24/04/2024 - Edição 540

Camaleoa

O universo infantil e as propagandas da década de 90

Publicado em 17/10/2014 12:00 - Cristina Livramento

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Será que uma criança entende o mundo da mesma maneira que um adulto? Bom, parece que muita gente acredita nisso ou tenta desesperadamente esconder o inevitável. A Catraca Livre publicou um artigo, no dia 10 de outubro, sobre as “11 propagandas infantis que não apareceriam na TV nos dias de hoje”, o que me trouxe muitas lembranças.

A primeira propaganda citada é a "Eu tenho, você não tem!"- Tesoura Mundial. Um moleque atentado fica mostrando a tesoura com a cara do Mickey e repetindo essa frase aí entre aspas. Na hora, me lembrei de outra propaganda igualzinha e atual, a de outro moleque menos atormentado do que o menino da tesoura. Ele não fica repetindo frase nenhuma, mas faz questão que o pai pare o carro na direção em que os colegas da escola possam ver.

Em seguida, temos as propagandas da Garoto e da Sundown. O comercial do chocolate é longa, tem uma série de clichês e brinca com clássicos do universo masculino. A propaganda não é nada se comparado ao catecismo de Carlos Zéfiro que formou gerações da década de 50 a 70. A propaganda da Sundown, bem carioca, quase uma Garota de Ipanema.  Daí dizer que o menino fala “palavras assanhadas” porque quer tirar o protetor solar da menina para que ela fique debaixo do guarda-sol com ele, é colocar pelo em ovo.

Da mesma maneira que a gente se dedica para ser um bom profissional, um bom aluno, todo ser humano tem seu processo de amadurecimento afetivo e sexual. E ele começa na infância. Negar que esse processo exista é criar monstrinhos, futuros adultos incapazes de lidar com o próprio corpo e respeitar o próximo.

Entre estes e outros comerciais da década de 90, temos o da Valisére e da Loção Hidratante Phebo. Ambos exerciam um impacto muito grande em mim todas as vezes que passavam na televisão. O sutiã é – talvez essa experiência tenha ficado no passado – um dos momentos mais marcantes na vida de uma menina que começa a ficar moça. A peça feminina no comercial representa todo o significado dessa fase: a descoberta de um novo corpo e um novo mundo. Só existe beleza e poesia ali.

A propaganda da menina ao lado da mãe passando o perfume é um momento clássico na vida de uma criança. Toda menina tem uma referência feminina que pode nem ser a mãe, às vezes é uma tia, uma amiga da mãe, mas a gente se espelha. E é esse diálogo que acontece no comercial. Uma mulher que gosta de si e se perfuma e uma criança que a observa e se espelha.

Mas parece que todo o problema na propaganda da Phebo é a nudez. Nenhuma pessoa normal vai olhar uma criança nua e pensar em sexo, só uma mente doentia. E se pensarmos que os autores da maioria dos casos de abuso e estupro contra menor são os próprios parentes, não vai ser a proibição de uma propaganda que vai impedir que mais crianças e adolescentes entrem para a estatística da violência sexual. O que vai impedir esse crime é a denúncia.

Apontar o certo e o errado, sem que haja um diálogo transparente sobre um fato real e presente na vida de todos nós – o desejo e a sexualidade – é construir uma sociedade cada vez mais confusa. É criar futuros adultos como muitos que conhecemos de bíblia debaixo do braço, terço amarrado no pulso, mas vivendo uma vida com duas ou três realidades paralelas – uma vida de mentiras.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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