22/05/2024 - Edição 540

Entrevista

“Reforma da governança global é chave para crise climática”, diz presidente do Ipea

Coordenadora de grupo de think tanks ligado ao G20, Luciana Servo analisa o desafio de se encontrar soluções para problemas globais em um mundo polarizado

Publicado em 13/05/2024 10:14 - Marcio Damasceno – DW

Divulgação Foto: Renan Mattos/REUTERS

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A crise do clima é um dos principais desafios a serem abordados neste ano pelo G20, o grupo das 19 maiores economias do mundo mais União Europeia e União Africana, no momento presidido pelo Brasil. 

A análise é da economista Luciana Servo, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que coordena o T20 Brasil, grupo de cerca de 80 think tanks encarregados de debater e encaminhar recomendações e propostas a serem abordadas neste ano pelo G20.

A tragédia das enchentes que afetam o Rio Grande do Sul serve como alerta para a urgência em se encontrar soluções para deter o aquecimento global e chegar a um modelo econômico sustentável com inclusão social, uma das prioridades declaradas da presidência rotativa brasileira do fórum multinacional.

“Há emergência em se pensar a questão climática para além da questão de atingir uma meta de carbono, mas também incluindo uma discussão social, empresarial e a necessidade de você criar um diálogo para acelerar esse processo”, afirma Servo à DW. A coordenação do T20 é exercida no momento pelo Ipea junto da Fundação Alexandre de Gusmão e do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Servo esteve em Berlim nesta semana para participar do Global Solutions Summit, uma conferência que reúne anualmente na capital alemã representantes de organizações internacionais e da sociedade civil global para discutir soluções para um multilateralismo sustentável e propostas a serem encaminhadas ao G20, cuja próxima cúpula ocorre em novembro no Rio de Janeiro.

Nesta entrevista, ela fala sobre o desafio de propor soluções para os principais problemas globais, como desigualdade, pobreza e transição energética, considerando a dificuldade em se chegar a consensos dentro de um grêmio tão multifacetado como o G20.

Segundo a especialista, a rota para a solução das questões globais deve passar pelo aperfeiçoamento dos sistemas multinacionais de decisão. “Tornar o sistema multilateral eficiente é fundamental para que as políticas internacionais sejam implementadas”, afirma.

 

Quais os temas de mais destaque sendo trabalhados nesse momento pelo T20?

As prioridades da presidência brasileira do G20 são trabalhadas pelo T20. A desigualdade, pobreza, inclusão social, a discussão sobre transição energética e climática e o que se chama de reforma do sistema multilateral, que é pensar como a gente pode fortalecer esses sistemas – como o sistema ONU e outros sistemas multilaterais –, para que essa polarização que a gente está vendo acontecer no mundo não influencie as políticas públicas que precisam ser implementadas. Ou para que, pelo menos, existam espaços de diálogo eficientes e efetivos, porque senão você faz com que algumas políticas sejam travadas por conta dessa divisão geopolítica.

Tornar o sistema multilateral eficiente é fundamental para que as políticas internacionais sejam implementadas. Para além disso, a gente também tem toda uma discussão sobre transformação digital, que precisa ser inclusiva. A transformação digital precisa incluir a população e produzir trabalhos decentes, produzir oportunidades para a população. Como financiar isso é outra agenda importante, e a discussão de como essas coisas se conectam, em processos de transição, seja demográfica, energética, climática, e digital, de transformações tecnológicas também são importantes na discussão no T20.

Esse evento em Berlim serve como um fórum de discussão de problemas globais. Quais propostas ao G20 podem sair desse encontro e como é esse processo de encaminhamento?

O Global Solutions Summit, como evento promovido pela Global Solutions Initiative, foi criado [em 2017] durante a presidência alemã do G20. A ideia é acompanhar a cada ano as discussões que estão acontecendo no G20 e no T20, para ir ganhando escala.

Eles produzem esse fórum todo ano, convidando não só os think tanks, mas outras instituições, outras lideranças políticas, para ver se o que está sendo discutido na presidência dos países tem ressonância nessas lideranças. É um espaço intermediário de discussão durante a presidência do G20 e com think tanks e lideranças políticas.

Depois a gente tem a chamada Conferência de Meio-Termo, que vai acontecer no Brasil em julho. E aí, sim, a gente vai entregar as recomendações para o governo. E o governo vai decidir quais dessas recomendações ele vai incorporar ou não. Em seguida temos mais seis meses de trabalho. A presidência brasileira vai até 1° de dezembro, final de novembro desse ano. Em 1° de dezembro a próxima presidência do G20 já passa para a África do Sul.

Aliás, com a série Indonésia, Índia, Brasil e África do Sul, o G20 tem quatro presidências seguidas de países em desenvolvimento…

Isso. As pautas importantes e contextualizadas nos países em desenvolvimento estão sendo trazidas para o debate dos think tanks e do G20.

Quais as questões principais durante essas reuniões em Berlim?

Há urgência em se pensar a questão climática para além de uma questão só de atingir uma meta de carbono. Tem que passar por uma discussão social e empresarial, e considerar a necessidade de se criar um diálogo para acelerar esse processo. Esse foi um dos temas mais relevantes, como a gente faz com que todo mundo entenda que a questão climática não é só uma questão de temperatura, mas que ela tem várias urgências sociais e para o mundo empresarial, que precisam ser incorporadas no diálogo entre os setores sociais.

Não é só uma questão de governo, envolve vários setores: empresas, sociedade civil organizada, população daqueles territórios, institutos de pesquisa, cientistas. Mas por ser um mundo muito dividido, seja nacionalmente seja internacionalmente, isso dificulta a implementação de políticas.

A discussão de como a gente faz com que essas pessoas se unam em torno de um objetivo, em face de tanta polarização, é um outro grande desafio que foi discutido. Como criar confiança de que o que você está propondo vai ser implementado, que a população possa confiar.


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