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França quer regular sua comunidade islâmica

Publicado em 05/08/2016 12:00 -

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A França foi atacada duas vezes no último mês por terroristas inspirados em uma visão radical do islã, como aquela pregada pelo Estado Islâmico e pela Al Qaeda.

No contra-ataque, o governo francês estuda agora como regular a comunidade muçulmana de seu país e transformar o "islã na França" em um "islã francês", combatendo extremistas no território de sua narrativa.

Entre as medidas já em debate está a proibição do financiamento externo para a construção de mesquitas.

Simultaneamente, o Ministério do Interior anunciou que 20 locais de culto foram fechados desde dezembro por pregar ideologias radicais. Líderes religiosos foram expulsos pela mesma razão.

O país planeja também retomar uma fundação para a administração de mesquitas e treinar em seu território os imãs, membros da comunidade muçulmana que lideram a reza e podem, assim, ter um papel fundamental no diálogo com as autoridades.

Medidas como essas são estudadas pela senadora Nathalie Goulet (União dos Democratas e Independentes, de centro-direita) há algum tempo. Em meados de 2014, ela propôs a criação de um comitê para investigar redes de extremistas religiosos potencialmente violentos.

À época, precisou insistir na importância do tema. "Ninguém queria discutir o assunto", disse.

O debate agora é urgente no país, mas ela lamenta que o interesse venha contagiado pelas notícias negativas.

Em janeiro de 2015, homens armados invadiram a redação do semanário satírico "Charlie Hebdo", em Paris, e mataram 12 pessoas.

Em 13 de novembro do mesmo ano, atentados deixaram 130 mortos na capital francesa e imediações. Em 14 de julho último, 84 foram mortos em Nice por um caminhão. Doze dias depois, um padre foi degolado na Normandia.

"O debate sobre o islã está conectado ao terrorismo, e não é a maneira correta de discutir esse assunto."

O financiamento externo de mesquitas não é, para Goulet, o problema central. O Estado francês não pode, por lei, arcar ele próprio com essa tarefa. Proibir que os locais de culto recebam verba estrangeira causaria empecilhos a seu funcionamento.

A senadora propõe que sejam criados mecanismos eficientes de transparência, como uma fundação específica para distribuir os recursos.

A questão urgente, diz ela, é o treinamento de líderes religiosos muçulmanos no exterior. "Alguns ainda são funcionários públicos em seus países de origem", afirma. Esses líderes deveriam ser treinados na França, sugere.

Outro item em debate é a criação de um imposto dos alimentos "halal" (permitidos pela tradição islâmica). A senadora discorda disso.

"Não podemos aplicar um imposto apenas para muçulmanos. Os impostos precisam ser os mesmos para todos", afirma. "Do contrário, eles violam a Constituição."

Governo e sociedade precisam debater, também, quem representa as comunidades muçulmanas —"no plural", insiste Goulet, devido à variedade existente.

Órgãos atuais como o Conselho Francês do Culto Muçulmano não representam a totalidade dos muçulmanos, diz a senadora, e são contestados por vários setores.

A organização dessas comunidades, no entanto, cabe a elas próprias. Não deve, a seu ver, ser feita pelo governo. "O Estado pode ajudar, mas não pode se envolver, pois deixaria de ser secular."

Segurança

Os ataques recentes levaram a França a rever também suas medidas de segurança. O país considera armar policiais em algumas regiões e criar uma guarda nacional.

Outros governos também reforçaram a segurança. No domingo (31), a polícia britânica disse que um ataque ao Reino Unido era questão de "quando, não se". O alerta de ameaça ali continua no nível "severo", indicando que um atentado é considerado bastante provável.

Na Espanha, a polícia tem patrulhado a costa após o atentado em Nice. Já a Itália elevou a segurança em áreas turísticas, como o Coliseu.


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