25/05/2024 - Edição 540

Ágora Digital

Momentos inesquecíveis que marcaram as homenagens dos foliões a eles, que nos fazem sambar diariamente

Publicado em 16/02/2018 12:00 - Victor Barone

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O carnaval de 2018 entrou para a história como um dos mais politizados de todos os tempos. Na esteira da condenação do ex-presidente Lula (PT-SP), e diante dos altos índices de impopularidade de Michel Temer (MDB-SP), o que não faltou na folia foram manifestações contra a classe política, como um todo, e figuras do Judiciário, como o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF) e o juiz Sérgio Moro.  Mas foi o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), que parece ter acendido o pavio da explosão do descontentamento popular. Dias depois de sua posse, no início de 2017, o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus anunciou, como uma das primeiras medidas de sua gestão, que cortaria repasses da prefeitura para as escolas de samba, algo que tradicionalmente é assegurado às agremiações. Foi o que bastou para que não só a turma do samba, mas o próprio setor de cultura do estado – e, em certa medida, do país –, colocasse o bloco da resistência em marcha. Com a tradicional irreverência do brasileiro, os protestos ganharam ruas, bailes e avenidas do samba, principalmente a Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro.

Confira alguns momentos inesquecíveis que marcaram as homenagens dos foliões a eles, que nos fazem sambar diariamente.

Recado pro Crivela

Logo no primeiro dia de desfiles do grupo principal na Sapucaí, a Estação Primeira de Mangueira, uma das mais tradicionais e vitoriosas escolas de samba do país, mostrou a que veio com o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco” – um recado claro, direto a Crivella. Em um dos carros alegóricos, o próprio prefeito é retratado como o Judas bíblico, ao lado de uma faixa com a frase “Prefeito, pecado é não brincar o carnaval”!

Vampirão

A irreverência aliada à indignação do carnavalesco não poupou Michel Temer, o primeiro presidente da República investigado por suspeita de crime no exercício do mandato em toda a história do Brasil. E a tarefa de criticá-lo coube à escola de samba Paraíso do Tuiuti, estreante no grupo de elite dos desfiles. Retratado como um “vampiro neoliberalista”, a imagem de Temer como patrocinador de políticas que favorecem o mercado financeiro constrangeu apresentadores da TV Globo.

Ratazanas

O que teve início no domingo com a Estação Primeira de Mangueira e a estreante Paraíso do Tuiuti se repetiu na terça-feira (13) de forma ainda mais chocante na avenida do samba carioca. Com um enredo que caprichou na crítica ao poder e à corrupção no Brasil, a Beijar-Flor de Nilópolis levou ao grande público um Congresso com ratos.

Lula

Em um país polarizado à beira de um ataque de nervos, o ex-presidente Lula (PT-SP) não passaria incólume pelo espírito zombeteiro do povo. Acusado de ter recebido propina disfarçada em um tríplex no Guarujá e um sítio em Atibaia, litoral e interior de São Paulo, respectivamente, o petista também levou umas lambadas. Uma das marchinhas dedicadas ao petista brincou com a língua portuguesa ao falar de um tal Tio Lu – na verdade, a deixa para a letra de “Tio Lu lá no xilindró”.

Em outro desses registros que viralizam em plataformas como Facebook e Twitter, além do quase onipresente WhatsApp, o petista é brindado com uma irônica canção de samba no melhor estilo carioca. No sambinha “Não é nada meu”, o cantor Neguinho da Beija-Flor, puxador de samba da escola multicampeã homônima, junta-se ao sambista Boca Nervosa para zombar da defesa resoluta de Lula a respeito de suas posses.

Gilmar “habeas corpus” Mendes

Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes tem testado a paciência do povo brasileiro com os seguidos habeas corpus expedidos para tirar da cadeia figurões da política e do mundo empresarial. Durante a folia a criatividade brasileira, misturada à revolta contra os desmandos do poder, faz-se mais vicejante. O juiz, que tem o hábito de se reunir com Temer fora da agenda oficial, ganhou uma das marchinhas mais comentadas deste carnaval. Autor de canções que embalam o povo desde a década de 1960, o compositor João Roberto Kelly caprichou na verve e fez uma bem humorada e ácida crítica à postura de Gilmar, amigo de poderosos considerados corruptos e visto como alguém sempre disposto a ajudá-los com decisões polêmicas.

Recado a Temer

O caráter de politização deste carnaval de ano eleitoral transpôs as fronteiras da Marquês de Sapucaí, palco de críticas ferozes à classe política, espraiou-se para as ruas e desembocou no Aeroporto Santos Dumont, localizado no centro do Rio de Janeiro. Sob o espanto de agentes de segurança, uma multidão de foliões vinda de um bloco de rua adentrou o saguão do aeroporto na segunda-feira (12) e, multicolorida, encheu o ambiente de gritos contra o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, e o presidente Michel Temer.

Moro no Carnaval

O juiz Sergio Moro também foi alvo de marchinha de carnaval. “Este juiz, eu tô de olho, tô de olho, tô de olho”. Ouça.

Pagodinho

Até o sambista Zeca Pagodinho viralizou e virou meme no carnaval 2018. Desta vez não por algum episódio relacionado à cervejinha que ele tanto venera, mas devido à polêmica de uma foto quase não tirada com o prefeito de São Paulo, o tucano João Doria. A primeira versão que surgiu foi a de que Zeca, em um camarote no Sambódromo do Anhembi, recusou-se a tirar uma foto ao lado o político. As imagens da reação do artista ao encontro com o prefeito caíram nas graças da internet.

 

''Episódio Zeca Pagodinho”, escreveu Doria, acrescentando depois dos dois pontos: “Sou educado e cumprimento todas as pessoas, onde eu estiver. Continuarei a ser educado, mesmo com incompreensão de alguns.''

 

Fora Temer!

Em muitos momentos, o grito de guerra do folião foi Fora Temer.

Em Salvador

De novo os baianos

Na Augusta

Sambão

Presidente Despirocado

Mas não foi no Rio e em São Paulo que os políticos passaram por poucas e boas. Mais antigo bloco de carnaval de Brasília (criado em 1978), o tradicional Pacotão colocou em marcha toda a sua irreverência e acidez contra a classe política pelo 40º ano consecutivo. Como já era de se esperar, o presidente Michel Temer foi um dos alvos principais da turma, que preparou uma marchinha oficial intitulada “O presidente despirocado” – alusão desbocada ao fato de que o peemedebista passou, recentemente, por tratamento urológico e teve seus órgãos genitais afetados.

Neste ano, entidades aproveitaram o propósito do bloco para fazer um protesto criativo contra a reforma da Previdência. No vídeo abaixo, eles empilharam cédulas cenográficas para compor uma montanha de dinheiro – uma forma nada sutil para dizer a Temer que o setor previdenciário tem dinheiro sobrando e basta que ele seja bem distribuído. Além disso, a ideia é rechaçar a tese, encampada pelo governo Temer, de que servidores públicos acumulam privilégios e, por isso, sobrecarregam a Previdência Social.

Palhaçada

Não é só no Carnaval que os palhaços pululam. O empresário Eike Batista já foi um dos homens mais ricos do planeta, com uma fortuna estimada em US$ 34,5 bilhões. Hoje tem o “modesto” patrimônio de R$ 116 milhões. O bilionário que virou milionário passou três meses na prisão no ano passado, está proibido de sair à noite, aos finais de semana e feriados, e ainda tem contas a acertar com a Justiça. Mas, além de recuperar o dinheiro perdido, o que Eike quer agora é entrar para a política. Nada de Câmara ou Assembleia Legislativa, ele sonha é com o Senado.

Fanfarrões 

Muito sérios e sisudos em suas rotinas profissionais, e as vezes pessoais, esta turma do Judiciário gosta de fazer gênero… especialmente quando pousam de bons moços e próceres da ética e da lisura. Mas… Dezoito mil juízes deixaram de pagar R$ 360 milhões por ano de Imposto de Renda graças à isenção tributária de “penduricalhos” como os auxílios para moradia, alimentação e saúde. Por serem enquadrados como indenização, esses benefícios ficam isentos de imposto. Se fossem tributados, cada magistrado teria de pagar em média 19% de Imposto de Renda a mais para a Receita Federal, destaca a reportagem. Essa espécie de renúncia fiscal representa uma economia anual de aproximadamente R$ 20 mil a cada juiz, em média. Líderes da categoria e juízes de expressão, como Sérgio Moro, que recebe o auxílio-moradia de R$ 4,3 mil mesmo morando em casa própria em Curitiba, afirmam que os benefícios servem como complementação salarial devido ao que consideram uma defasagem em seus salários.

Minoria abre mão

Levantamento do jornal O Globo mostra que apenas 15% dos juízes e desembargadores federais abrem mão do auxílio-moradia. Dos 2.203 magistrados dos Tribunais Regionais Federais (TRFs), apenas 331 não receberam o benefício em dezembro. A Justiça Federal gastou R$ 8,2 milhões com esse tipo de verba apenas no período. Também é pequeno o número de integrantes do Judiciário que optam por não receber o dinheiro, pago inclusive para quem mora em casa própria.

Fortuna para bancar a toga

O contribuinte brasileiro vai bancar este ano mais de R$ 2 bilhões com o pagamento do auxílio-moradia a autoridades e funcionários de alto escalão, cuja remuneração pode passar dos R$ 30 mil. Para ter uma ideia, com o valor do benefício seria possível construir mais de 43 mil casas populares, ao custo de R$ 50 mil cada, ou conceder Bolsa Família para 11 milhões de pessoas.

Vaidade e vaias

De passagem por Boa Vista, para dar pitaco na situação dos refugiados venezuelanos, Michel Temer (MDB-SP) não poupou elogios a si mesmo. O auto de elevação pessoal só terminou quando jornalistas o questionaram sobre se o diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, ainda tem condições de permanecer no cargo. O presidente deu a conversa por encerrada. Os repórteres insistiram. Temer apenas sorriu, acenou e se foi. Em Roraima, o presidente ainda teve de ouvir sonoras vaias.

Bye, bye Huck

Caso a nova resolução do apresentador Luciano Huck (TV Globo) se confirme, o programa “Caldeirão do Huck” está garantido na temporada 2018. Cortejado por partidos como PSDB e PPS, Huck decidiu de uma vez por todas de disputar a corrida presidencial em outubro, e diz descartar até filiação a qualquer partido político.

Procura-se um candidato

Depois da negativa de seu protegido Luciano Huck (leia a nota acima), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) vai insistir em procurar uma alternativa fora de seu partido para a eleição ao Planalto. O primeiro nome a ser testado será o do empresário Flávio Rocha, dono das Lojas Riachuelo.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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