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Território Cultural
Quantos artistas ainda precisarão ser reconhecidos lá fora antes que a gente decida enxergá-los em nosso território?
Publicado em 05/06/2026 4:09 - Sérgio Carvalho
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Em 1956, um artista cearense chamado Aldemir Martins recebeu, na Bienal de Veneza, um dos mais importantes reconhecimentos internacionais concedidos a um desenhista brasileiro. Entre as maiores expressões da arte mundial, uma banca de especialistas enxergou valor naquilo que ele levava do seu próprio território. Não eram paisagens europeias. Não eram referências importadas. Eram os traços do sertão, os cangaceiros, os pescadores, os pássaros, a vida do nordeste brasileiro transformada em linguagem artística.
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Mas Aldemir não surgiu do nada. Não surgiu simplesmente da terra seca da caatinga.
Quando recebeu o prêmio em Veneza, a arte moderna brasileira já havia percorrido mais de três décadas desde a Semana de Arte Moderna de 1922. A geração de Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Anita Malfatti havia lançado uma pergunta decisiva para a cultura nacional: seria possível produzir uma arte brasileira sem pedir autorização estética à Europa?
O modernismo respondeu que sim. E é com esse sim que também passamos a enxergar a nossa arte.
Primeiro vieram as rupturas. Depois veio a consolidação de uma linguagem própria. Mais adiante surgiram artistas capazes de transformar essa busca em reconhecimento internacional.
Aldemir Martins era um deles.
Quando levou o Ceará para Veneza, ele já não precisava justificar o sertão como tema artístico. A geração de 22 havia aberto essa porta. O que os modernistas defendiam era simples e revolucionário ao mesmo tempo: o Brasil não precisava copiar a Europa para produzir uma arte universal.
Aldemir ajudou a provar isso.
Décadas depois, em Mato Grosso do Sul, uma pergunta semelhante começaria a surgir.
Não mais sobre o Brasil.
Sobre um Estado recém-criado.
Sobre um território que ainda buscava compreender sua própria imagem.
Quem somos?
O que existe aqui que só existe aqui?
Como traduzir visualmente esta terra de rios, fronteiras, pantanais, serras, cerrados e povos originários?
Foi nesse contexto que artistas como Henrique Spengler, Jonir Figueiredo, Adilson Schiffer, e outros nomes ligados ao Movimento Guaicuru passaram a investigar uma identidade estética para Mato Grosso do Sul.
Não procuravam criar uma arte isolada do mundo. Procuravam compreender o território que habitavam.
Era uma pergunta artística. Mas também era uma pergunta política.
Era uma pergunta sobre pertencimento.
É justamente aí que reside uma das maiores questões culturais do Estado.
Porque, se o modernismo brasileiro procurou responder quem era o Brasil, o Movimento Guaicuru tentou responder quem era Mato Grosso do Sul.
A diferença é que hoje poucos brasileiros questionam a importância de Tarsila do Amaral.
Poucos questionam a importância de Portinari.
Poucos questionam a importância de Mário de Andrade.
Mas será que já reconhecemos plenamente aqueles que fizeram, em escala regional, um esforço semelhante?
Quantos sul-mato-grossenses sabem quem foi Henrique Spengler?
Quantos conhecem a trajetória de Jonir Figueiredo?
Quantos já ouviram falar da contribuição de Adilson Schiffer, para a construção de uma identidade visual do Estado?
Enquanto isso, duas mulheres vindas do Ceará ajudavam a construir pontes fundamentais para a cultura sul-mato-grossense.
Maria da Glória Sá Rosa e Iracema Sampaio não nasceram aqui. Nasceram na terra de Aldemir Martins. Ainda assim, ajudaram a organizar, interpretar, defender e valorizar a produção cultural deste território durante décadas. Uma na academia. A outra na culinária.
Existe uma ironia bonita nessa história.
Algumas pessoas que chegaram de fora conseguiram perceber com mais clareza aquilo que nós mesmos ainda não havíamos aprendido a enxergar.
E então surge uma pergunta que merece ser feita sem rodeios.
Por que é tão fácil admirar a cultura dos outros e tão difícil reconhecer a grandeza daquilo que nasceu ao nosso lado?
Tomemos como exemplo Humberto Espíndola.
Poucos artistas brasileiros realizaram uma operação estética tão ousada quanto a dele.
Enquanto muitos tentavam se afastar dos símbolos associados ao interior, Humberto mergulhou justamente naquele que parecia mais improvável: o boi.
A mesma figura que movimenta a economia, ocupa as paisagens rurais e ajuda a moldar a história regional tornou-se personagem central de uma trajetória da obra do Humberto Espíndola.
Humberto transformou o boi em arte contemporânea.
Transformou o boi em linguagem, em reflexão.
Transformou o boi em identidade.
Os bois de Humberto Espíndola nos tomam de assalto. Carregam o cheiro do curral, da terra, da poeira vermelha das estradas e da pecuária que ajudou a desenhar parte da formação econômica deste Estado e desenhou a expansão do oeste brasileiro. Gostemos ou não, eles falam de nós.
Mas será que já compreendemos plenamente o que ele fez?
O mesmo pode ser dito de Manoel de Barros.
O Brasil inteiro cita Manoel.
Poucos o leem com profundidade.
Menos ainda percebem que sua obra não trata apenas de poesia.
Manoel ajudou a construir uma forma de olhar o Pantanal.
Uma forma de perceber o pequeno.
Uma forma de atribuir valor ao que parecia invisível. Qual seu olhar sobre esses artistas? Você consegue definir?
E o que dizer de Jonir Figueiredo? De Henrique Spengler? De Adilson Schiffer? E de tantos outros artistas, escritores, músicos, escultores, pesquisadores e pensadores que participaram da construção simbólica deste Estado?
Quantos mais precisaremos produzir?
Quantos mais precisaremos ver nascer?
Quantos mais precisarão envelhecer sem ocupar o espaço de reconhecimento que lhes cabe?
Mato Grosso do Sul possui grandes festivais.
Temos o Festival América do Sul.
Temos o Festival de Inverno de Bonito.
Temos a Flib, que chega à sua décima edição.
Tivemos a Bienal do Pantanal.
Recebemos artistas nacionais e internacionais.
Recebemos escritores, músicos, intelectuais e criadores de diferentes partes do Brasil e do mundo.
E isso é importante.
A cultura cresce pelo encontro.
Mas existe uma pergunta que merece acompanhar todos esses eventos e movimentos.
Eles estão apenas trazendo programação cultural para consumo imediato ou também estão ajudando Mato Grosso do Sul a reconhecer seus próprios intérpretes?
Porque um festival pode ser uma vitrine.
Mas também pode ser um espelho.
Sinceramente, o desafio cultural do Estado não é produzir artistas.
Os artistas já existem.
As obras já existem.
As trajetórias já existem.
O desafio seja produzir reconhecimento.
E quem sabe seja também transformar criadores em patrimônio simbólico compartilhado.
Porque reconhecer um artista não é apenas celebrar uma carreira.
É reconhecer uma parte daquilo que somos.
Em 1956, uma banca internacional em Veneza conseguiu perceber a potência estética de Aldemir Martins.
Quase setenta anos depois, a pergunta permanece aberta para nós.
Quantos artistas ainda precisarão ser reconhecidos lá fora antes que a gente decida enxergá-los aqui dentro, em nosso território?
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SÉRGIO CARVALHO
Sérgio Carvalho é jornalista, roteirista, diretor de documentários e analista de cultura e comportamento, formado pela Universidade Anhanguera, com graduação complementar em História. Atua há quase 40 anos no jornalismo, com trajetória em rádio, TV e plataformas digitais, integrando atualmente a Educativa MS. Trabalhou por duas décadas em afiliada da Rede Globo em Mato Grosso do Sul e foi editor de Brasil no Jornal da Globo, em São Paulo. Ao longo da carreira, participou de coberturas de grande relevância nacional, com produções para programas como Globo Repórter e Fantástico. Com atuação também no jornalismo investigativo e de dados, foi indicado ao Prêmio Tim Lopes. Antes do jornalismo, construiu trajetória nas artes cênicas, com mais de dez anos de atuação como ator, sendo premiado dentro e fora do Estado. Seu trabalho articula comunicação, cultura e comportamento, com olhar voltado à leitura do presente e das transformações sociais.
Leia outros artigos da coluna: Território Cultural
A Arte Sul-mato-grossense vai crescendo e se consolidando pelas mãos de seus atores culturais.
Parabéns pelo inspirador artigo.