22/04/2024 - Edição 540

Camaleoa

O deserto desesperador de uma cidade em dia de jogo da Seleção Brasileira

Publicado em 27/06/2014 12:00 - Cristina Livramento

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Campo Grande, com exceção da Vila Brasil e alguns bares e restaurantes, tem ficado deserta em dias de jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. É como se a cidade perdesse o significado, feito uma roupa nova que a gente se arrepende de ter comprado e deixa lá no fundo da gaveta. A gente até empurra mais para o fundo para evitar o contato visual.

Trabalhadores, vestidos de verde e amarelo, se espremem em pontos de ônibus para chegar o mais rápido possível em casa enquanto o comércio mantém as portas fechadas. Nada de banca de revista aberta, aquele café entre revistas e jornais na avenida Afonso Pena da década de 90. Os bancos da praça Ary Coelho ficam abandonados e só os bravos donos de restaurantes mantém a comida quente e fresta porque é no trabalho que eles encontram significado para o existir – vocação.

Eu sonho com uma Campo Grande que um dia vai deixar de brigar por valores mais baixos pela hora cobrada em estacionamentos privados no Centro, um lugar em que os campo-grandenses vão lutar pelo transporte coletivo como uma alternativa ecológico-político-social e economicamente mais sensata. O bem coletivo prevalecendo sobre a individualidade porque a cidade que não vai parar de crescer. É um sonho que tenho e que respiro todo dia.

O bem coletivo prevalecendo sobre a individualidade porque a cidade que não vai parar de crescer. É um sonho que tenho e que respiro todo dia.

Eu sonho com uma Campo Grande que, em dia de jogo da Copa, vai sair para a rua e fazer fotografia do chão florido de ipês roxos no canteiro das avenidas, na beira dos córregos que nos atravessam o coração. Uma cidade onde, ao ser percorrida dentro de uma lotação, às 6h da manhã, nos permita levantar os olhos do chão prateado e nos deliciarmos com o amanhecer azul-alaranjado que desponta bem à nossa frente. Os neons dos hotéis do Centro nos dizem que o hoje é o agora e a vida pulsa na rua, em cada árvore que brota do concreto frio.

Campo Grande nos convida, todos os dias, para que possamos tomá-la pelas mãos em uma polca paraguaia rasgada entre risos e celebrações. É preciso urgente tomar os espaços públicos que nos pertencem. É preciso pegar a bicicleta, amarrar bem o tênis, colocar os óculos escuros e sair pela rua para sentir o cheiro da dama da noite que penetra a alma pela rua Ruy Barbosa.

Tenho saudade de um tempo que ainda está por chegar. Apesar de todas as dores e corpos em decomposição, desenterrados de fossas e expostos ao relento, de todos os nossos restos sobre calçadas amarrados em sacos pretos de plástico, espero que esse dia de sonho se torne realidade e que existam mais portas abertas para pessoas que alimentam a alma com o colorido de uma cidade, a conversa entre desconhecidos que se tornam amigos em um lugar qualquer, o olho no olho que transforma indivíduos em amigos para o resto da vida.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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