Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Território Cultural

O que a gente chama de cultura (e o que fica de fora?)

A cultura que atravessa gerações não vive apenas nos registros oficiais, mas nas festas, nos afetos e nas histórias que carregamos dentro de nós

Publicado em 19/06/2026 11:42 - Sérgio Carvalho

Divulgação

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Sempre que ouço os primeiros versos da canção que acompanha o Banho de São João de Corumbá, algo acontece.

“Se São João soubesse que hoje era seu dia, descia do céu à terra com prazer e alegria…”

SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAMFACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP

Já ouvi essa música muitas vezes.

Como espectador.

Como jornalista.

Como alguém que nasceu no interior de Pernambuco e cresceu entendendo que São João não era apenas uma data do calendário. Era um tempo do ano que transformava as ruas, as casas e as pessoas.

Lá, no interior das terras que Ariano Suassuna ajudou a transformar em literatura, as lembranças passam pela fogueira acesa em frente de casa, pelas bandeirinhas coloridas balançando ao vento, pelo milho verde cozido no fim da tarde e pela reunião da família em volta da mesa na produção de pamonhas, canjicas e outras delícias da época. Passam também pela sensação de que a rua inteira participava da mesma celebração.

Anos depois, a vida me trouxe para Ladário e Corumbá, região do pantanal.

E foi aqui, em terras do poeta Manoel de Barros, que encontrei outra forma de viver a mesma tradição.

Em Corumbá, São João desce a ladeira.

Atravessa a cidade.

Chega ao Rio Paraguai.

A canção religiosa se mistura aos instrumentos de sopro e ganha melodia que se assemelham ao frevo pernambucano. Os andores balançam nos ombros dos festeiros. O fiel vira folião. O festeiro volta a ser fiel.

Durante décadas acompanhei esse movimento.

Primeiro como alguém encantado pela festa, pelas cores, pelos cheiros e pelos movimentos.

Depois como jornalista.

O Banho de São João esteve presente em diferentes momentos da minha trajetória profissional e deu origem a algumas das reportagens mais bonitas que produzi para a televisão brasileira. Foi essa festa que deu visibilidade nacional ao que era realizado distante de Caruaru e Campina Grande.

Mas a notícia era apenas uma parte da história.

O que eu via não era apenas uma festa.

Era uma comunidade reafirmando quem é.

Abro aqui um parêntese.

Em 2021, o Banho de São João de Corumbá foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

O reconhecimento é importante.

Mas a verdade é que a festa já era patrimônio muito antes do documento.

Era patrimônio para quem carregava os andores.

Para quem preparava os altares e terreiros de origem afro.

Para quem ensinava a canção aos filhos e netos.

Para quem mantinha viva uma tradição atravessando gerações.

E é justamente observando manifestações como essa que uma pergunta continua me acompanhando: o que a gente chama de cultura?

Quando pensamos em cultura, quase sempre lembramos dos museus, dos teatros, dos livros, dos concertos e das exposições.

Tudo isso é cultura.

Mas não é só isso.

Cultura também está nos rituais que passam de geração em geração sem depender de convite, de programação ou patrocínio.

Está na receita que passa de mãe para filha.

Na festa que o bairro inteiro ajuda a organizar.

Na procissão.

Na música.

Na memória compartilhada.

Por isso gosto tanto de olhar para o São João.

Porque ele muda de sotaque sem perder a essência.

Em Caruaru.

Em Campina Grande.

Em Corumbá.

As formas mudam.

As músicas mudam.

As paisagens mudam.

Mas permanece a necessidade humana de pertencimento.

E a festa do Banho de São João de Corumbá ainda guarda detalhes que ajudam a entender essa riqueza.

Diz a tradição que quem deseja se casar deve passar por baixo de sete andores diferentes durante a celebração.

Sete andores.

Sete pedidos.

Sete oportunidades para São João ouvir um coração apaixonado.

Conta a própria festa que muita gente cumpriu o ritual, fez o pedido e voltou no ano seguinte já acompanhada do marido, da esposa, do namorado ou da namorada.

É verdade?

É lenda?

É devoção?

É tudo isso ao mesmo tempo.

E é exatamente aí que mora a beleza das manifestações culturais.

Elas não sobrevivem porque estão registradas em um documento.

Elas sobrevivem porque continuam fazendo sentido para as pessoas.

Porque continuam sendo contadas.

Cantadas.

Compartilhadas.

Vividas.

Por isso eu gostaria de terminar esta conversa com uma pergunta.

Qual é a tradição que faz você se sentir em casa? Qual é a festa, a música, a comida, a celebração ou o costume que faz você lembrar de onde veio?

Compartilhe essa história.

Porque a cultura que permanece viva não é apenas aquela que está registrada nos livros.

É aquela que continua morando dentro da gente.

SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON

A fronteira que não aparece nas manchetes

SÉRGIO CARVALHO

Sérgio Carvalho é jornalista, roteirista, diretor de documentários e analista de cultura e comportamento, formado pela Universidade Anhanguera, com graduação complementar em História. Atua há quase 40 anos no jornalismo, com trajetória em rádio, TV e plataformas digitais, integrando atualmente a Educativa MS. Trabalhou por duas décadas em afiliada da Rede Globo em Mato Grosso do Sul e foi editor de Brasil no Jornal da Globo, em São Paulo. Ao longo da carreira, participou de coberturas de grande relevância nacional, com produções para programas como Globo Repórter e Fantástico. Com atuação também no jornalismo investigativo e de dados, foi indicado ao Prêmio Tim Lopes. Antes do jornalismo, construiu trajetória nas artes cênicas, com mais de dez anos de atuação como ator, sendo premiado dentro e fora do Estado. Seu trabalho articula comunicação, cultura e comportamento, com olhar voltado à leitura do presente e das transformações sociais.

 

Leia outros artigos da coluna: Território Cultural

Sérgio Carvalho


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *