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Território Cultural
É preciso compreender que aquilo que não registramos também corre o risco de desaparecer
Publicado em 12/06/2026 6:08 - Sérgio Carvalho
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Há fronteiras que ocupam diariamente o noticiário
São as fronteiras da violência, do tráfico, do contrabando, das disputas policiais e dos conflitos que desafiam os sistemas de segurança pública. São pautas legítimas, necessárias e de evidente interesse coletivo.
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Mas existe uma outra fronteira, igualmente real, que raramente conquista o mesmo espaço nas manchetes.
É a fronteira da cultura.
Uma fronteira que atravessa gerações, circula silenciosamente entre famílias, percorre rodas de conversa, habita cozinhas, ocupa palcos, inspira artistas e se instala no cotidiano sem pedir autorização aos mapas.
O maior desafio seja justamente este: compreender que aquilo que não registramos também corre o risco de desaparecer.
Durante décadas, os veículos de comunicação desempenharam um papel fundamental na preservação da memória cultural brasileira. Havia editorias de cultura, críticos especializados, cadernos dedicados à literatura, às artes visuais, ao teatro, à música e ao patrimônio histórico. Nem sempre esses espaços eram amplos, mas existiam.
Nos últimos anos, porém, observamos uma redução progressiva desses territórios dentro da imprensa.
A notícia urgente ganhou espaço.
A cultura perdeu espaço.
E, quando isso acontece, não desaparece apenas uma editoria. Desaparece também uma parte da capacidade coletiva de registrar quem somos.
Porque a imprensa não documenta apenas acontecimentos. A imprensa documenta o seu tempo.
E aquilo que ela escolhe registrar se transforma, mais tarde, em memória.
E é por isso que eu pensei recentemente em uma fronteira que raramente aparece nas manchetes.
Uma fronteira construída pela música, pela arte, pela culinária, pelo idioma e pelos afetos compartilhados entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai.
Uma fronteira que não se move por operações policiais, mas por encontros humanos.
O pesquisador e jornalista Rodrigo Teixeira dedicou parte de sua trajetória a compreender exatamente esse fenômeno. Seus estudos sobre a presença da música paraguaia em Campo Grande ajudam a demonstrar algo que os sul-mato-grossenses experimentam diariamente, muitas vezes sem perceber.
A influência paraguaia não ocupa um espaço periférico em nossa cultura.
Ela participa da nossa formação.
Está presente na guarânia, na polca, na harpa, no tereré, em expressões do idioma guarani incorporadas ao vocabulário cotidiano, na culinária e até mesmo em elementos do vestuário tradicional masculino, como a elegante faixa paraguaia que atravessou gerações e fronteiras.
Nada disso chegou até nós como algo estrangeiro.
Esses elementos foram sendo incorporados à experiência cotidiana de viver neste território.
Talvez porque a cultura se comporte como a água.
Ela encontra caminhos.
Infiltra-se.
Mistura-se.
Permanece.
Essa reflexão me levou também à memória do artista plástico Julio César Alvarez.
Paraguaio de nascimento, Alvarez construiu uma trajetória profundamente conectada à vida cultural de Mato Grosso do Sul. Atuou como artista, educador e gestor cultural, colaborando com a formação de gerações de artistas e participando de importantes instituições ligadas às artes visuais do Estado.
Minha lembrança dele não nasce apenas da pesquisa.
Nasce da convivência.
Ainda jovem, tive a oportunidade de participar, ao lado do ator Leandro Mello, de uma montagem dirigida por Julio César Alvarez baseada em textos ligados à tradição filosófica Rosacruz. Lembro-me do artista, do diretor, do pensador e da capacidade que ele tinha de transitar entre linguagens, aproximando arte, reflexão e experiência humana.
Por isso foi impossível não sentir tristeza ao tomar conhecimento do incêndio que destruiu parte significativa de seu acervo em Pedro Juan Caballero.
As chamas consumiram obras.
Mas consumiram também fragmentos de memória.
Consumiram registros de uma trajetória artística construída ao longo de décadas.
Consumiram vestígios de uma história compartilhada entre dois países que aprenderam a conviver para além dos limites políticos estabelecidos pelos mapas.
Recentemente, durante uma apresentação do músico Marcelo Loureiro, tive uma sensação semelhante.
Em determinado momento, a harpa ocupou o centro da cena.
E ali não estava apenas um instrumento. Estava uma herança cultural inteira.
Estavam os sons que atravessaram a fronteira.
Estavam as influências que ajudaram a moldar nossa identidade.
Estava a demonstração concreta de que algumas manifestações culturais sobrevivem porque encontram abrigo na memória das pessoas.
É justamente essa a palavra.
Abrigo.
Há algum tempo escrevi que a arte precisa de abrigo.
Continuo acreditando nisso.
Mas hoje acrescentaria uma observação.
O abrigo da arte não pode ser apenas simbólico.
Ele precisa ser físico.
Precisa estar nos museus, nos centros culturais, nos arquivos, nas bibliotecas, nas políticas públicas de preservação e nos espaços destinados à guarda dos acervos.
Precisa estar também na imprensa.
Na universidade.
Na pesquisa.
Na documentação.
Porque aquilo que não é registrado corre o risco de desaparecer.
E aquilo que desaparece deixa de conversar com o futuro.
A fronteira que não aparece nas manchetes talvez seja justamente aquela que mais nos explica.
A fronteira da música.
Da arte.
Da literatura.
Dos sabores.
Dos sotaques.
Dos encontros humanos.
Uma fronteira construída muito menos pela divisão dos territórios e muito mais pela circulação das pessoas.
E a pergunta que reste para todos nós seja simples.
Quando as próximas gerações tentarem compreender quem fomos, que histórias encontrarão?
Aquelas que registramos por urgência?
Ou aquelas que tivemos a sensibilidade de preservar por reconhecer nelas aquilo que nos torna únicos?
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