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Poder

Valdemar tenta colocar panos quentes na crise entre Michelle e os filhos de Bolsonaro

Presidente do PL mantém ex-primeira-dama no comando da ala feminina do partido e pede “calma”

Publicado em 05/07/2026 3:10 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, descartou a possibilidade de nomear uma substituta para Michelle Bolsonaro na presidência do PL Mulher, mesmo após a ex-primeira-dama anunciar sua saída do cargo. Em declaração divulgada em vídeo, o dirigente afirmou que pretende manter Michelle como principal referência da ala feminina da legenda e classificou sua atuação como insubstituível.

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Segundo Valdemar, Michelle reúne características que nenhum outro nome do partido conseguiria reproduzir. Ao defini-la como um “fenômeno” político, ele afirmou que não existe, neste momento, alguém capaz de ocupar o espaço construído por ela na mobilização das mulheres dentro da sigla.

Enquanto Michelle permanecer afastada da função, a estrutura do PL Mulher continuará funcionando de forma descentralizada. De acordo com o presidente do partido, as lideranças estaduais seguirão responsáveis pela condução das atividades em seus respectivos estados até que a ex-primeira-dama, nas palavras dele, “repense” a decisão e aceite retornar ao comando nacional do movimento.

Valdemar também aproveitou a manifestação para pedir cautela aos integrantes da legenda diante do atual cenário político. Na avaliação do dirigente, o partido precisa concentrar esforços para vencer a próxima eleição presidencial. Segundo ele, uma eventual derrota teria consequências diretas para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que, em sua visão, permaneceria preso por mais dez anos.

A saída de Michelle da presidência do PL Mulher foi oficializada na terça-feira (30), após reunião realizada em Brasília com Valdemar Costa Neto. A decisão ocorreu em meio ao agravamento da crise familiar e política envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como pré-candidato do partido à Presidência da República.

O rompimento ganhou dimensão pública depois que Michelle publicou vídeos nas redes sociais afirmando ter sido desrespeitada e humilhada por Flávio durante uma ligação telefônica realizada no fim de 2025. As declarações expuseram um conflito até então restrito ao ambiente familiar e provocaram repercussão entre aliados do ex-presidente.

Ao comunicar sua saída do comando do PL Mulher, Michelle afirmou que pretende dedicar-se integralmente ao marido, Jair Bolsonaro, e à filha. Segundo ela, a decisão foi tomada após uma conversa com o ex-presidente sobre o momento vivido pela família. Depois da divulgação da nota, Flávio Bolsonaro pediu desculpas publicamente, afirmando que jamais teve a intenção de ofendê-la.

Na ocasião, Valdemar chegou a anunciar que cogitava extinguir a presidência nacional do PL Mulher como forma de homenagear Michelle Bolsonaro. O dirigente elogiou o trabalho desenvolvido pela ex-primeira-dama à frente da organização e afirmou que sua escolha de deixar o cargo para priorizar os cuidados com Jair Bolsonaro deveria ser respeitada.

Enquanto o partido tenta administrar os efeitos da crise interna, Flávio Bolsonaro intensificou sua agenda política. Na sexta-feira (3), o senador participou de um encontro com influenciadores bolsonaristas no Rio de Janeiro, onde procurou estabelecer uma aproximação com o eleitorado feminino em meio às tensões com Michelle.

Durante o evento, Flávio afirmou que as mulheres exercem papel central tanto nas famílias quanto na política nacional. “É a mulherada que manda em casa, é a mulherada que manda no Brasil e que fala por último no palco”, declarou. Após o discurso, deixou o local sem conceder entrevistas à imprensa, conversando apenas com apoiadores.

O encontro reuniu diversas lideranças do campo bolsonarista, entre elas Valdemar Costa Neto, o senador Rogério Marinho, que integra sua coordenação de campanha, além de parlamentares aliados. Também participou o ex-deputado federal Daniel Silveira, que cumpre regime aberto após condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Entre os participantes, multiplicaram-se manifestações críticas ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes. O discurso predominante durante o evento girou em torno da proposta de “devolver o Brasil” e da defesa da libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Ao dirigir-se aos apoiadores, Flávio afirmou que cada simpatizante teria responsabilidade na missão de apoiar Bolsonaro e mobilizar o eleitorado. Segundo ele, milhões de brasileiros estariam insatisfeitos com a violência, a elevada carga tributária e o que classificou como perseguição política.

O senador também recorreu a referências religiosas para justificar sua pré-candidatura, repetindo uma estratégia frequentemente utilizada pelo ex-presidente em manifestações públicas. Em tom messiânico, afirmou acreditar que sua participação na disputa presidencial faz parte de um “projeto de Deus”.

“Isso aqui é um projeto de Deus. Se eu não acreditasse nisso, jamais teria aceitado essa missão. Era para Jair Messias Bolsonaro estar aqui, ser o presidente da República, mas Deus não permitiu que fosse dessa forma e eu estou aqui firme e forte”, declarou.

Paralelamente à crise interna do partido, Michelle Bolsonaro voltou ao debate público por outro motivo. No sábado (4), a ex-primeira-dama afirmou que a defesa dos direitos da comunidade surda deve estar acima das divergências ideológicas e partidárias.

A manifestação ocorreu após repercutir um vídeo em que Michelle faz elogios à Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, atualmente vinculada ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em publicação nas redes sociais, Michelle afirmou que sua atuação na defesa das pessoas com deficiência sempre esteve orientada pelos resultados alcançados pelas políticas públicas, independentemente do governo responsável por sua implementação. Segundo ela, reconhecer iniciativas consideradas positivas não representa alinhamento político, mas compromisso com uma causa social.

A ex-primeira-dama também sustentou que a política de educação bilíngue para pessoas surdas começou a ser estruturada durante o governo Jair Bolsonaro, embora, segundo sua versão, sua implementação tenha sido interrompida por decisões judiciais antes do término daquele mandato.

Como exemplo de iniciativas que, em sua avaliação, superam disputas partidárias, Michelle citou a sanção da Lei Amália Barros durante o governo Bolsonaro. Ela destacou que a proposta nasceu no Congresso Nacional e recebeu apoio por beneficiar pessoas com deficiência, independentemente das diferenças políticas entre os parlamentares.

As declarações foram uma resposta às críticas recebidas de parte de apoiadores bolsonaristas após a divulgação do vídeo em que elogia aspectos da política pública atualmente executada pelo governo federal. Em resposta, Michelle reiterou que a inclusão das pessoas com deficiência deve prevalecer sobre divergências ideológicas e disputas político-partidárias.

Mudança de postura de Moraes em decisões sobre Bolsonaro alimenta debate

A postura recente do ministro Alexandre de Moraes em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro passou a alimentar interpretações de que houve uma mudança em sua condução dos processos envolvendo o ex-chefe do Executivo. A percepção ganhou força após a decisão de manter, por tempo indeterminado, a prisão domiciliar humanitária de Bolsonaro, mesmo diante de novos elementos que poderiam reabrir a discussão sobre o regime de cumprimento da pena.

O episódio foi lembrado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ainda em maio, quando Moraes autorizou que Bolsonaro recebesse atendimento de um cabeleireiro durante o período de prisão domiciliar. Na ocasião, Michelle recorreu a uma referência bíblica para comentar a decisão.

“Vou profetizar aqui, porque Deus transformou Saulo em Paulo. Nosso irmão em Cristo, Alexandre de Moraes, liberou o cabeleireiro. E ele está com aquele cabelinho cortadinho, jogadinho, aqueles olhos azuis brilhantes”, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais.

A declaração faz alusão ao relato bíblico da conversão de Saulo de Tarso, tradicionalmente identificado como um perseguidor de cristãos que, após a experiência narrada no caminho para Damasco, tornou-se o apóstolo Paulo, uma das principais figuras do cristianismo. A comparação foi utilizada por Michelle para sugerir uma mudança de postura do ministro em relação ao marido.

Nos bastidores políticos e jurídicos, contudo, a interpretação predominante associa a aparente inflexão a fatores menos simbólicos e mais pragmáticos. Avaliações apontam que, após o desgaste provocado pelo chamado caso Master, Moraes teria adotado uma atuação mais cautelosa, reduzindo decisões de maior impacto político e privilegiando fundamentos que ampliem a sustentação jurídica de seus despachos.

Essa mudança ficou evidente durante a análise do episódio envolvendo a apreensão de uma pistola Glock calibre 9 milímetros registrada em nome de Bolsonaro durante uma blitz da Lei Seca. Em manifestação anterior, Moraes havia destacado que a Lei de Execução Penal classifica como falta grave a posse indevida de instrumento capaz de colocar em risco a integridade física de terceiros, observação que indicava a possibilidade de revogação da prisão domiciliar.

Antes de decidir, entretanto, o ministro solicitou manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet. O chefe do Ministério Público Federal adotou entendimento diferente. Inicialmente, defendeu que se aguardasse a conclusão das investigações sobre o episódio. Posteriormente, com base nas conclusões da Polícia Civil do Distrito Federal, sustentou que não havia elementos para atribuir ao ex-presidente uma falta disciplinar suficiente para alterar o regime de cumprimento da pena.

Embora não estivesse vinculado à manifestação da Procuradoria-Geral da República, Moraes incorporou esse entendimento à decisão final. O ministro reproduziu o argumento de Gonet segundo o qual não seria possível imputar ao condenado uma infração disciplinar que produzisse efeitos sobre o regime atualmente cumprido.

A própria manifestação do procurador-geral, contudo, registrou uma ressalva relevante. Gonet observou que a condição jurídica de Bolsonaro é incompatível com a posse de armas de fogo, ainda que essa circunstância, isoladamente, não justificasse a modificação do regime prisional.

A decisão de Moraes procurou conciliar essas duas conclusões. Além de determinar a revogação do porte de arma do ex-presidente, o ministro ordenou o recolhimento de todo o armamento registrado em seu nome, composto por dez armas, entre pistolas, fuzis, carabinas, revólveres e espingardas.

A medida, porém, gerou questionamentos entre juristas e observadores do processo. Isso porque, ao mesmo tempo em que reconheceu a incompatibilidade entre a situação jurídica de Bolsonaro e a manutenção do arsenal, Moraes deixou de aplicar a consequência que anteriormente havia mencionado como possível diante de uma eventual falta grave: a regressão do regime de prisão domiciliar.

Na fundamentação da decisão, o ministro priorizou aspectos relacionados ao estado de saúde do ex-presidente. Sem requisitar uma perícia médica independente, baseou-se nos laudos apresentados periodicamente pela defesa, os quais apontam evolução clínica, mas indicam a permanência das condições humanitárias que justificam a continuidade da prisão domiciliar.

A discussão sobre os benefícios eventualmente aplicáveis à pena de Bolsonaro, entretanto, permanece aberta. Um dos próximos temas a serem apreciados pelo ministro envolve a chamada Lei da Dosimetria, aprovada pelo Congresso Nacional e apontada como capaz de reduzir a pena imposta ao ex-presidente, atualmente fixada em 27 anos e três meses de prisão.

A eficácia dessa alteração legislativa permanece suspensa por decisão de Moraes, proferida antes das manifestações públicas de Michelle Bolsonaro. O julgamento sobre sua aplicação poderá representar mais um capítulo na definição dos efeitos práticos da nova legislação sobre a situação penal do ex-presidente e será acompanhado de perto tanto pelo meio jurídico quanto pelo cenário político.

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