28/02/2024 - Edição 525

Mato Grosso do Sul

Credibilidade de políticos e partidos despenca

Publicado em 25/07/2017 12:00 -

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Democracia representativa é o exercício do poder político pela população, através de seus representantes, que atuam em seu nome e por sua autoridade, isto é, legitimados pela soberania do voto popular.

Soa bem não? Ocorre que, desde que as democracias ocidentais desenvolveram este sistema, para fazerem frente a uma organização social que se tornou muito mais complexa devido ao aumento exponencial das populações – seria difícil num país como o Brasil, com 200 milhões de habitantes, fazer uma assembleia para discutir uma questão política, como era feito na democracia direta da Grécia Antiga – a legitimidade deste modelo tem sido posta a prova.

Como o poder fica concentrado nas mãos de poucas pessoas, surgem oportunidades para que ele seja usado para finalidades privadas em benefício dos próprios representantes e grupos a eles associados – corrompendo-os. O povo acaba perdendo o controle sobre as decisões. Daí para o surgimento de uma casta de iluminados que se imagina ungida pelo divino ou pelo povo para em seu nome governar é só um pulinho. O resultado é a corrupção, o autoritarismo e sociedades menos democráticas sob o ponto de vista da soberania popular.

Não é a toa que a democracia representativa anda bamba das pernas. Nos últimos anos, todas as pesquisas de medição de confiabilidade tem apontado para a desconfiança da população em relação a políticos e partidos. No ano passado, por exemplo, o Datafolha mostrou que os partidos políticos tinham a confiança plena de apenas 2% da população – 28% confiam um pouco e 69% não confiam neles enquanto instituição. Também no ano passado, o Relatório Confiança nas Profissões – uma pesquisa da organização alemã GfK Verein – concluiu que o brasileiro é o povo que menos confia em seus políticos entre as grandes economias do mundo. Apenas 6% disseram confiar em seus representantes. Outro estudo feito no ano passado – pelo Instituto Ipsos – mostrou que 79% dos brasileiros não se sente representado por nenhum partido político.

Em Campo Grande não é diferente. Um levantamento feito pela revista Semana On na primeira quinzena deste mês (veja o infográfico) ouviu 100 pessoas sobre o tema. A esmagadora maioria (68%) disse não ter “nenhuma confiança” nos políticos. Outros 20% disseram ter “pouca confiança”: 11% (média confiança); 1% (muita confiança) e 0% (total confiança). Em relação aos partidos, o nível de desconfiança também é altíssimo: 63% (nenhuma confiança); 23% (pouca confiança); 12% (média confiança); 0% (Muita confiança) e 2% (total confiança).

O sociólogo Daniel Estevão Ramos de Miranda, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos e coordenador do curso de Ciência Sociais da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) aponta que esta sensação de engodo que rege a relação entre eleitores e representantes, somada a ausência de uma cultura de participação – devido aos episódios de regime autoritários em nossa história – acabam afastando o brasileiro dos mecanismos de participação política, mesmo aqueles que não são ligados a política partidária. “Os políticos têm escolhas, e na medida em que eles desmoralizam a política, na medida em que a determinados setores do judiciário e da imprensa criminalizam a política, não ajudam a reverter esse quadro”, afirma.

Esta rejeição a todos os aspectos da política também surge no recorte do levantamento feito pela Semana On. Arguidos sobre sua relação com a política, 46% disseram considerá-la importante, embora não participem. Outros 28% disseram que não participam da política e não a consideram um fator importante em suas vidas: 74% dos entrevistados disseram, portanto, que não participam da vida política de sua cidade, estado ou país. Apenas 26% afirmaram que a política é importante e que participam dela de alguma forma.

Se a rejeição da população aos políticos e aos partidos encontra-se uma alternativa na chamada micropolítica (aquela exercida nas associações de bairro, nos sindicatos, nas ongs, etc) o problema não seria tão grave. Ocorre que, nas chamadas democracias ocidentais, não há incentivo para a participação fora da política partidária – esta participação pressupõe uma população com nível educacional e de cidadania mais elevado que o nosso.

A consequência deste impasse leva a ascensão de salvadores da pátria e ditaduras. “As ditaduras e os Estados autoritários, de fonte militar ou não, frequentemente se instalam na sucessão de reiterados fracassos da política como instrumento eficaz para enfrentar os problemas propostos para as crises econômicas e sociais consequentes”, afirma o cientista social Roberto Amaral (ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente nacional do PSB).

O jornalista e cientista político Eron Brum resume o caos. “A população, inerte, é um joguete nas mãos desta cúpula. E somos todos culpados por esta inercia. Somos bons críticos, mas péssimos analistas, porque se nos soubéssemos analisar os fatos não estaríamos esperando milagres. É o nosso sebastianismo intrínseco”, afirma Brum, referindo-se a nossa tradição lusitana de esperar por salvadores da pátria que resolvam os nossos problemas.

Campo-grandense apoia a democracia, mas abriria mão de liberdade por segurança

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) esteve em Campo Grande neste mês. Ex-militar, veio ao Estado participar das comemorações dos 150 anos da Retirada da Laguna, em Nioaque, nesta quinta-feira.

Provável candidato do partido à presidência da República, ele tem crescido nas pesquisas (16% das intenções de voto no último levantamento Datafolha) e representa uma fatia do eleitorado que, desiludida com a política e com a crise econômica, acredita que um governante com “pulso firme” pode solucionar os problemas da nação. “É um eleitorado que tende à extrema direita, que busca uma ação forte, uma imposição da vontade”, afirma o cientista político Cláudio Gonçalves Couto, da Fundação Getúlio Vargas.

O Datafolha traça um retrato bastante claro deste eleitorado: homens (68% dos apoiadores de Bolsonaro), jovens (59% de seus adeptos tem até 34 anos), com ensino superior (29%), apolíticos, habitantes dos Estados do Sudeste e economicamente privilegiados (25% têm renda mensal superior a R$ 4.686,00). Trata-se de uma pequena elite que desdenha da política e sonha com um Estado forte em detrimento de liberdades civis.

Em Campo Grande, o sentimento que dá base ao crescimento de Bolsonaro é representado por uma população temerosa, que trocaria liberdades civis por um Estado policialesco. É o que mostra o levantamento feito pela Semana On (veja o infográfico). Entre os entrevistados, 79% disseram preferir uma sociedade com mais segurança a uma sociedade com mais liberdade (21%).

Este cenário de descrença na sociedade civil e nos fundamentos da democracia, aliado ao fato de que no Brasil a democracia e as instituições do Estado são mais jovens e mais expostas às decisões de um Executivo impositivo, faz com que um presidente como Bolsonaro, com sua índole violenta e seu retrocesso em matéria de direitos humanos e costumes, represente um cenário no mínimo preocupante para o país.

O apoio à democracia na América Latina caiu para um nível histórico, segundo a última pesquisa publicada pela Corporación Latino Barómetro (de setembro passado). O Brasil é o país onde mais se verifica essa tendência – o índice caiu de 54% para 32% em apenas um ano.

Desde 1995 a organização não governamental apoiada pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) avalia anualmente o apoio dos latino-americanos à democracia como forma de governo. Somente na Guatemala – onde, em 2015, o presidente Otto Pérez Molina teve que renunciar por causa de acusações de corrupção – o índice de apoio à democracia é menor que no Brasil: 30%. Do total de entrevistados, 23% não se importam se o governo foi eleito democraticamente ou não. Em 2010, esse índice era de somente 16%.

No levantamento da Semana On, 61% dos entrevistados disseram que a democracia é importante. Outros 10% disseram que ela não é importante e 29% não tinham opinião definida: uma lacuna de 39% para aventureiros políticos. Arguidos sobre a importância de viver sob um regime democrático, 65% dos entrevistados disseram considerar isso importante; 15% disseram não ser importante viver sob uma democracia, e 20% não tinham opinião definida.

A Corporación Latino Barómetro sugere que a queda de confiança na democracia se deve aos casos de corrupção. “A sociedade mudou e o que ainda era tolerado há cinco anos não é mais aceitável. As pessoas exigem soluções concretas que precisam ser implementadas imediatamente contra problemas também concretos. Elas não estão mais dispostas a esperar para depois”, detecta o documento.


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