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Território Cultural
Nem tudo o que permanece na nossa vida foi escolhido de forma consciente
Publicado em 09/05/2026 1:17 - Sérgio Carvalho
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Nem tudo o que permanece na nossa vida foi escolhido de forma consciente
Algumas coisas simplesmente continuam.
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Estão no jeito de falar, nas palavras que repetimos sem pensar, nos hábitos que carregamos de um lugar para o outro sem nunca ter parado para observar de onde vieram.
A cultura, muitas vezes, se instala assim.
Sem anúncio.
Sem decisão formal.
Durante muito tempo, associei cultura ao que podia ser visto com clareza. Ao que podia ser tocado e ter endereço certo. A manifestação, o evento, o gesto coletivo organizado. Aquilo que se apresenta e pode ser reconhecido como expressão.
Com o tempo aprendi que existe uma outra camada, mais silenciosa, que sustenta tudo isso.
É o que permanece.
E o que permanece, quase sempre, não passa por escolha consciente.
No meu caso, isso também aparece no paladar.
Tenho uma relação muito próxima com a farofa. Um prato simples, feito a partir da farinha de mandioca, que atravessa o país assumindo formas diferentes. Em alguns lugares, a mandioca vira bolo. Em outros, muda de nome, de preparo, de textura. Mas não desaparece.
Ela permanece.
Se para mim a farofa carrega uma memória direta, em outros contextos ela assume outros sentidos. Nas comitivas pantaneiras, faz parte do cardápio dos boiadeiros. Está presente no cotidiano de quem atravessa longas distâncias a trabalho na planície alagada. No interior do Nordeste, de onde venho, também acompanha o trabalhador rural, como alimento constante, prático, incorporado à rotina.
Não se trata apenas de um prato.
É um elemento que liga pontos de um país continental como o Brasil.
E, ainda assim, raramente é questionado.
Não paramos para pensar por que ele permanece. Apenas seguimos consumindo, repetindo, carregando esse hábito como parte natural da vida.
E talvez a cultura funcione assim em outras camadas.
Da mesma forma que o paladar guarda permanências, a linguagem também revela aquilo que continua.
Outro dia, em uma conversa simples, me dei conta de que ainda uso expressões que não pertencem ao lugar onde estou. Palavras que vieram de longe e que continuam aqui, atravessando contextos, se adaptando sem desaparecer completamente, mesmo que com outro sotaque.
Não foi uma decisão manter isso.
Mas também não foi por acaso.
A cultura tem esse comportamento curioso. Ela não depende apenas de grandes movimentos para existir. Ela se mantém, muitas vezes, nas pequenas repetições.
No cotidiano.
No automático.
E é justamente por isso que ela se torna tão difícil de perceber em profundidade.
Porque aquilo que é constante deixa de chamar atenção.
A gente só estranha o que muda.
Raramente o que permanece.
Mas talvez seja justamente aí que esteja uma das camadas mais importantes da cultura.
Aquilo que continua, mesmo sem esforço, diz muito sobre o que foi incorporado de verdade.
Não como referência.
Mas como parte da estrutura.
E quando a gente começa a perceber isso, uma outra pergunta aparece.
O que, hoje, estamos mantendo sem perceber?
E, principalmente, o que isso diz sobre quem estamos nos tornando?
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SÉRGIO CARVALHO
Sérgio Carvalho é jornalista, roteirista, diretor de documentários e analista de cultura e comportamento, formado pela Universidade Anhanguera, com graduação complementar em História. Atua há quase 40 anos no jornalismo, com trajetória em rádio, TV e plataformas digitais, integrando atualmente a Educativa MS. Trabalhou por duas décadas em afiliada da Rede Globo em Mato Grosso do Sul e foi editor de Brasil no Jornal da Globo, em São Paulo. Ao longo da carreira, participou de coberturas de grande relevância nacional, com produções para programas como Globo Repórter e Fantástico. Com atuação também no jornalismo investigativo e de dados, foi indicado ao Prêmio Tim Lopes. Antes do jornalismo, construiu trajetória nas artes cênicas, com mais de dez anos de atuação como ator, sendo premiado dentro e fora do Estado. Seu trabalho articula comunicação, cultura e comportamento, com olhar voltado à leitura do presente e das transformações sociais.
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Disse tudo Sérgio! Cultura é aquilo que nos convida ao pertencimento!!! E quando nós enxergamos, nas manifestações culturais, nos damos valor!!! Pro isso a necessidade do artista ter a possibilidade de mostrar sua arte para a região onde mora!! Porque ele conta, pra nós mesmos, quem somos e propõe mudanças profundas na sociedade onde vive! Parabéns pelo texto!????????????