25/05/2024 - Edição 540

Camaleoa

Um barco à deriva chamado Campo Grande

Publicado em 16/05/2014 12:00 - Cristina Livramento

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Todos aqueles que levantam cedo para trabalhar, sabem quanto custa ter uma mesa farta ou um teto para se abrigar. Mesmo assim, há muitos que levantam cedo, trabalham, e são obrigados a entrar em movimentos de ocupação para terem onde morar. Mas, levantar cedo e trabalhar não é nenhuma garantia de segurança ou paz. E, de maneira geral, a sensação é de que estamos todos nós em um barco frágil, em alto mar, lutando contra dragões, serpentes e tempestades.

A sociedade tem um péssimo hábito de dizer que pobre é vagabundo e preguiçoso, o que é uma mentira quando você observa todos os ônibus lotados nos horários de pico. Pobre sabe que, se não trabalhar, não come. Pobre sabe que se não trabalhar, não veste os filhos. Pobre sabe que se não trabalhar, não tem luz nem água em casa. Pobre sabe que se ele não fizer por ele, ninguém vai aparecer oferecendo croissant ou sequer um copo de leite.

A sociedade tem um péssimo hábito de dizer que pobre é vagabundo e preguiçoso, o que é uma mentira quando você observa todos os ônibus lotados nos horários de pico.

Esse mesmo cidadão, que se vê vestido ora de vagabundo ora de “a estrela da vez” (em épocas de eleição), levanta cedo para o trabalho sem garantia nenhuma de que voltará são e salvo para casa. É ataque do Primeiro Comando da Capital (PCC), manifestação contra a Copa, ladrão matando por R$ 0,50, criança de 12 anos roubando carro, Maníaco do Parque, Maníaco da Cruz, rebelião em presídio, tanta violência que fica difícil se sentir protegido em algum lugar. Sem falar que a última moda é ser confundido com estuprador, aliciador de menor, ladrão e acabar, a caminho de casa, linchado.

Vou tentar ver por outro ângulo. Esse mesmo cidadão, que se vê vestido ora de vagabundo ora de “a estrela da vez”, levanta cedo para o trabalho sem garantia nenhuma de que o carro dele não vai cair dentro de um buraco no meio do caminho, de que a chuva não vai alagar a cidade nem a casa dele, de que não vai haver greve na creche dos filhos, de que vai finalmente conseguir a vaga no SUS para fazer o exame de tomografia.

Em alto mar, o barco frágil – chamado cidade – segue com marujos firmes em suas respectivas tarefas obrigados a se livrarem, a todo instante, de medos, solidão, cansaço, paranoias e piratas psicopatas. Como não há comandante nem imediato neste barco, a tripulação segue na embarcação de acordo com o ritmo do mar e do tempo, à seu bel prazer.

A imagem, atualmente, cabe bem para muitos países – me parece –, mas Campo Grande, desde o ano passado entrou no Triângulo das Bermudas ou Triângulo do Diabo. Quem sabe a gente não se depara com o Boeing 777 ou uma das 239 pessoas do voo H370 da Malaysia Airlines andando por aí, não é verdade?

Cassaram o ex-prefeito Alcides Bernal (PP), em março deste ano, e mais uma vez Campo Grande assiste a mais um desatino pelo poder. Determinado a voltar para o gabinete, Bernal consegue derrubar liminar que o cassou e segue com aliados para o prédio da Prefeitura. Flash, flash, flash, publicam selfies em redes sociais, imprensa registra momento inédito, como pontuou a vereadora Luiza Ribeiro (PPS).

Neste mesmo dia, vereadores promovem um verdadeiro espetáculo de vulgaridade dentro da Câmara Municipal. Claro, com direito a vídeo e registro fotográfico da imprensa. Ofensas, xingamentos, palavrões, tudo oferecido em tempo real, pelos sites de notícias da Capital, com requintes de baixaria do tipo “vamos resolver isso lá fora”. O bate-boca, imagina, não se referia a nenhum projeto que favorecesse, de maneira prática e objetiva, a cidade ou a população.

Enquanto o leme gira desesperadamente para direita e esquerda, a tripulação (leia-se o povo) tenta manter os sistemas de energia e propulsão em funcionamento. Há que seguir adiante, sempre.

No mesmo instante em que Bernal troca todas as fechaduras da Prefeitura, dois desembargadores atuam no plantão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul para derrubar a liminar da liminar da liminar. Nem sei mais quantas liminares rolaram nesse convés. Nove horas após o ex-prefeito derrubar liminar que o cassou, outra liminar derruba a liminar que o trouxe de volta à cadeira do gabinete.

No dia seguinte, os taxistas questionam a razão de tanta disputa, após tanta promessa, uma após a outra (eleição), Bernal, Nelsinho. No dia seguinte, motorista e passageiro de ônibus lêem jornal e questionam o futuro incerto ao ler manchete de mais um linchamento por engano. No dia seguinte, centenas de passageiros levantam cedo e se espremem dentro dos ônibus para enfrentar mais um dia de trabalho. No dia seguinte, mais de 100 famílias do Bosque da Saúde, na Vila Marli, aguardam pelo pior: a chegada de máquinas para cumprir a reintegração de posse anunciada no dia anterior.

Um dia de trabalho, como qualquer outro, em que a tripulação segue sem saber se, em breve, alguém vai de fato ter pulso firme para pilotar esse barco à deriva.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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