21/07/2024 - Edição 550

Camaleoa

Conexões Cosmopolitas se despede

Publicado em 24/10/2014 12:00 - Cristina Livramento

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Há muito orgulho no peito daquele que abre a boca para emitir uma opinião própria. Nem sempre o mesmo orgulho brota no peito de quem ouve. Na maioria das vezes, o que toma conta do ambiente é a vergonha, o descaso e a antipatia por aquele que faz o discurso. O colunista lida com essa esquizofrenia o tempo todo, mas será que vale a pena?

Quando comecei a escrever, em 1999, eu tinha uma necessidade muito forte de compartilhar meu pensamento. No auge da internet discada e surgimento dos blogs, passei a escrever diariamente. Depois disso, em São Paulo, de 2006 a 2009, mantive uma coluna no Jornal da Praça onde escrevia sobre cultura. Mais recentemente, também fiz algumas colaborações para o site Umbigo das Coisas sobre literatura.

De volta a Campo Grande, desde 2013, a convite do editor desta revista, voltei a escrever com periodicidade sobre a relação do homem com a cidade. De 99 para cá, muita coisa mudou e toda aquela necessidade que eu sentia de tornar público o que penso e questiono perdeu a força. Não deixei de ter opinião sobre as coisas, mas estou cada vez mais concentrada no agir do que no discurso. Quero que minhas ações tenham voz própria.

Acho que temos algumas contribuições a serem feitas e de fato elas funcionam durante um tempo, depois a fala se desgasta assim como uma peça qualquer, como a de um carro, por exemplo. É preciso trocar, no caso desta colunista, repensar.

Como conciliar a opinião com a informação, conciliar estes dois elementos com a história, esses três itens com a ironia, o humor e a filosofia e, por fim, como juntar isso tudo sem se tornar chato, verborrágico ou arrogante. Pior, não se valer do espaço para “lavar roupa suja” ou colecionar achismos vulgares e ralos.

Hoje, quando olho para o passado e lembro do que publiquei na internet, sinto uma certa vergonha de mim mesma. A idade me ensinou ter algum controle sobre a impulsividade.  Claro que mudamos – ainda bem – amadurecemos, acumulamos experiência, mas isso não quer dizer que nosso pacote de bobagens tenha sido eliminado, talvez a gente, com o tempo, só o renove.

O norte não são aqueles que elogiam a gente, muito menos aqueles que falam mal pelas costas. O norte, pelo menos para mim, é o significado das coisas, sejam elas afetivas ou profissionais. Tudo o que faço precisa fazer sentido única e exclusivamente para mim. De um jeito bem egoísta mesmo.

Na medida em que passo a questionar o valor que isso tem, o ato de escrever deixa de alimentar a alma. É preciso repensar. Não quero ser mais uma na multidão publicando mais uma opinião que só faz sentido para mim e uma meia dúzia de amigos.

A necessidade agora é me dedicar aos livros que estão inquietos na minha cabeça já algum tempo e retomar minha pesquisa fotográfica sobre a cidade. O meu norte agora é o silêncio do artista em processo de criação. É para lá que eu vou.

Muito obrigada pela companhia.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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