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Território Cultural

A cultura que a gente vive, mesmo sem perceber

Cultura não está apenas nos palcos ou nos museus: ela está no que vestimos, no que comemos e nas escolhas que fazemos

Publicado em 03/05/2026 11:45 - Sérgio Carvalho

Divulgação

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Há um momento em que a cultura deixa de ser apenas expressão e passa a ser revelação.  Revelação de quem somos, do que escolhemos preservar e, sobretudo, do que aceitamos transformar.

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Durante muito tempo, aprendi a observar a cultura como manifestação. A música, a festa, o gesto coletivo, o modo de ocupar a rua, o silêncio de determinados espaços, o movimento do corpo nos palcos.

Essa foi, inclusive, a minha primeira formação acadêmica.

Mas o tempo amplia esse campo.

A cultura não é apenas o que se apresenta. É também o que se estrutura por trás.

E é nesse ponto que uma ideia, que me acompanha desde a formação, se torna cada vez mais clara. Cultura não é neutra. Ela é construída. Organiza sentidos, estabelece limites, define pertencimentos.

Esse entendimento dialoga com um pensamento que atravessa a formação cultural brasileira e que encontra na filósofa Marilena Chauí, uma das principais pensadoras do país, uma de suas leituras mais consistentes. A cultura não é apenas aquilo que se produz. É também aquilo que organiza a forma como a sociedade se reconhece e, muitas vezes, se condiciona.

Talvez por isso a cultura seja tão fácil de reconhecer e, ao mesmo tempo, tão difícil de explicar.

Eu nasci no interior do Nordeste. Carrego comigo uma formação cultural marcada por uma região onde a identidade não é apenas vivida, ela é afirmada, todos os dias.

Está na música, na fala, na forma de contar histórias. Está na presença de nomes como Luiz Gonzaga e Ariano Suassuna, que transformaram expressão em identidade.

Essa formação não desaparece. Mas ela encontra outras. Ao longo da vida, fui transformado por novos territórios.

E Mato Grosso do Sul não é apenas um lugar onde estou. É um lugar que também me formou. Está na sonoridade de uma viola de cocho, no ritmo de uma guarânia, na paisagem que se impõe no silêncio. Está no barulho distante de um trem, no fim de tarde cortado por um monomotor no céu, em uma estética que não precisa de excesso para existir.

E, de forma muito concreta, está também no cotidiano. Hoje, se me perguntam sobre um prato que me representa, a resposta não vem da infância. Vem daqui: arroz carreteiro com ovo frito.

É nesse ponto que a cultura revela sua camada mais profunda. Ela não é apenas origem. É acúmulo. É aquilo que chega, permanece e passa a fazer parte de quem somos.

E talvez seja justamente aqui que o pensamento de Marilena Chauí volta a fazer sentido. Quando entendemos que cultura não é só expressão, mas também estrutura, passamos a perceber que nada do que se mantém é por acaso.

Por isso, olhar para a cultura hoje exige mais do que admiração. Exige leitura.

O que está sendo preservado?

O que está sendo substituído?

E, principalmente, quem está decidindo isso?

No ambiente contemporâneo, essa disputa também se desloca para o digital.

O que antes acontecia nas ruas e nas festas agora se reorganiza nas redes, nos algoritmos, nas tendências que surgem e desaparecem em velocidade quase instantânea.

Mas a lógica permanece.

Cultura continua sendo construção. E toda construção envolve escolha.

Talvez o ponto mais sensível esteja justamente aí. Perceber que participar da cultura não é apenas consumir o que está disponível. É, de alguma forma, colaborar com aquilo que se mantém. Seja no que se fortalece, seja no que se perde.

E, nesse cenário, a pergunta deixa de ser estética e passa a ser ética.

Que cultura estamos ajudando a sustentar, todos os dias, mesmo sem perceber?

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SÉRGIO CARVALHO

Sérgio Carvalho é jornalista, roteirista, diretor de documentários e analista de cultura e comportamento, formado pela Universidade Anhanguera, com graduação complementar em História. Atua há quase 40 anos no jornalismo, com trajetória em rádio, TV e plataformas digitais, integrando atualmente a Educativa MS. Trabalhou por duas décadas em afiliada da Rede Globo em Mato Grosso do Sul e foi editor de Brasil no Jornal da Globo, em São Paulo. Ao longo da carreira, participou de coberturas de grande relevância nacional, com produções para programas como Globo Repórter e Fantástico. Com atuação também no jornalismo investigativo e de dados, foi indicado ao Prêmio Tim Lopes. Antes do jornalismo, construiu trajetória nas artes cênicas, com mais de dez anos de atuação como ator, sendo premiado dentro e fora do Estado. Seu trabalho articula comunicação, cultura e comportamento, com olhar voltado à leitura do presente e das transformações sociais.

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2 respostas para “A cultura que a gente vive, mesmo sem perceber”

  1. Márcia Meggiolaro disse:

    Parabéns Serginho, e sucesso no projeto que, com certeza, será de grande qualidade, como tudo o que você faz.

  2. Gilson Espindola disse:

    MUITO BOM SERGINHO… VOCÊ TEM LUGAR DE FALA PRA ISSO!!! PARABENS!!! TÁ MUITO A VONTADE… SUPER NATURAL… QUEM FALA COM CONHECIMENTO É DIFERENTE NÉ!!!!

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