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Território Cultural
Entre rios, paisagens, sabores e artistas, norte de MS revela identidade profunda, pouco vista, mas essencial para compreender o estado
Publicado em 03/07/2026 7:58 - Sérgio Carvalho
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Quando alguém perde a direção por qualquer motivo, costuma dizer que precisa encontrar o norte. Quando reencontra um caminho, afirma que voltou a ter norte.
A expressão passou de gerações em gerações e ganhou significado muito além da geografia. É assim que te convido a viajar pelo norte de Mato Grosso do Sul, uma região geográfica rica em arte e desenhada no mapa, ocupando uma porção importante do estado e, curiosamente, permanecendo distante do imaginário de muita gente. É possível, inclusive, que ao fazer esse convite eu deixe de fora expressões e artistas importantes. Mas a ideia aqui não é oferecer um mapa. Apenas uma reflexão.
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Você já “deitou reparo”, como diziam os antigos, para observar como sabemos pouco sobre o norte de Mato Grosso do Sul?
A pergunta não carrega crítica. Carrega constatação.
Conhecemos Bonito e seus atrativos que ganharam visibilidade e preferência como destino internacional. Conhecemos o Pantanal que nos faz esticar o olhar pelo horizonte e conhecemos as fronteiras com o Paraguai e com a Bolívia.
Quanto ao norte, conhecemos muito pouco.
Essa região costuma aparecer menos nas fotografias, nos discursos e nas narrativas que ajudam a construir a imagem do estado.
Quem segue por essa direção percebe uma mudança gradual e significativa da paisagem.
O vermelho, ou a chamada “terra roxa”, mais conhecida de boa parte do território sul-mato-grossense, cede espaço a tonalidades mais claras. Surge uma terra arenosa que acompanha a nossa viagem. O horizonte se amplia, o calor aumenta e os rios ganham protagonismo. Em determinadas épocas do ano, extensas faixas de areia surgem nas margens dos rios e transformam o interior do Brasil em uma paisagem que lembra uma improvável vocação do litoral.
A região norte ocupa uma posição singular na geografia do estado.
Ela acompanha a borda do Pantanal sem se confundir com ele. É como se fosse necessário existir para proteger a planície. Tem certa coerência essa linguagem figurativa. Essa região funciona como uma espécie de território de transição entre o planalto e a grande área alagada. Cerrados, rios, formações rochosas e áreas elevadas ajudam a desenhar uma paisagem que prepara o olhar para a imensidão pantaneira.
Ali, a água organiza a vida.
O Rio Coxim não é apenas um acidente geográfico. É presença permanente. É memória. É sustento. É encontro.
Também é culinária.
Em algum momento da conversa entre sul-mato-grossenses que conhecem o estado surge uma provocação quase inevitável. Onde está o peixe mais saboroso na mesa dessa terra?
Corumbá apresenta seus argumentos com a autoridade de quem transformou o pintado a urucum em patrimônio afetivo de muitas famílias.
Coxim responde à sua maneira, baseado na intimidade cotidiana com os rios que moldam a região.
Não existe vencedor, claro.
Existem territórios que aprenderam a transformar paisagem também em sabor.
A cultura também habita a mesa.
Mas o norte de Mato Grosso do Sul não se revela apenas à mesa.
Ele também aparece nas telas de Marlene Mourão, a Peninha, artista plástica e poetisa nascida em Coxim, há muitos anos morando em Corumbá, cuja obra parece guardar a mesma delicadeza das águas que desenham aquela região. Há algo de profundamente suave em seu olhar. Seus traços não disputam espaço com a paisagem. Ao contrário. Eles parecem escutar a paisagem antes de transformá-la em arte.
Quando observo suas pinturas, tenho a impressão de que o norte do Estado foi visto através de uma fina camada de aquarela. As cores nas obras da Peninha não gritam. Os contornos não se impõem. Tudo parece envolto por uma luz que suaviza os rios, os bichos do pantanal, as árvores e os horizontes largos que caracterizam aquela parte de Mato Grosso do Sul.
E aí está também uma das contribuições mais bonitas da arte: permitir que um território seja visto não apenas por aquilo que é, mas também pela forma como é sentido. Nas obras de Peninha, o Pantanal e o Cerrado deixam de ser apenas paisagem. Tornam-se memória, afeto e pertencimento. Cada tela parece carregar a serenidade das águas que descem em direção ao Pantanal e a delicadeza de quem aprendeu a observar o mundo sem pressa.
Por isso, quando a viagem segue rumo ao norte, ela não encontra apenas os versos de Zacarias Mourão, a força criativa de Henrique Spengler ou as histórias que atravessam as cidades da região. Encontra também a sensibilidade de artistas que transformam rios, luzes e horizontes em linguagem. E, nesse encontro entre a terra e a arte, o nortão do MS passa a ser compreendido não apenas como um lugar no mapa, mas como uma forma de olhar o mundo.
Muito antes da criação de Mato Grosso do Sul, muito antes das rodovias que ligam cidades e encurtam distâncias, aquela região já guardava registros da presença humana.
Nas formações rochosas da região permanecem inscrições rupestres que atravessaram séculos, servem de objeto de pesquisa para estudiosos e encantam turistas. São marcas deixadas por povos que habitaram essas terras muito antes da existência das fronteiras políticas que conhecemos hoje.
Cada desenho gravado na pedra funciona como uma mensagem enviada através do tempo. Uma forma ancestral de transformar território em linguagem.
Essa mesma necessidade de interpretar o lugar onde se vive reaparece em diferentes momentos da história.
Lembro disso quando penso em Henrique Spengler.
Conheci Henrique nos corredores da antiga Faculdade de História das Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso. Eu estava chegando ao curso de História. Ele já ocupava aquele espaço com a naturalidade de quem compreendia a importância da própria origem. Eu o admirei no primeiro semestre. Era irreverente, autêntico e tinha uma fala firme. Se colocava diante dos padres e diretores da faculdade com um conhecimento que silenciava possíveis opositores em debates. Era admirado pelos colegas e pelos professores.
Recordo o sorriso acolhedor, a beleza meio selvagem, meio intelectual, e a generosidade com os novos estudantes.
Ali, nos tornamos amigos.
Anos depois compreendi algo que já estava presente naquela convivência inicial.
Henrique carregava Coxim consigo.
Existem pessoas que mudam de cidade. Existem pessoas que levam a cidade junto.
A produção artística de Henrique revelava que ele fazia parte do segundo grupo. Carregava Coxim em sua existência e ajudou a revelar a riqueza simbólica dos povos originários, especialmente dos Kadiwéu, ampliando a compreensão sobre uma herança que continua presente na formação cultural de Mato Grosso do Sul.
Essa mesma terra de belezas naturais encontrou voz na obra de Zacarias Mourão, nas composições, inspirações e na forma como dedilhava um violão.
Em Pé de Cedro, uma de suas canções mais conhecidas, a paisagem do norte deixa de ocupar o fundo da cena e assume o papel principal. A árvore que inspirou a composição transforma-se em símbolo de permanência, enquanto rios, estradas, lembranças e afetos se entrelaçam numa narrativa profundamente ligada à identidade regional. Zacarias tinha a rara capacidade de transformar elementos aparentemente simples em patrimônio emocional. Sua música ajudou a ensinar gerações inteiras a olhar para aquele território não apenas como lugar de passagem, mas como lugar de pertencimento.
Décadas mais tarde, essa voz voltaria a ocupar espaço público por meio do mural criado por Eduardo Kobra em Coxim, estabelecendo um diálogo entre gerações, linguagens e formas de contar uma mesma história.
As inscrições gravadas na pedra, a arte de Henrique Spengler e Peninha, a poesia de Zacarias Mourão e a memória preservada pelas festas populares como a tradicional Festa do Divino, fazem da comunidade uma longa corrente de pertencimento.
Todas procuram responder à mesma necessidade humana: compreender o lugar que habitamos.
O norte de Mato Grosso do Sul permanece ali.
Nem sempre ocupa as manchetes.
Nem sempre aparece nas campanhas de divulgação e dificilmente recebe a atenção que merece.
Ainda assim, continua oferecendo uma das mais ricas combinações de paisagem, memória, arte e identidade encontradas no estado.
Quem aponta o olhar para essa direção descobre muito mais do que uma região geográfica. Descobre sabores, sons, ritmos e uma forma de viver que revelam um território que ajuda a explicar quem somos.
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SÉRGIO CARVALHO
Sérgio Carvalho é jornalista, roteirista, diretor de documentários e analista de cultura e comportamento, formado pela Universidade Anhanguera, com graduação complementar em História. Atua há quase 40 anos no jornalismo, com trajetória em rádio, TV e plataformas digitais, integrando atualmente a Educativa MS. Trabalhou por duas décadas em afiliada da Rede Globo em Mato Grosso do Sul e foi editor de Brasil no Jornal da Globo, em São Paulo. Ao longo da carreira, participou de coberturas de grande relevância nacional, com produções para programas como Globo Repórter e Fantástico. Com atuação também no jornalismo investigativo e de dados, foi indicado ao Prêmio Tim Lopes. Antes do jornalismo, construiu trajetória nas artes cênicas, com mais de dez anos de atuação como ator, sendo premiado dentro e fora do Estado. Seu trabalho articula comunicação, cultura e comportamento, com olhar voltado à leitura do presente e das transformações sociais.
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