22/02/2024 - Edição 525

Entrevista

Boff: humano parte da natureza seria “salvação da Terra”

Pioneiro ao mesclar teologia e ecologia, Leonardo Boff aborda seu novo livro, em que defende uma mudança de postura de sociedade para que "talvez" haja esperança para "o futuro da civilização"

Publicado em 18/12/2023 9:56 - Edison Veiga - DW

Divulgação EBC

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Aquilo que para os olhos do mundo só se tornou possível nos últimos anos, com os documentos e declarações de papa Francisco, o teólogo brasileiro Leonardo Boff já fazia desde os anos 80 e 90: mesclar teologia com ecologia. Ou, nas palavras dele, fazer ecoteologia da libertação.

Em entrevista à DW, Boff diz que a consolidação inaugural dessa forma de teorizar questões e propor soluções para o mundo, sob o prisma ambiental, se deu com seu livro Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, cuja primeira edição data de 1995. “Nele, tento desenvolver as várias tendências da ecologia em diálogo com as modernas ciências”, comenta.

Frequentemente citado por vaticanistas como consultor do papa para assuntos do tipo, o teólogo brasileiro é humilde ao lembrar que Francisco tem também “outras contribuições” e “outras fontes de inspiração”. Mas segue teorizando a respeito, aprofundando as questões. 

Em Terra Madura, livro que chegou às livrarias neste mês, Boff propõe que a humanidade abdique da “arrogância de querer ser Deus” e se coloque no mesmo patamar das demais criaturas.

 

Vamos partir do tema do seu novo livro, Terra Madura. O senhor acredita que um mundo menos antropocêntrico pode ser a solução para a tragédia climática?

O núcleo principal da crise de nosso paradigma reside no fato de ter colocado o ser humano acima e fora da natureza, apresentando-o como dominus, seu mestre e dono. Os pais fundadores dessa visão de mundo, [os filósofos] Francis Bacon, Kepler, Descartes e outros, entenderam a Terra como uma realidade meramente extensa e sem propósito, posta a serviço do ser humano, que poderia fazer dela o que quisesse.

O eixo estruturador dessa leitura da realidade foi a vontade de poder, e o poder entendido como capacidade de dominação da Terra, dos povos — da África, América do Sul e parte da Ásia —, das classes, da natureza, da matéria […] e da vida, até seu código genético. Imaginou-se o pequeno deus na Terra. Essa postura criou a tecnociência, como o grande instrumento de dominação. Trouxe inegáveis vantagens para a vida humana, como o antibiótico e outras comodidades para a vida. Mas simultaneamente criou o princípio de autodestruição com armas químicas, biológicas e nucleares, com as quais pode exterminar a si mesmo e destruir toda a vida humana no planeta, sem deixar ninguém para contar a história.

A outra alternativa seria ter entendido o ser humano como parte da natureza, por ter a mesma origem do barro originário da Terra e, o que sabemos hoje cientificamente, pelo fato de possuirmos o mesmo código genético de base junto com os demais seres vivos: os mesmos 20 aminoácidos e as mesmas quatro bases nitrogenadas. Tal constatação o faria sentir-se irmão e irmã de todos os demais seres vivos, como foi visto pela Carta da Terra [declaração de princípios éticos para uma sociedade justa] e pelas duas encíclicas ecológicas do papa Francisco [Laudato Si’, de 2015; e Fratelli Tutti, de 2020]. Todos irmãos e irmãs: entre os humanos e entre todos os demais seres vivos da natureza. Esse paradigma do frater está sendo proposto como alternativa ao dominus. Se for tomado a sério e se for entendido como outro paradigma de relacionamento, terno e fraterno, entre os humanos e estes com toda a natureza, significaria o caminho de salvação da Terra viva e, talvez, o futuro de nossa civilização.

O senhor foi apontado como um dos consultores do papa Francisco, principalmente quando ocorreu a publicação da encíclica Laudato Si’. Acredita que há uma convergência entre os dois, no sentido de que ambos partem do cristianismo e repensam o papel do homem frente à natureza?

Há duas novidades na encíclica Laudato Si’. A primeira é [que se trata de] um texto dirigido a toda a humanidade, e não somente aos cristãos. O papa deu-se conta da urgência da questão ecológica, claramente expressa na Fratelli Tutti com esta grave advertência: “estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. A segunda novidade reside no fato de ter assumido os resultados mais seguros das ciências da vida e da Terra e tê-los assumido como fio condutor de todo o discurso, estruturado numa ecologia integral e não meramente verde: ambiental, política, econômica, cultural e espiritual. Como afirmaram eminentes ecólogos: com esse texto o papa se colocou na ponta da discussão ecológica mundial. O papa bebeu de várias fontes, possivelmente de um livro meu com o qual teria inaugurado uma ecoteologia da libertação já nos anos 80. Nele, tento desenvolver as várias tendências da ecologia em diálogo com as modernas ciências. Mas o papa assimilou outras contribuições e de outras fontes de inspiração, também daquela tipicamente cristã.

Essa preocupação ecológica fez do papa o primeiro sumo pontífice a demonstrar publicamente preocupações ambientais, inclusive valorizando eventos como a Conferência do Clima da ONU (COP). Nesse sentido, ele é um papa que desce do outrora onipotente trono de Pedro e dialoga com outros de igual para igual? Ou isso é resultado do senso de urgência que o tema exige?

Não devemos esquecer que o papa Francisco se inscreve dentro da teologia da libertação de vertente argentina, [corrente católica] que enfatiza a libertação do povo oprimido e da cultura silenciada. Esse tipo de teologia, através do papa Francisco, chegou ao centro da cristandade, representada pelo Vaticano e pelos discursos do próprio pontífice. Característica da teologia da libertação, em suas várias vertentes, é sempre partir da realidade concreta, do ver. Em função desse “ver”, [ele] tem dialogado com as várias ciências, do humano, do social, do antropológico e da questão dos sistemas de produção, especialmente do capitalismo, responsável maior pelas desigualdades sociais.

Esse ver exige um julgar analítico sério a partir das ciências e também a partir dos dados bíblicos e teológicos. Daí se deriva a parte mais importante que é o agir, de forma libertadora e não apenas reformista. O papa articula suas intervenções sempre dentro deste rito metodológico. Por isso, possui boa informação e conhecimento dos vários dados científicos. Raramente produz um discurso somente para o interno da Igreja, mas sempre articulando-se com a realidade do mundo, com sua complexidade, conflitos e esperanças. Isso é novo com referência aos documentos pontifícios que se baseavam praticamente sempre nas fontes internas da fé cristã, da Bíblia, da tradição teológica e especialmente da tradição dos pronunciamentos pontifícios.

Eis uma das razões por que este papa é ouvido pelo mundo secular. Ocupa-se e preocupa-se mais com os destinos da humanidade, do planeta Terra do que simplesmente com os problemas internos da Igreja. Por essa razão seu propósito era participar na COP28 em Dubai para oferecer sua colaboração acerca do grave problema do aquecimento já irreversível do planeta Terra. [Depois de confirmar que participaria, Francisco cancelou a ida ao evento por problemas de saúde.]

O senhor acompanhou as discussões do Sínodo sobre a Amazônia? O quanto avançou e o quanto poderia ter avançado mais?

O simples fato de ter convocado um Sínodo sobre a Amazônia especificamente nos dá a dimensão do interesse do papa Francisco pelos destinos do futuro da Terra viva. Sabe que o equilíbrio climático e a perpetuidade da vida sobre este planeta dependem, em grande parte, como é tratado o imenso bioma amazônico. Este recobre oito países e sua preservação é fundamental para o futuro da vida humana. Simultaneamente, colocou também a questão da evangelização: como fazer um encontro com as centenas de etnias de povos originários, com suas tradições e sabedoria ancestral com a mensagem evangélica?

Sua tese de base é sempre que esses povos devem incorporar no quadro de suas culturas a mensagem cristã, assim como fizeram os gregos e os romanos, nos inícios do cristianismo, que deram origem ao que é hoje a Igreja Católica. Sua intenção originária era que homens casados e aprovados pela comunidade, os viri probati, fossem ordenados e pudessem presidir as comunidades como o fazem os padres atualmente. Mais adiante pensou em mudar, ao invés de viri probati, se mudasse para personae probatae [pessoas aprovadas], o que abriria caminho para a ordenação de mulheres ao sacerdócio. Havia até prometido aos bispos vivendo na Amazônia que suscitaria esta questão no Sínodo. Mas logo deu-se conta da resistência fortíssima de membros do governo central da Igreja […] e de outros grupos mais conservadores. Isso poderia gerar uma divisão na Igreja. E desistiu da ideia.

Como entusiasta e participante ativo do Fórum Social Mundial, sobretudo das primeiras edições, como o senhor vê o papel desse espaço hoje, neste mundo cada vez mais polarizado e com figuras extremistas surgindo em diversos países?

Vejo com pesar que os Fóruns Sociais Mundiais estão perdendo cada vez mais força. Isso se deve a uma discussão interna nunca resolvida: seria um encontro dos movimentos sociais mundiais para trocarem experiências ou seria um espaço para conjuntamente tomarem algumas decisões no sentido de se confrontarem com o sistema de dominação mundial pela ordem capitalista? Está prevalecendo a primeira versão. Isso tem desanimado a muitos grupos que veem anuladas as ações que obrigariam os poderosos do mundo a colocar na sua agenda a temática mundial dos pobres, dos excluídos e portadores de alternativas ao paradigma vigente. Mesmo assim, tem valido a pena, pois todos se dão conta de que devemos resistir, denunciar e rejeitar as propostas dos donos do poder e do dinheiro, que não tomam em conta o destino de grande parte da humanidade.


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