22/05/2024 - Edição 540

Especial

‘PATRIOTAS’ E VIRA LATAS

Bolsonaristas se unem a extrema direita internacional para vender o delírio de que estamos sob uma ditadura do judiciário

Publicado em 13/04/2024 2:10 - João Filho (Intercept_Brasil), Laura Scofield (Agência Púiblica)

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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Com seus principais líderes encurralados pela Polícia Federal e pela justiça, os bolsonaristas têm acionado a rede internacional da extrema direita para ajudar a vender o delírio de que o Brasil vive sob uma ditadura do judiciário.

Os recentes ataques de Elon Musk à democracia brasileira não são fruto de uma bad trip de um bilionário viciado em ketamina e cocaína. Antes fosse. A armação liderada pelo dono do Twitter nos últimos dias faz parte de uma estratégia articulada pela extrema direita internacional para desestabilizar democracias pelo mundo e serve aos seus interesses comerciais no Brasil.

Com a ajuda do patriotismo entreguista dos bolsonaristas, Musk passou a semana insuflando narrativas conspiracionistas, ameaçando descumprir as leis brasileiras e contribuindo para o processo de destruição da reputação do STF encampado pelo bolsonarismo.

Apesar do bilionário sul-africano gostar de posar de militante pela liberdade de expressão irrestrita pelo mundo, não é assim que a coisa funciona na realidade. O que primordialmente move esse idiota são os interesses comerciais. O personagem anarcocapitalista militante só entra em campo quando favorece seus negócios. Quando não, o militante dá lugar a um empresário cumpridor das leis.

Na Turquia, ele abana o rabinho para o governo autocrático de direita e cumpre caninamente todas as decisões judiciais. Nas últimas eleições, por exemplo, o Twitter atendeu à justiça turca e censurou contas de políticos da oposição às vésperas da votação.

Na Índia, que também é governada por uma autocracia de direita, o Twitter tem removido sistematicamente postagens críticas ao governo e banindo contas de jornalistas para cumprir decisões da justiça indiana. Ou seja, o nosso guerreirinho só veste a capa e sai à luta pela liberdade de expressão da extrema direita internacional — e/ou quando isso for interessante para seus negócios.

No Brasil, é mais interessante para Musk cumprir o papel do destemido militante ultralibertário para desestabilizar o governo. O país descobriu recentemente várias reservas de lítio, que é o metal essencial para a produção de baterias, energia solar e eólica e carros elétricos. A volta dos bolsonaristas ao poder poderia garantir a Musk — que também é dono da Tesla, fabricante de carros elétricos — livre acesso às reservas de lítio.

Quando era presidente, Bolsonaro lhe ofereceu a possibilidade de explorar nossas reservas de nióbio. Mas Musk deixou claro que o seu interesse é o lítio. Na Bolívia, país que possui uma das maiores reservas de lítio do mundo, Musk também conspirou contra o governo e admitiu abertamente o seu intuito golpista no Twitter: “Vamos dar golpe em quem quisermos!”.

Com seus principais líderes encurralados pela Polícia Federal e pela justiça, os bolsonaristas têm acionado a rede internacional da extrema direita para ajudar a vender o delírio de que o Brasil vive sob uma ditadura do judiciário. O bolsonarismo segue o seu instinto golpista e busca a qualquer custo criar uma ambiente político que inviabilize o trabalho STF e impeça a prisão de Bolsonaro.

A farsa armada por Elon Musk opera dentro desse contexto. Políticos bolsonaristas, que há pouco mais de um ano insuflaram uma tentativa de golpe no país, foram aos EUA tentar convencer parlamentares republicanos a aprovar sanções contra o governo brasileiro. É assim que agem os traidores da pátria que se dizem patriotas. “Brasil acima de tudo”, não é mesmo?

Nos últimos dias, Elon Musk participou ativamente na disseminação das mentiras e narrativas bolsonaristas. O tal “Twitter Files”, anunciado como uma bomba contra o “ditador” Alexandre de Moraes, na verdade se resume a meras trocas de emails entre advogados e funcionários do Twitter.

Um jornalista americano chamado Michael Shellenberger foi escalado para conferir algum verniz de credibilidade para esse falso dossiê. Trata-se de um picareta, uma espécie de Oswaldo Eustáquio gringo. É mais um parajornalista que desinforma deliberadamente visando atender os interesses de grandes lobbies, como o da indústria nuclear.

Com base nos emails fornecidos pelo Twitter, Shellenberger inventou que Alexandre de Moraes ameaçou funcionários da empresa de prisão caso não fossem entregues informações privadas de determinados usuários. Mais tarde, o próprio parajornalista confessou a mentira. Mas o estrago já estava feito e o objetivo do picareta atingido.

A falsa narrativa fez a cabeça de boa parte da população e deixou os bolsonaristas em polvorosa. Como se sabe, não importa se a armação parece amadora, nem que ela seja desmascarada mais tarde. O que importa é fazer a falsa narrativa circular massivamente para acabar se naturalizando como uma verdade.

Com o circo armado, parlamentares bolsonaristas convocaram Schellenberger para falar na Comissão de Comunicação do Senado. Lá, o parajornalista fez uma exaltação da liberdade de expressão absoluta garantida pelas leis americanas: “Em 1977, a Corte Suprema dos EUA resolveu que os nazistas poderiam fazer manifestações em bairros de judeus sobreviventes do Holocausto. É uma coisa incrível!”.

Realmente é uma coisa incrível. Os EUA é hoje um dos maiores caldeirões de tensão racial no mundo graças em grande parte à liberação dos discursos de ódio. É o país com o maior número de massacres do mundo e com a maior taxa de homicídios entre os chamados países desenvolvidos.

Grande parte desses assassinatos foram motivados por discursos de ódio contra minorias. Percebam como é “incrível” viver em um lugar em que supremacistas brancos desfrutam da liberdade de sair às ruas pregando o extermínio de pretos e judeus. Viva a liberdade de expressão absoluta!

Com boa parte da opinião pública contaminada pela farsa, o STF se viu obrigado a reagir à armação. Elon Musk foi incluído como investigado no inquérito das fake news, o que acabou por ajudar a fortalecer a narrativa de que Alexandre de Moraes é um ditador.

O episódio demonstra que a regulação das big techs se tornou mais urgente do que nunca. É impossível continuarmos sem uma lei regulatória das redes sociais. Ou o país enquadra essa turma ou passará os próximos anos vendo sua democracia como marionete nas mãos de bilionários estrangeiros donos de big techs.

Lembram do caso “Pavão Misterioso“? Estamos diante de uma armação do mesmo naipe, mas, dessa vez, além de atender aos interesses bolsonaristas, atende também aos interesses comerciais de um bilionário estrangeiro. O mesmo ecossistema em que floresceu o Pavão Misterioso, que pautou o debate público com um dossiê falso, está vivo, atuante e mais forte do que nunca.

É um momento difícil para a democracia brasileira. O STF virou alvo de uma orquestração internacional que visa destruir sua reputação. O bolsonarismo foi cuspido do executivo federal nas eleições, mas sua base parlamentar é grande e seus tentáculos sobre a democracia estão mais fortes do que nunca. Agora eles contam com a ajuda de um lunático bilionário que controla uma das redes sociais mais importantes do mundo e está sedento pelas nossas reservas de lítio.

Elon Musk, o parajornalista gringo e os políticos bolsonaristas mentem como respiram. São patéticos, mas muito eficientes em fazer propaganda da sua realidade paralela. É ridículo que tenhamos que lidar com esses patetas da extrema direita nacional e internacional, mas esse é o mundo na era da pós-verdade. A superação dessa realidade é um desafio que está posto não só para a democracia brasileira, mas para todas as democracias do mundo.

Como Eduardo Bolsonaro e comitiva articulam com parlamentares dos EUA punições ao Brasil

No início de março, uma comitiva de deputados brasileiros capitaneada por Eduardo Bolsonaro (PL-SP) passou cerca de uma semana em Washington (EUA) para angariar apoio político e tentar convencer os parlamentares republicanos de que o Brasil não é mais uma democracia.

Eles defendem, por exemplo, que os Estados Unidos aprovem uma lei para penalizar as autoridades brasileiras, sob a justificativa de violação dos direitos de conservadores, e que imponham sanções ao país sul-americano para que a suposta “ditadura de esquerda” seja derrotada.

Inicialmente convidados para participar em uma audiência na Comissão Tom Lantos de Direitos Humanos na Câmara dos Representantes, os parlamentares tiveram que mudar os planos quando o democrata James P. McGovern, um dos dois copresidentes da comissão, vetou o evento.

Por que isso importa?

– Direita brasileira tem buscado captar apoio internacional para construir uma narrativa de uma “ditadura de esquerda” no Brasil

– Movimento que tenta impactar as relações internacionais do Brasil com os EUA é de longo prazo e visa colher resultados no futuro

Em nota à Agência Pública, McGovern afirma que os republicanos estariam “usando o Congresso dos Estados Unidos para apoiar os negacionistas eleitorais da extrema direita que tentaram dar um golpe no Brasil”.

A influência de personalidades, empresas e políticos norte-americanos no Brasil é recorrente e um dos casos virou destaque no início desta semana, quando o bilionário sul-africano Elon Musk, dono do X (antigo Twitter), ameaçou desobedecer a ordens judiciais e criticou as ações do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do TSE, Alexandre de Moraes, em seu perfil na rede.

“Nós temos um apoio fora do Brasil muito forte”, disse o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao ser indagado sobre o caso. Como resultado, Moraes incluiu Musk nas investigações do inquérito das milícias digitais.

Comitiva de bolsonaristas nos EUA contou com a participação dos deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Gustavo Gayer (PL-GO), Marcel van Hattem (Novo-RS), Bia Kicis (PL-DF), Zé Trovão (PL-SC), Amália Barros (PL-MT), Mário Frias (PL-SP), André Fernandes (PL-CE), Paulo Bilynskyj (PL-SP), Coronel Chrisóstomo (PL-RO), Messias Donato (Republicanos-ES), Coronel Ulysses (União-AC), Delegado Caveira (PL-PA), José Medeiros (PL-MT) e Marcelo Moraes (PL-RS)

Ditadura fake in Brazil

Em 12 de março, em vez de participar de uma audiência formal, os deputados bolsonaristas fizeram uma coletiva de imprensa em frente ao Capitólio ao lado do segundo copresidente da Comissão Tom Lantos, o republicano Chris Smith. “Desde o final de 2022, os brasileiros têm sido sujeitos a violações de direitos humanos cometidas por autoridades brasileiras em grande escala”, disse Smith.

O deputado norte-americano também chamou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que tem atuado para combater a desinformação nas eleições, de “ministério da verdade”, terminologia comumente usada pelos bolsonaristas. Para abordar os “problemas” brasileiros, Smith afirmou que apresentaria “muito em breve” um projeto de lei intitulado “Lei Brasileira de Democracia, Liberdade e Direitos Humanos”.

O comentarista político Paulo Figueiredo, que acompanhou os políticos bolsonaristas em Washington, chegou a apresentar, durante transmissão ao vivo em seu canal no YouTube, um documento do que seria a lei proposta por Smith, “um pouco do que a gente está desenhando como resolução para o Brasil”. Trata-se do projeto H. R. 6.954, apresentado em janeiro deste ano pelo próprio Chris Smith, ainda em fase inicial de tramitação. O texto, na verdade, trata da Nicarágua, o que não foi citado no vídeo.

Figueiredo ainda leu partes do documento, como as que propõem sanções e penalidades para as autoridades nicaraguenses em caso de desobediência. “Está tudo aqui, não é brincadeira, o projeto de lei vai ser apresentado, um projeto de lei sobre o Brasil dentro do Congresso dos Estados Unidos. Foi isso, esse é o tipo de vergonha que Alexandre de Moraes e companhia estão submetendo o Brasil”, afirmou.

Paulo Figueiredo segura o projeto e posiciona o dedo em cima da palavra Nicarágua, que mostraria que o documento não aborda o Brasil

Após o cancelamento da audiência da Comissão Tom Lantos, os deputados bolsonaristas utilizaram o burburinho e a chancela de Chris Smith, atualmente no 21º mandato, para interpelar republicanos e tentar angariar apoio para a realização de audiências sobre o Brasil em outras comissões na Câmara, como a Comissão de Relações Exteriores (Committee on Foreign Affairs) e o Comitê de Apropriações (Committee on Appropriations), que regula as despesas do governo estadunidense.

Smith e os parlamentares republicanos Maria Elvira Salazar, Rich McCormick e Bill Huizenga tiveram agendas com os direitistas brasileiros. Os quatro são integrantes da Comissão de Relações Exteriores, na qual os bolsonaristas têm depositado expectativa quanto à realização de uma possível audiência sobre a democracia brasileira.

Além deles, os parlamentares e outros integrantes da comitiva disseram ter se encontrado com os congressistas republicanos John Moolenaar, Ralph Norman, Morgan Luttrell, Andrew Clyde e Mario Díaz-Balart. “Todos esses são votos que nós já estamos colhendo para assinar, para serem corresponsáveis do Brasil Act. E vamos bater nas portas, vamos bater nas portas uma a uma”, disse Figueiredo durante transmissão ao vivo em Washington. Os deputados norte-americanos não divulgaram encontros com os brasileiros nas redes sociais.

O deputado Gustavo Gayer ainda afirmou que a comitiva se encontrou com Robert Destro, que foi secretário adjunto do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho no governo Trump, e Eduardo Bolsonaro deu entrevista a Sebastian Gorka, ex-vice-assistente do presidente. O vídeo da entrevista foi removido do YouTube por violar os termos de serviço da rede.

Na noite de quarta-feira, 13 de março, Eduardo, Mário Frias (PL-SP) e Donald Trump jantaram no resort Mar-a-Lago, propriedade do ex-presidente norte-americano, na Flórida. Na ocasião, o deputado ligou para seu pai, e os dois ex-mandatários conversaram por videochamada.

Cartilha de movimentos replicada no caso do Brasil

Para o especialista brasileiro em direitos humanos e ex-secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) Paulo Abrão, os bolsonaristas têm utilizado “o mesmo manual de advocacy que as dissidências cubanas, venezuelanas e nicaraguenses exiladas dentro dos Estados Unidos”, sem, no entanto, representar uma resistência legítima como os grupos sociais desses países.

“Os bolsonaristas estão, de forma ilegítima, tentando seguir esse mesmo roteiro, tentando equiparar o governo Lula com governos ditatoriais da região. Não é à toa que eles estão utilizando exatamente essa linha, porque é a linguagem e a gramática que funciona para ativar esses outros foros. A gramática de nomear como ditadura, como governo autoritário, como violador de direitos humanos, como um narcogoverno”, acrescenta.

Abrão aponta que as relações entre os bolsonaristas e outros integrantes da direita latino-americana foram costuradas na Flórida, onde vivem os exilados latinos e integrantes de grupos bolsonaristas organizados, além de Paulo Figueiredo e Allan dos Santos.

Um dos grupos ativos no estado é o Yes Brazil USA, que, de acordo com apuração da Pública, foi um dos responsáveis por organizar a agenda de Jair Bolsonaro nos três primeiros meses de 2023, quando o ex-presidente viveu nos Estados Unidos. Em publicação nas redes, Gustavo Gayer disse que a comitiva de deputados recebeu “um apoio gigantesco” do grupo. “Sem o pessoal do Yes Brasil eu acredito que isso não teria funcionado, isso não teria alcançado a magnitude que nós conseguimos alcançar”, afirmou.

Após ação nos EUA, comitiva de bolsonaristas viajou à Europa para denunciar suposta ditadura no Brasil

Apelo intercontinental por intervenções

Convencer o mundo de que o Brasil não é mais uma democracia é um dos focos atuais do bolsonarismo. Os deputados têm viajado a diferentes países, marcado agendas e distribuído materiais aos parlamentares norte-americanos – como a petição The truth about the democracy in Brazil [A verdade sobre a democracia no Brasil, em tradução livre], de autoria do deputado Gustavo Gayer.

A Pública acessou o documento, que traz a insígnia do Congresso Nacional e argumenta que o TSE estaria “processando e culpando oponentes do atual presidente da República sem a menor base probatória, tudo com a única intenção de aniquilar a oposição ao atual governo”. A petição conta com a assinatura de 40 deputados e dois senadores.

Documento com 41 páginas, de autoria de Gustavo Gayer, destaca, em inglês, composição dos poderes brasileiros e casos de supostas violações dos direitos humanos

Nesta semana, integrantes da comitiva bolsonarista que foi aos EUA viajaram ao Parlamento Europeu, entre eles Gayer, que está produzindo outra petição sobre a democracia brasileira, desta vez direcionada aos políticos da Europa, como informou representante do gabinete dele à reportagem.

No ano passado, a Pública mostrou que Eduardo Bolsonaro, principal articulador internacional do movimento, fez ao menos 125 reuniões com membros da extrema direita do continente americano. De acordo com postagem em suas redes, ele ainda planeja ir à Alemanha, Hungria e Israel neste ano.

Muito além do barulho no Capitólio

Além das agendas com deputados norte-americanos, a comitiva bolsonarista em Washington fez reuniões em instituições de extrema direita. Encontraram-se, por exemplo, com Matt e Mercedes Schlapp, os organizadores da Conferência da Ação Política Conservadora (CPAC), evento que terá sua quinta edição brasileira em julho, em Santa Catarina.

Após a reunião, o CPAC lançou um posicionamento sobre o Brasil no qual critica os governos Biden e Lula e pede que o país “liberte imediatamente os presos por processos políticos”. O presidente da iniciativa, Matt Schlapp, defendeu também que a administração Biden “imponha sanções ao governo brasileiro por suas flagrantes violações dos direitos humanos contra seu próprio povo”.

Comitiva de deputados e apoiadores se reuniu com presidente do CPAC em 13 de março

A comitiva também visitou laboratórios de ideias [think tanks] conservadores, como o Cato Institute. O analista político Andrés Martínez-Fernández, inclusive, representou a Heritage Foundation e acompanhou o movimento bolsonarista na capital estadunidense – a Heritage, também visitada, serviu de inspiração para a criação do Instituto Conservador-Liberal de Eduardo Bolsonaro. “Esta é uma situação que merece uma resposta dos Estados Unidos para garantir que não vejamos o Brasil seguir o caminho perigoso que está trilhando atualmente”, disse Martínez-Fernández.

O grupo também se reuniu com Christian Halveston, da organização cristã Cedars House. “Fizemos destaques importantes daquilo que tem acontecido na democracia brasileira e fomos ouvidos”, disse o deputado Messias Donato em vídeo sobre o encontro.

Quem também teria demonstrado apoio ao movimento bolsonarista foi o grupo de lobby The Conservative Caucus, que, segundo Paulo Figueiredo, organizou uma recepção para a delegação em 12 de março no Capitol Hill Club, local frequentado por republicanos. O comentarista disse também ter se encontrado com a Alliance Defending Freedom (ADF), que se autodescreve como grupo que “promove o direito dado por Deus de viver e falar a verdade”, para discutir o acesso à CIDH.

Na quarta-feira, 13 de março, a comitiva foi recebida pela CIDH e apresentou petição assinada por 76 parlamentares que atribui a Moraes “atos tirânicos”. O documento foi elaborado pelo integrante Coronel Ulysses. Na reunião, Allan dos Santos chegou a afirmar que o grupo está “desesperado” e que a prisão dos golpistas de 8 de janeiro é “uma piada”. Não foi a primeira vez que os bolsonaristas apresentaram petições à CIDH. Em novembro de 2022, Paulo Figueiredo e Carla Zambelli (PL-SP) fizeram o mesmo, mas as denúncias ainda não tiveram resultados.

mo “um grupo de pressão”, explicou a antropóloga Isabela Kalil, professora da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e coordenadora do Observatório da Extrema Direita, em entrevista à Pública. Além disso, podem auxiliar com financiamento, com compartilhamento de recursos e com a elaboração de estratégias em busca de apoio internacional. Kalil e Abrão concordam que uma possível volta de Donald Trump à presidência pode fortalecer as denúncias dos bolsonaristas.

Os próprios parlamentares dizem estar percebendo que a insistência nas visitas ao exterior tem gerado resultados: “No início, quando a gente falava, parecia que a gente estava falando alguma coisa descabida”, afirmou a deputada Bia Kicis (PL-DF), uma das integrantes da comitiva de março, à Epoch Times Brasil, que entrevistou vários membros da delegação. “Havia uma certa desconfiança, por falta de conhecimento mesmo, mas com as participações do Eduardo no CPAC, com o contato dele, da família Bolsonaro com o Trump, isso tudo foi trazendo à luz o que está acontecendo no Brasil”, avaliou.

Copresidente da Comissão Tom Lantos de Direitos Humanos, o democrata James P. McGovern.

Bastidores de uma audiência cancelada: “Sem precedentes”

Em 5 de março, antes mesmo de receber a confirmação de McGovern, o copresidente democrata da Comissão Tom Lantos de Direitos Humanos, de que a audiência poderia ocorrer, o deputado republicano Chris Smith convidou 26 senadores e 70 deputados a comparecer no evento sobre a “crise da democracia, liberdade e o Estado de Direito” no Brasil.

A Pública acessou o convite, enviado ao gabinete do senador Eduardo Girão (Novo-CE), via Lei de Acesso à Informação (LAI). O texto cita supostas violações e silenciamentos da “mídia de oposição” para pedir o comparecimento do convidado. “Sua posição e responsabilidades como autoridade eleita fazem do senhor uma fonte inestimável de conhecimento da situação no seu país e qualificado de forma única para representar as preocupações dos brasileiros”, diz o documento.

Girão conheceu Smith antes mesmo de ser eleito, em uma articulação contrária ao direito ao aborto, mas disse à reportagem que reatou o relacionamento com o parlamentar em novembro do ano passado, quando da ida de outra delegação de bolsonaristas para Washington. De acordo com ele, foi naquela ocasião que surgiu a ideia de fazer uma audiência na Comissão de Direitos Humanos. Girão visitou Smith novamente em janeiro deste ano e também afirmou que, caso o evento tivesse sido mantido, ele e outros sete senadores teriam ido aos EUA.

Leia o documento

À Pública, um assessor do gabinete de McGovern disse que o gabinete foi informado de que o republicano gostaria de fazer a audiência no fim do dia 5 de março e que não tinha conhecimento de que Smith havia convidado os parlamentares brasileiros naquele mesmo dia. De acordo com ele, não é comum que a comissão, que busca ser imparcial, ouça congressistas ativos no cargo como testemunhas, o que foi um dos motivos que levou McGovern a discordar da realização do evento. Ele classificou o envio do convite pelo republicano aos parlamentares brasileiros como “sem precedentes”.

O assessor ainda afirmou que não é a primeira vez que a realização de uma audiência na Tom Lantos é impedida por um dos copresidentes, ao contrário do propagado pelos integrantes da comitiva bolsonarista nas redes sociais. Disse que, no ano passado, McGovern teria sugerido uma audiência sobre os direitos das mulheres no Oriente Médio, com a presença de Geeta Rao Gupta, embaixadora do Escritório de Questões Femininas no Departamento de Estado dos EUA, e Smith teria negado devido às convicções da convidada sobre o direito ao aborto. A audiência também foi cancelada.

Em nota oficial, McGovern citou a presença de Paulo Figueiredo entre as testemunhas como um dos motivos para o cancelamento. “Aqueles que atacaram o Congresso brasileiro foram inspirados pela insurreição de Trump, e os republicanos querem dar-lhes cobertura. Entre as testemunhas propostas estava Paulo Figueiredo Filho – um empresário de extrema direita que se gaba das suas ligações com Trump – que está sob investigação criminal pelo seu papel na conspiração para anular as eleições brasileiras”, afirmou.

A Pública tentou contato com o deputado republicano Chris Smith, para entrevista ou resposta oficial, mas não obteve retorno. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.


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