombas, dão meia volta e correm. Há imagens de feridos e famílias desesperadas.

Após os tiros, o pânico da multidão piorou a situação, com pessoas sendo pisoteadas enquanto tentavam escapar. Ainda não há estimativa de feridos. Boatos de que a passagem estava aberta ajudou a fomentar a onda de refugiados. As Forças de Defesa de Israel disseram à imprensa que o norte de Gaza continua sendo uma faixa de guerra e o retorno não é permitido.

Palestinos temem o ataque prometido ao extremo sul de Gaza. Ironicamente, Rafah e Khan Younis eram os portos seguros para os quais o exército havia orientado todos os palestinos a se encaminharem no inicio da invasão a fim de se protegerem. Outros reclamam de fome e sede, de doenças e condições indignas de alojamento nos campos de refugiados.

O campo de refugiados de Nuseirat registrou ataques do exército israelense, com pelo menos quatro mortos. Nas redes, a comunidade palestina teme que o acirramento da tensão entre Teerã e Tel Aviv aumente a intensidade dos ataques em Gaza – que é onde, de fato, morre gente.

O caso remete a outro, em 29 de fevereiro, quando pelo menos 110 pessoas foram mortas após militares israelenses dispararem contra uma multidão que se reunia em torno de caminhões que levavam ajuda humanitária a Gaza. As Forças de Defesa de Israel retrucaram, dizendo que teriam matado um grupo menor, sendo que a maioria das vítimas fatais foi pisoteada devido ao pânico.

Vale lembrar que essas pessoas não teriam razão para serem fuziladas ou pisoteadas em torno de caminhões de comida um ano atrás, por mais que a vida em Gaza fosse uma tragédia devido aos limites já impostos por Tel Aviv, que tratava o território como uma prisão a céu aberto.

Até agora, 33.797 palestinos morreram desde o início da retaliação israelense ao atentado terrorista do Hamas em 7 de outubro do ano passado, que matou 1.139 pessoas em Israel – números publicizados pelos dois lados do conflito.

O mundo, com medo de um conflito entre duas potências militares do Oriente Médio (Israel já havia perpetrado um condenável ataque à embaixada do Irã em Damasco, na Síria, deixando mortos), o que pode ter consequências políticas, econômicas e eleitorais (dia 5 de novembro, os norte-americanos decidirão se Joe Biden e Donald Trump governará por quatro anos), não pode esquecer que há um genocídio em curso.

No Oriente Médio, uma insânia vai sendo encoberta pela outra

A ofensiva direta do Irã contra Israel instilou no mundo o receio de uma elevação sem precedentes na temperatura do Oriente Médio. A escalada bélica ainda não atingiu o ápice. Mas o excesso de irracionalidade desestimula o otimismo. Uma insânia gera a outra, a loucura seguinte atropela a anterior, os desatinos se multiplicam em outros.

Ao massacrar 1.200 pessoas em Israel no diz 7 de outubro e 2023, o Hamas produziu o maior atentado terrorista no mundo desde o 11 de Setembro. Ao destruir a Faixa de Gaza e enviar à cova mais de 30 mil palestinos, o governo de Israel converteu o que poderia ser resposta legítima numa hedionda punição coletiva que incluiu crianças e mulheres.

Com a imagem internacional já bem estilhaçada, Bejamin Netanyahu alvejou com mão de gato, sem admitir, a embaixada do Irã em Damasco, na Síria. Matou oficiais graúdos das Guardas Revolucionárias irananias. O Irã sentiu-se à vontade para também reivindicar o seu direito de resposta.

Dispensando os ataques por procuração que costuma realizar por meio de grupos como Hamas e Hezbollah, Teerã enviou seus drones e mísseis a Israel sem intermediários. Teve o cuidado de telegrafar o ataque. Alertados, os aliados de Tel Aviv, à frente os Estados Unidos, mobilizaram-se para ajudar no abate de praticamente 100% dos artefatos iranianos.

Os dois lados fazem pose de vitoriosos. A teocracia iraniana esclarece que não é um tigre de cera. E Israel forçou potências que retiravam o pé de sua canoa a darem meia-volta. Aliados do cleptogabinete de Netanyahu, como Joe Biden, viram-se compelidos a se reaproximar. Tentam agora evitar um contra-ataque que Israel diz ser incontornável.

Tal é a quantidade de insânia que o Oriente Médio vai mudando de patamar. Não é mais uma região sujeita a escaladas bélicas, mas um pedaço do mapa condenado ao descenso eterno das opções pacíficas. Há tempos não se fala na solução dos dois Estados. Nas últimas 48 horas, sumiram do noticiário até a destruição de Gaza, com suas mais de 30 mil covas palestinas e os mais de 100 reféns que Israel não consegue resgatar. Não há humanismo que resista à insanidade.

Rachado, Conselho da ONU termina sem condenar Irã e com troca de farpas

A reunião do Conselho de Segurança, no domingo (14), para lidar com os ataques iranianos sobre Israel, se transformou em uma troca de acusações, revelou a dimensão da tensão global e um profundo racha entre as potências. EUA, Irã e Israel ainda usaram o encontro para fazer ameaças mútuas.

A sessão terminou sem uma declaração final, sem um acordo para condenar o Irã pelos mísseis disparados e sem novas sanções, como pediam israelenses. Não estava previsto que houvesse uma votação sobre uma resolução. Mas, antes do encontro, havia a esperança de que o órgão pudesse produzir pelo menos uma declaração pública sobre a crise ou mesmo um comunicado de imprensa. Nada disso foi possível.

O encontro começou com um alerta do secretário-geral da ONU, António Guterres, sobre o fato de o Oriente Médio estar “à beira do abismo” e que a segurança mundial se deteriorava “a cada hora”.

Mas quando os governos tomaram a palavra, o que se viu foi o colapso de qualquer espaço para uma posição comum. Para Teerã, a chuva de mísseis e drones disparados no sábado era uma resposta ao fato de que seu consulado em Damasco foi alvo de um ataque no dia 1 de abril. Naquele momento, um representante do alto escalão da Guarda Revolucionária foi morto.

Israel compara líder iraniano a Adolf Hitler

No encontro, o embaixador de Israel na ONU, Guilad Erdan, chegou a comparar o governo iraniano ao Terceiro Reich, na Alemanha, e o líder iraniano Ali Khamenei a Adolf Hitler. “Eles agem como o regime nazista”, disse o diplomata. De acordo com ele, os iranianos podem levar a comunidade internacional a viver uma 3ª Guerra Mundial, e insistiu que existe o risco de que Teerã se transforme numa potência nuclear. “Tentamos avisar a comunidade internacional. Mas nada foi feito”, disse.

Erdan alertou que Israel tem o “direito legal de retaliar”. “Não aceitamos inação e vamos defender nosso futuro”, disse.

O diplomata chamou o Irã de “país pirata” e “país terrorista”, e fez três pedidos:

– Para que todas as sanções possíveis sejam implementadas;

– Para que os iranianos sejam expulsos de todos os comitês da ONU,

– Para que a Guarda Revolucionária seja considerada uma entidade terrorista.

“Pare o Irã hoje”, disse Erdan, que também acusou a comunidade internacional de nãoagir. “O que vocês fizeram para defender o mundo do Irã?”, questionou. Segundo ele, o mundo ficou em silêncio por anos, enquanto o regime iraniano se expandia.

“A máscara caiu e as luvas foram colocadas. O Irã precisa pagar um preço elevado por crimes”, disse. Na sala, diplomatas sorriram quando o israelense acusou Teerã de não cumprir as resoluções da ONU. Israel é frequentemente acusado de ignorar as resoluções adotadas pelo Conselho de Segurança.

“Israel é criança mimada”, rebate iraniano

Os ataques do diplomata israelense foram respondidos, momentos depois, pelo embaixador do Irã na ONU, Amir Iravani, que chamou Israel de “criança mimada” que não aprendeu os limites do que pode fazer. Segundo ele, a ação militar que seu país adotou era “necessária e proporcional”. “Foi um gesto de autodefesa e Israel precisa ser punido”, disse.

Seu argumento foi de que o ataque era uma resposta ao fato de Israel ter atacado o consulado iraniano em Damasco, há 15 dias.

O diplomata acusou o Ocidente de “fechar os olhos” para quem causou a atual crise e chamou de hipócritas os governos da França, Reino Unido e EUA, que bloquearam há 15 dias uma declaração conjunta de condenação aos ataques israelenses contra o consulado iraniano em Damasco. “Usam mentiras e desinformação”, disse.

O embaixador ainda lançou duros ataques contra a delegação israelense, acusando o governo de Benjamin Netanyahu de cometer um “genocídio e crimes atrozes”. O Irã ainda qualificou as operações israelenses como “terroristas”.

A intervenção ainda foi marcada por um alerta dirigido aos EUA. O Irã insistiu que “não quer um confronto com os EUA”. “Mostramos moderação depois que os americanos interceptaram mísseis. Isso mostra que queremos desescalar e que não queremos expandir o conflito”, argumentou.

“Mas se os americanos iniciarem uma operação militar, vamos usar meios proporcionais”, disse. “Não vamos hesitar”, insistiu o diplomata.

EUA avisam que vão fazer proposta formal para responsabilizar Irã

Os ataques iranianos contra Israel também racharam as potências internacionais e colocam russos, chineses e americanos em lados diferentes. Para o governo de Joe Biden, Irã precisa ser responsabilizado e condenado pelas ações. Para os russos e árabes, Teerã respondeu a uma provocação por parte de Israel.

O governo americano usou o encontro para atacar o Irã e mandar um alerta: se Teerã voltar a atacar Israel ou ameaçar os EUA, o regime será “responsabilizado”. Segundo a diplomacia americana, Washington irá propor medidas contra o Irã nos próximos dias, por meio do Conselho de Segurança. Mas, até lá, pedia que o órgão condene de forma inequívoca os ataques, o que não ocorreu.

“Os EUA condenam os ataques contra Israel por parte do Irã e por seus parceiros. A meta era criar danos e mortes”, afirmou Robert Wood, embaixador americano na ONU.

Segundo ele, as “ações irresponsáveis” do Irã ameaçam a região. “A ação do Irã não pode ficar sem respostas”, insistiu. “O Irã viola suas obrigações por meio de Guarda Revolucionaria, armando grupos no Iêmen, atacando navios e armando o Hezbollah”, disse. Wood ainda acusou Teerã de transferir drones para os russos e violar direito internacional.

Para completar, o governo americano acusou o Irã de ser cúmplice de ataques de 7 de outubro, por parte do Hamas. Conforme os americanos, “por ser uma ameaça à segurança, o Irã precisa ser responsabilizado”, “Se Irã tomar medidas contra EUA e Israel, será responsabilizado”, disse.

Segundo ele, o governo Biden “não quer uma escalada” e garante que todas as ações que tomaram foram de garantir a defesa de Israel. “Mas para evitar que isso continue, precisamos condenar o que foi realizado”, disse.

“A meta é desescalar e depois voltar a uma negociava para acabar a crise em Gaza”, completou Wood.

Os governos europeus adotaram uma postura similar ao dos EUA. O governo da França condenou os ataques por parte do Irã e fez um apelo para que Teerã deixe de agir para desestabilizar a região. “Precisamos evitara uma nova guerra no Oriente Médio”, disse a diplomacia francesa.

O governo do Reino Unido também denunciou os iranianos e acusou o país de “semear o caos” no Oriente Médio.

Russos, árabes e chineses culpam Israel e não condenam iranianos

Nem todos concordaram com os americanos e europeus em condenar o Irã. Para o embaixador russo Vassili Nebenzia, a origem da mais recente crise é o ataque de Israel contra o consulado iraniano em Damasco, há 15 dias, e lembrou que Moscou chegou a propor uma declaração conjunta do Conselho. Mas a iniciativa foi barrada pelas potências ocidentais.

“É uma hipocrisia escandalosa”, disse Nebenzia, após o encontro.

Na sessão, o diplomata questionou qual seria a reação do Ocidente se um consulado tivesse sido atingido. “Seria algo sagrado. Mas, quando de outros, os direitos não são os mesmos”, disse.

“Hoje, o que vemos aqui é uma disposição de hipocrisia e que da vergonha de ver”, alertou o russo. Para ele, são os “atos provocadores” de Israel que devem ser condenados.

Segundo o diplomata, os mísseis iranianos “não ocorreram no vácuo”. “É resposta aos ataques em Damasco”, justificou.

O governo da China adotou a mesma postura e alertou que o ataque de Israel foi uma violação da soberania da Síria e do Irã. Pequim lembrou que Teerã já disse que a operação foi uma resposta e está concluído.

Para os chineses, a nova crise é “consequência de Gaza” e mostra como a questão Palestina é “central para a paz da região”. “Se chamas continuarem (em Gaza), os impactos vão continuar, fazendo da região ainda mais instável”, completou.

Na reunião, o governo da Argélia admitiu que crise ganha uma dimensão preocupante. Mas, segundo o país africano, é a “arrogância de Israel” e a ocupação de terras palestinas que está levando a uma situação crítica. “Estamos em uma encruzilhada: ou cumprimos o direito internacional, ou teremos caos”, disse a delegação argelina.

Para ele, a “raiz dos problemas é a ocupação israelense”. “Os recentes acontecimentos não podem esconder que o problema é a ofensiva contra os palestinos”, disse.

Na visão do governo argelino, uma ofensiva israelense contra Rafah seria “catastrófico”. “Desescalar terá de ser por meio de cessar-fogo em Gaza”, completou.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, abriu o Conselho de Segurança ontem (14) alertando que o Oriente Médio “está à beira do abismo”.

“Existe um risco real de um conflito de ampla escala. Esse é o momento de cautela e desescalar a crise”, insistiu.

“A hora é de dar um passo para trás do abismo”, insistiu. Segundo ele, é “vital evitar qualquer ação que possa levar a uma confrontação militar maior, em múltiplas frentes no Oriente Médio”.

“A segurança global e paz estão sendo minadas a cada hora”, alertou. “Nem a região, nem o mundo podem se permitir outra guerra”, completou Guterres.

 


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